Wednesday, November 19, 2008

Cloverfield, de Matt Reeves


Isto foi um tremor de terra? A câmara abana. Aquilo é um monstro? A câmara abana. O que é aquilo, que não se viu bem? Nada se vê bem em Cloverfield, porque a câmara não pára de abanar. E quando, por meros instantes, assenta, o enquadramento é totalmente desajustado para que se veja alguma coisa de interesse.

Cloverfield pretende ser um falso documentário sobre o ataque a Manhattan de um monstro gigante. E, realmente, o pior que se pode dizer da película é que soa a falso. De ponta a ponta, temos a sensação de que um grupo de estudantes de cinema decidiu fazer uma versão de Godzilla com meia dúzia de tostões e a técnica de câmara pessoal iniciado por Blair Witch Project.

Verdade seja dita, a técnica popularizou-se com Blair Witch Project, mas já no ano anterior The Last Broadcast a utilizara e antes disso o filme de culto francês C’Est Arrivez Prez de Chez Vous. Portanto,Cloverfield falha a originalidade do artifício (tanto mais que em 2007 houve mais três projectos em semelhante formato de vídeo caseiro:RecPoughkeepsie Tapes Diary of the Dead) e da história (parece oGodzilla de 1998 contado por outros nova-iorquinos).

Usar o processo do reality show caseiro fica realmente em conta. Uma câmara e alguns actores desconhecidos, para não ser traída a ideia (apesar de ter de se poder perguntar, neste âmbito, quem contratou Jessica Lucas, de Life As We Know It, série já transmitida pela SIC Radical, e portanto a cara reconhecível de uma actriz), efeitos especiais sem brilho nem nitidez, um pequeno estúdio para duas ou três sequências mais “reais” (as quais se vê claramente terem sido filmadas num cenário, nomeadamente o interior de uma loja enquanto uma nuvem de fumo se adensa no exterior e algum equilibrismo no telhado de um prédio).

Houve quem questionasse, relativamente ao filme espanhol Rec (no qual uma equipa de filmagens de televisão fica selada dentro de um prédio cheio de zombies assassinos, para efeitos de contenção e quarentena), se era credível que um cameraman aguentasse uma câmara ao ombro durante fugas desenfreadas e muito perigo de vida. Então o que dizer de Cloverfield, onde um grupo de amigos atravessa metade de Manhattan para ir salvar a namorada de um deles, que ficou presa dentro do seu apartamento e não pode assim fugir do monstro gigante que está literalmente a arrasar a cidade, arrebentando edifícios e largando pela barriga uma ninhada de criaturas tentaculares próximas dos aracnídeos de Starship Troopers? Em meio ao pânico e até a um ataque das ditas criaturas do tamanho de cães, o cameraman de serviço, um adolescente apanhado no caos, durante uma festa de despedida, não larga a câmara nem por um segundo, quer estejam a correr desenfreadamente, a enfrentar monstros, a subir prédios de 59 andares usando as escadas (quem é que teria fôlego para isso depois de ter corrido avenidas a fio, no meio de explosões e outros perigos) ou a saltar de um prédio para outro, só para dar alguns exemplos? E que câmara é que sobreviveria a tudo isto, incluindo uma queda de várias centenas de metros de altura, de dentro de um helicóptero despenhado, sem sequer arranhar (já nem digo “partir”) a lente da objectiva?

J. J. Abrams, produtor das séries Lost e Alias e realizador de Missão: Impossível III é a força motriz por trás do projecto. Tal facto não vale de nada. A produção pode achar-se o máximo e a publicidade económica que processou na Internet tê-lo promovido como inovador e emocionante, mas no fim ninguém se lembra que o monstro decepou a Estátua da Liberdade ou partiu a Ponte de Brooklyn, apenas que foi um frete ver hora e meia de câmara convulsiva, efeitos especiais medíocres, sem o menor investimento nos personagens, sem suspense, sem ritmo, sem realismo. Só para não dizer que foi tudo mau, são interessantes aqueles momentos que a gravação não passou por cima, alguns segundos de uma gravação anterior de um passeio a Coney Island entre o rapaz que quer salvar a miúda que ama e a sua donzela, em dia sem apuros.

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