Wednesday, November 19, 2008

Cativeiro, de Roland Joffé


Uma jovem modelo é raptada e torturada psicologicamente por uma figura que se esconde nas sombras, até descobrir que não é a única prisioneira daquela cave cavernosa. Esta é a premissa do novo filme de Roland Joffé, que não filmava desde 2000 (Vatel) e cujo projecto sobre as cantoras pop T.A.T.U. anda enguiçado e já perdeu a protagonista, Mischa Barton.

Completamente fora do seu habitat natural, o realizador Roland Joffé (Terra Sangrenta e A Missão) demonstrou uma capacidade de criar ambientes atmosféricos negros como não se lhe imaginava (O Coleccionador de Olhos tinha cenários fortes, mas não soube deles tirar partido, por exemplo) e contornou as dificuldades que se lhe apresentavam com desenvoltura e um competente golpe de rins. Há momentos em que a iluminação e os movimentos de câmara contribuem para dar uma camada muito próxima do desenho animado, especialmente nos últimos quinze minutos, mais luminosos, do filme.

O ano de 2003 trouxe consigo um remake de Massacre no Texas que mostrou que a tortura ainda era um chamariz. Isso conduziu à luz verde ao projecto Hostel (I e II – 2005 e 2007), de Eli Roth, a uma prequela de Massacre no Texas (2006), Turistas (2006) e à saga deSaw (à carga de um por ano, de 2004, estreia em 31 de Outubro de 2007 a quarta entrega). O género ganhou, eventualmente, nome (torture porn), mas com tanta oferta e tão pouca originalidade, rapidamente estagnou e encontra-se agora moribundo. Cativeirosofreu com esta fartura que deu em fastio, e afundou nas bilheteiras. Interessa, porém, explicar que há algumas razões para além do filme a explicarem o flop. Primeiro do que tudo, o filme foi boicotado antes de nascer, pois o seu marketing arriscado (cartazes de rua considerados chocantes) foi criticado, levando o MPAA (entidade que classifica, nos EUA, os filmes por idades) a ameaçar não dar classificação ao filme se este não retirasse os cartazes (que não tinham sido previamente aprovados). Depois, porque os executivos da After Dark (parceiro da distribuidora Lionsgate) decidiram refilmar algumas cenas, para intensificar o gore das torturas, as quais vieram a ser apelidadas de inutilmente cruéis e obscenas, sem compensação ou justificação dramatúrgica.

Por essa razão, o filme foi novamente montado e sofreu cortes substanciais, perdendo-se a película onde constavam um banho de ácido, um batido de polpa humana e snuffs das anteriores vítimas (resta apenas uma amostra rápida). Enquanto não aparece a versãounratedCativeiro torna-se tão morno que o mais perigoso que acontece à cativa é ouvir barulhos assustadores e ser obrigada a trajar vestidos de gala com incómodos saltos altos, se não contarmos com o facto de que, a dada altura, é enclausurada numa caixa de vidro para onde é vertida areia até cima.

Cativeiro é resgatado da sensaboria por uma parte final com algumas surpresas curiosas, umas mais previsíveis do que as outras, mas assiste-se a um sopro de vida com insuspeito ritmo e vigor, brincando com Gritos, de Wes Craven (1996), mais do que com Saw,com o qual tem sido comparado amiúde pela crítica americana.

Elisha Cuthbert saltou para a ribalta com a série 24, e Casa de Ceradeu-lhe um lugar na galeria do terror juvenil. Aqui solta meia dúzia de gritinhos, mas não consegue transmitir qualquer medo ou sensação de terror, o que, conjugado com a ausência das cenas de tortura cortadas, esbate demasiado a intensidade necessária à sobrevivência do suspense. Taylor Pruitt Vince (Identidade Misteriosa) anda a trabalhar de barato e Michael Harney parece-se espantosamente com Bruno Ganz, mas afinal é apenas Michael Harney.

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