Sunday, November 23, 2008

A L'Interieur, de Alexandre Bustillo e Julien Maury


O renascimento do cinema francês de terror tem acelerado nos últimos anos, com títulos como Baise-Moi (2000), Dans Ma Peau (2002), Irreversível (2002), Alta Tensão (2003), Eles (2006) eFronteira(s) (2007), mas nenhum é tão impressionante e inesperado como A L'Interieur. Qual descontrolada montanha russa macabra, este filme não recua perante nada, sugando-nos através de um vórtice de demência com uma frieza implacável. Muito para além de qualquer torture porn americano, este trabalho de laivos góticos é inigualável no seu banho de sangue, de uma audácia e ousadia que não conhecem limites. É a prova de que gore excessivo não é necessariamente um defeito, se for adequadamente explorado.

A história é simples. Na véspera de dar à luz, uma mãe solteira é incomodada por uma mulher que lhe toca à campainha a altas horas da noite a pedir para entrar. A recusa não vai ser tão simples. É um mero pormenor, mas sublime quando nos detemos nele, que a princípio não simpatizemos com Alysson Paradis (irmã de Vanessa Paradis), mas a impenetrável e perturbadora figura de Beatrice Dalle como anjo vingador vai abalar todas as nossas barreiras e fazer-nos torcer por ela até à exaustão.

Primeira obra de Alexandre Bustillo e Julien Maury, com distribuição da Dimension Extreme (uma etiqueta dos irmãos Weinstein da Miramax para albergar títulos bizarros), A L'Interieur é um filme surreal e grotesco, cujo maior feito é manter um pé na autenticidade e o outro enfiado na trituradora. A abertura é imediatamente promissora, quando assistimos a um feto lactante dentro da barriga da mãe e o rosto deste choca subitamente contra a câmara, em resultado de uma paragem brusca. É pena o feto em CGI ser pouco realista (e descabidamente cómico) e a maquilhagem do rasgão no rosto da protagonista não sobreviver aos close-ups, mas esses apontamentos não fazem a menor mossa naquele que é um dos exercícios mais marcantes e estranhamente apelativos do cinema de terror actual.

Jaume Balagueró, realizador de [Rec] (2007), revelou à mítica revista Fangoria o seu interesse em dirigir um remake de A L'Interieur.

A L'Interieur 2007

Escuridão, de Jaume Balagueró


Enésima história de casa assombrada, Escuridão falha pela banalidade do argumento, das prestações e dos sustos. A direcção de fotografia cria algumas imagens interessantes na primeira parte mas, na ausência de uma história que as suporte, estas perdem-se no vazio de uma segunda parte simples e funcional.

Para não falar da aberração que é o clímax (Iain Glen no círculo é demasiado à pressão), como é possível que ninguém naquela casa ache que as senhoras vitorianas da foto encontrada no armário são demasiado bizarras (têm os olhos tão encovados que parecem usar óculos escuros), nem mesmo depois de a emoldurarem na parede ?

Em 1999, Jaume Balagueró apresentou um intenso Os Sem Nome(baseado no livro de Ramsey Campbell), mas desde aí tem escrito os argumentos e a qualidade narrativa decaiu sobremaneira (Escuridãoe Frágeis). Em 2007 teve sorte de o seu filme de zombies de câmara ao ombro ter caído no goto (Quarentena é o seu remake americano de 2008) e prepara já uma sequela, [Rec]2.

O elenco parece ter vindo de todo o lado. Anna Paquin é uma canadiana que cresceu na Nova Zelândia, Lena Olin é sueca, Iain Glen é escocês, Giancarlo Gianini italiano, Fele Martinez espanhol e o pequeno Stephan Enquist de Singapura (pai sueco e mãe espanhola). Não havia necessidade de tantos sotaques, quando nenhum é assustador.

Darkness 2002

Thursday, November 20, 2008

The strangers, de Bryan Bertino

Em 2006, dois franceses alcançaram o inesperado. Sem banda sonora e apenas dois actores, David Moreau e Xavier Palud conseguiram manter um suspense irrespirável durante 70 minutos. Eles usava magistralmente pequenos artifícios como pedras lançadas contra vidros, batidas na porta e sombras fugidias, criando uma atmosfera de intimidação inacreditável.

The Strangers é um descarado remake americano de Eles, por um realizador-argumentista aldrabão, que abusivamente atribui a inspiração a eventos reais (sim, os irmãos Cohen disseram o mesmo sobre Fargo) e em entrevista sublinhou os homicídios de Charles Manson e o facto de uma vez em criança ter aberto a porta a um estranho que lhe perguntou por alguém que não morava ali e nessa noite casas das redondezas terem sido assaltadas. Sobre Eles, nem uma palavra.

Na esperança de que poucos americanos tivessem visto o filme francês, Bryan Bertino utilizou exactamente o mesmo estratagema. Uma casa próxima de um pinhal, um casal sozinho e três figuras com os rostos cobertos (gorros no original, máscaras na versão americana) a tentarem amedrontá-los. Pedras contra os vidros, pancadas na porta e sombras fugidias. Até a justificação dos maus para os seus actos, que pode ler-se no próprio cartaz (Porque estavam em casa), é muito próxima da de Eles (Só queríamos brincar). Mas em vez de uma atmosfera de intimidação, lê-se apenas o seguimento de uma fórmula e muito aborrecimento.

Não há desenvolvimento dos personagens. Os protagonistas são tão anónimos como os psicopatas, com a mera diferença de que não usam máscaras e sabemos onde moram. Através de um flashback, é-nos relatado que ele a pediu em casamento nessa noite e ela recusou, mas não sabemos porquê. Quando os sustos começam, agem de modo assustado. Os psicopatas não têm expressão, não só por cobrirem o rosto, como pelo facto de não falarem. Como o filme é americano, eventualmente acabam-se as pedras para atirar às janelas e o armário dos clichés é escancarado à nossa frente (e faz perguntar como é que num filme que se quer baseado em factos reais o psicopata pode estar mesmo atrás da vítima, mas quando esta se vira não está lá ninguém). No final, assiste-se a um curto torture porn, tão introvertido que mete dó.

O filme abre com uma narração que pretende lembrar a da saga Massacre no Texas (1974), mas tão artificial e a querer colar-se ao figurino que se confunde mais com a de Cobra (1986). Liv Tyler foi uma péssima escolha (ela e Scott Speedman formam o casal vítima), não porque não saiba gritar a contento, mas porque se perde demasiado tempo a pensar em como está gorda.

Noutra produção de 2007, também Kate Beckinsale (que faz dupla com Scott Speedman na trilogia Underworld) entrou num filme com contornos semelhantes, O Motel. Brincadeiras Perigosas, de Michael Haneke, um original de 1997 e com remake de 2007, pode considerar-se percursor deste tipo de thriller. Mas, nunca será demais repetir, The Strangers é demasiado baço, especialmente por apenas repetir uma fórmula e respectivos clichés.

Fica a curiosidade de que David Moreau e Xavier Palud, os responsáveis por Eles, rumaram para Hollywood com um convite para realizarem o remake de O Olho (2008) dos irmãos Pang (2002) e não poderiam ter feito pior trabalho.

The Strangers 2008

Wednesday, November 19, 2008

Exte: Hair Extensions, de Sion Sono


Um elemento indissociável dos filmes de terror asiáticos prende-se com longas cabeleiras negras, que ora cobrem misteriosamente rostos maléficos, ora se espalham como ondas pelo tecto de armários com cheiro a alma penada. Mais do que um anúncio Vidal Sassoon, esta é uma imagem de marca da beleza oriental, onde os cabelos nunca encaracolam naturalmente.

Sion Sono (Clube Suicida, 2002) partiu desta ideia e eliminou o intermediário humano, que seria apenas um saco para o cabelo se desenvolver e fazer maldades. Infelizmente, optando por desenvolver o conceito sozinho, Sion Sono tornou evidente a falta que um cérebro faz por baixo do couro cabeludo. Exte: Hair Extensions revela-se como um único gag que, uma vez esgotado, denuncia todas as falhas de um argumento feito em cima do joelho.

Uma montagem mais rápida, que encurtasse diálogos inúteis e reduzisse os momentos mortos ou irritantes (todo o subplot sobre a irmã prostituta que agride a filha e rouba a irmã), permitiria uma experiência mais satisfatória, ainda que o material em si nunca chegue a ter peso. Os flashbacks introduzem o tema do tráfico de órgãos, sem nada explicarem sobre a origem do cabelo assassino. Mas, enfim, quando o cabelo chega através de fax à casa da vítima, torna-se claro que a história nunca teve o rumo pensado e disparou em todos os sentidos, da comédia ao surrealismo, com meras pitadas de terror e muita obsessão. Convém dizer que a maioria dos efeitos pilosos se obtiveram através de animação fotoestática (stop motion) e não por computador, apesar dos bons resultados. E trabalhar com cabelo deve ser tão difícil como com animais.

Com Chiaki Kuryama, a actriz japonesa que em Kill Bill Vol. I vestia uniforme escolar e tinha por arma uma go go ball.

Ekusute 2007

Uma Chamada Perdida, de Eric Valette


Para quem ainda não percebeu que a imaginação desapareceu de Hollywood, chega mais um remake do horror asiático. O original de Takashi Miike (2003) já chegava depois de RinguJu-On e O Olhoterem dispersado sequelas a eito, mas o cineasta de Anjo ou Demónio (1999) e Ichi –O Assassino (2001) sempre foi demasiado persistente para não se lançar ao barco já depois de este ter largado o ancoradouro.

As cassetes de vídeo assassinas já tinham perdido a frescura com o advento do DVD e a internet também já tinha sido açambarcada porKairo (2003), mas os telemóveis ainda não tinham dono. A história de Chakushin Ari era estúpida e cheia de buracos, mas nada travaria Takashi Miike, disposto a assustar com qualquer barro que lhe pusessem à frente. E é por isso que o filme, de certa forma, escapa da total abnegação: Miike tem um controlo total sobre a mise-en-scène que mantém o cinéfilo na ponta do assento, atento e interessado, mesmo quando se torce o nariz à falta de lógica. Em 2005, o Japão produziria uma sequela de Chakushin Ari, mas realizada por um tarefeiro e directamente para o mercado de vídeo.

remake de Uma Chamada Perdida surge após os de Ring, Dark Water (ambos de Hideo Nakata), Kairo (Pulse em inglês), Ju-on – A Maldição e O Olho, tendo Ring, Ju-on e O Olho sequelas (e Ringu até tem uma prequela) asiáticas. Excluindo a versão de Gore Verbinski de Ring, que é melhor do que o original por uma gestão gráfica eficiente e por o amante da protagonista ser um homem normal, ao contrário de um médium como no original (o que provocou alguns facilitismos no descortinar do mistério em Ringu). Dito isto, fica claro que remake de Uma Chamada Perdida não merece grandes elogios. E não os merece porque Eric Valette não é Takashi Miike, e na verdade não é ninguém. Importado de França com um curioso filme sobrenatural passado quase integralmente dentro de uma cela prisional (Maléfique, 2002) e algum trabalho televisivo na valise, era duvidoso que a falta de ideias de Uma Chamada Perdida fosse compensada por um contraponto visualmente claustrofóbico e aterrorizador. Não foi.

Basicamente, o enredo de Uma Chamada Perdida segue um conjunto de vítimas que são avisadas da sua própria morte iminente através de uma mensagem de voz no seu telemóvel, em que ficam a saber o momento exacto em que vão morrer. A heroína tem de descobrir como livrar-se da maldição antes chegue a sua vez, auxiliada por um polícia cuja irmã foi vítima da mesma entidade. No final, muita coisa fica por explicar. Se (spoiler alert – salte para o parágrafo de baixo) a assassina era a filha fantasma e não a mãe como inicialmente pensado, quem contactava por voicemail era a mãe, a avisar as vítimas seguintes, e não a assassina. O que não se percebe é a razão do modus operandi da filha – se escolhesse vítimas sem telemóvel, a mãe não poderia avisá-las. E se a filha morreu em casa, com asma, qual a relação com o incêndio no hospital onde a mãe faleceu?

Uma Chamada Perdida não tem um único momento arrepiante. Atira imagens soltas de pessoas distorcidas por CGI de baixa qualidade contra a tela e apresenta um elenco desadequadíssimo. Shannyn Sossamon passava por estudante universitária em As Regras da Atracção e em 40 Dias e 40 Noites, ambos de 2002, mas seis anos mais tarde já estava a tempo de ter-se licenciado, tanto mais que tem trinta anos. Edward Burns tem precisamente quarenta anos, o que torna descabida a sugestão no final do filme de que ele e a estudante universitária (personagem por regra à volta dos dezoito/vinte anos) poderão vir a namorar.

Eric Valette afirmou não ter visto Chakushin Ari e ter pedido aos actores para o imitarem – mas, quando se faz um remake, este deve ser o passo mais estúpido que um realizador pode dar. Para não repetir possíveis erros do original e poder melhorar as cenas que vai recriar. Enfim, Eric Valette encontrou inúmeros erros novos para cometer. E cometeu-os todos.

One Missed Call 2008

Rogue, de Greg Mclean


Depois de entediar com um serial killer a motor, perdido algures nas estepes australianas, Greg Mclean submergiu o assassino e encheu-o de escamas. Para alimentá-lo, atirou um barco cheio de turistas para o seu território. É óbvio que o crocodilo ficará em jejum durante a maior parte da película, como mandam as leis da gestão do suspense, mas a verdade é que também o cinéfilo é deixado à fome, com um grupo de presas sem empatia, que pedimos que sejam comidas mais depressa, o que, infelizmente, não acontece.

Rogue não investe no enriquecimento dos personagens. Temos os refilões, os choramingas e os empenhados, mas nem os primeiros se queixam muito, nem os últimos fazem grande coisa. O crocodilo de CGI aparece fugazmente aos 50 minutos e a contento na cena final, mas se os tubarões de Perigo no Oceano (1999) provocavam bocejos, este crocodilo podia ser metido na mesma jaula.

Espanta ver Radha Mitchell (que já representou para Woody Allen emMelinda e Melinda, 2004) neste enguiço sem emoção, mas o mesmo não se pode dizer de Michael Vartan, que não se destacou desde a série Alias – A Vingadora (Câmara Indiscreta, de 2002, e Uma Sogra de Fugir, de 2005). Quanto a Sam Worthington, que está prestes a deixar de ser um desconhecido (Terminator 4 e Avatar, ambos para 2009), é impressão minha ou é muito parecido com Chris O’Donnell quando este estava em forma?

Afficcionados de Wolf Creek (2005), o filme de estreia de Greg Mclean, gostarão de ver John Jarratt, o vilão desse filme, regressar como secundário inútil. De resto, salvam-se as abundantes paisagens paradisíacas que dão vontade de visitar, mesmo correndo-se o risco de ser-se devorado por um crocodilo feito em computador (e até esse risco é diminuto, tão breve é o tempo de antena do predador de serviço).

Rogue 2007

O Olho 2, de Danny & Oxide Pang


Num concurso para manchar o seu maior feito, os irmãos Pang certamente ficariam entre os finalistas. O Olho 2 tem a qualidade amadorística de um telefilme, tanto ao nível gráfico como narrativo, a história parece uma colagem de cenas sem sentido, a cena da tentativa de suicídio não se articula com o resto e o próprio título parece deslocado. Nada acontece à vista da protagonista para que esta comece a ver fantasmas e a explicação final é tão simplória que não podia deixar de ser a maior desilusão de um filme sem uma única cena de valor. Aliás, como filme de terror, é incapaz de uma imagem perturbadora ou de um único susto.

Os irmãos Pang assinaram um terceiro filme da série O Olho, humoristicamente intitulado O Olho 10. em 2007, voaram até aos EUA para assinarem o pindérico Os Mensageiros e fizeram Nicolas Cage voar até à Tailândia em 2008 para filmar Bangkok Dangerous. Shu Qi, que o público ocidental recordará de Correio de Risco (2002), é a protagonista que vê fantasmas, mas enquanto que em O Olho a protagonista via fantasmas porque a sua operação à córnea lhe dava essa faculdade, em O Olho 2 a situação é tratada com banalidade, sendo que os fantasmas ora surgem nos espelhos e não na realidade, ora um mero piscar de olhos faz com que a personagem deixe de os ver.

Gin Gwai 2 2004

Despertar da Morte, de Peter e Michael Spierig


Comédia de zombies australiana com alegria no gatilho. O lema é disparar sobre tudo o que se mexe e quanto mais vezes melhor. Aparte isso, não há muito a acrescentar, para além de alguns momentos de estética à John Woo, uma história que se torna algo confusa na recta final (os extraterrestres afinal são bons, maus ou não importa?) e a cena pós-climática é um mero pró-forma.

Os irmãos Spierig desdobraram-se nos sete instrumentos para pagarem o filme do seu próprio bolso, filmarem todas as cenas em praticamente um ou dois takes e montarem nos seus computadores pessoais, onde criaram também os efeitos especiais, numa pós-produção que demorou nove meses. O duo tem previsto para 2008 o filme Daybreakers, desta vez sobre vampiros. Nota para a caracterização de Dirk Hunter, o polícia, bastante próxima dos tempos de ouro de Eric Idle, dos Monty Python Flying Circus.

Fritt Vilt, de Roar Uthaug


Slasher norueguês passado num hotel abandonado no meio da montanha nevada de Jotunheimen, onde um grupo de cincosnowboarders descobre não estar tão sozinho como julgava. O sangue começa a correr apenas aos 40 minutos e até então o filme não aproveitou o seu tempo nem para nos dar a conhecer os protagonistas, que permanecem finos como papel, nem para instilar medo para além da ocasional sombra fugidia. Por essa altura, já temos uma ideia de quem será o responsável pelo que ainda nem aconteceu e, voilá, estamos correctos.

Sem uma nesga de originalidade, este herdeiro do velhinho Sexta Feira 13 avança como um elefante por uma loja de porcelanas. Nunca se viu ninguém fazer tanto barulho quando a intenção era não fazer nenhum; mas como o que conta é a intenção, o assassino, apesar de familiarizado com o espaço, não ouve nada. Quando a logística mete água, está o caldo entornado. A primeira vítima corre por um corredor com um ombro cheio de sangue, tropeça, cai, arrasta-se e até se apoia contra uma porta; pouco tempo mais tarde, outro personagem percorre o referido corredor e o mesmo está imaculado. Como é que nunca ninguém apanha o assassino de esfregona na mão?

Fritt Vilt é um slasher medíocre que nem sequer capitaliza no cenário. Filmado no topo do Jotunheimen (o equipamento teve de ser levado de helicóptero), a uma temperatura de 25ºC negativos, pouco mais é do que branco e uma cabana. O mini-twist final é irrisório e responde a uma questão que só se ponderou muito levemente no início, mas sempre mostra a natureza da besta. Explicações, não há, apesar de ser mais um daqueles filmes em que o assassino tem no seu quarto, à mão de semear, providenciais recortes de jornal com trinta anos.

O realizador Roar Uthaug diz que fez o seu primeiro filme de machadada no oitavo ano, mas desde 2002 que se dedicava a vídeos musicais e anúncios. O regresso às origens não se provou astucioso. E ainda menos o facto de terem sido precisas cinco cabeças (entre elas a de Uthaug) para magicar esta história. Para quem está habituado a icónicos assassinos mascarados que não abrem a boca, este também não tem grande presença; é alto, mas magro. A sobrevivente regressa na sequela, com estreia prevista para Outubro de 2008, com outro realizador.

Fritt Vilt 2006

Piranha 2 O Peixe Vampiro, de James Cameron


Em 1978, o realizador Joe Dante realizou Piranha, um filme de terror onde cardumes de peixes devoradores atacavam uma estância balnear. O filme funcionava igualmente como paródia ao sucesso internacional de Tubarão (1975), tanto mais que os diversos cartazes promocionais eram semelhantes aos do filme de Steven Spielberg, apenas substituindo o tubarão por uma piranha gigante (ou várias, dependendo do poster). As piranhas tinham cara de Gremlin, filme assinado por Joe Dante seis anos depois. A Universal Pictures ameaçou processar a New World de Roger Corman (produtor dePiranha) por plágio, mas Spielberg gostou tanto de Piranha que o processo judicial foi abandonado. O filme viria a ganhar dois prémios Saturn em 1979, da Academy of Science Fiction Fantasy & Horror Films, incluindo Melhor Filme de Terror.

Após uma curta metragem de 12 minutos intitulada Xenogenesis(1978), em tempo de curso, James Cameron teve a sua primeira experiência na longa metragem com Piranha Parte 2, quando o primeiro realizador foi despedido pelo produtor executivo Ovidio G. Assonitis. James Cameron tinha sido inicialmente contratado apenas para supervisionar os efeitos especiais. Ao fim de uma semana de rodagem, discussões entre o produtor e Cameron determinaram que este viesse a ser proibido de ver o resultado das suas próprias filmagens e que a montagem se tenha processado à sua revelia. Supostamente, terá sido neste período que James Cameron terá adoecido, e a arder em febre sonhou o argumento de Exterminador Implacável (1984).

Apesar de James Cameron ter rescrito parte do argumento, a pressão de Ovidio G. Assonitis, que supervisionou as filmagens e a montagem, Piranha 2 é inane. Incapaz de atingir um único momento de suspense ou medo, fica-se por meia dúzia de ridículas e mal articuladas piranhas voadoras a atacarem figurantes isolados e uma festa na praia. As piranhas parecem papagaios voadores com as asas a baterem ao vento e vêm-se apenas algumas décimas de segundo de cada vez. Uma piranha, alojada dentro de um cadáver que é levado para a morgue e guardado numa arca frigorífica, pisca o olho a uma das cenas clássicas de Alien (1979), quando horas mais tarde sai do corpo e ataca quem a incomodou. Curiosamente, o peixe é tão grande que seria impossível ter sido transportado oculto dentro do cadáver. James Cameron viria a dirigir em 1986 a sequela, Aliens.

De banalidade em banalidade, o filme atinge o limiar da insuplantável falta de lógica da cena climática, em que uma instrutora de mergulho e um engenheiro bioquímico enchem um barco naufragado com dinamite, sendo que os detonadores foram previamente acertados para que a explosão se dê dentro de quinze minutos e o local está deserto. Sem que façam nada para atrair as piranhas, estas regressam todas a tempo de irem convenientemente pelos ares. É o que dá guiões escritos na casa de banho, efeitos especiais de garagem e realizações com cozinheiros a mais. Um festival de amadorismo trash.

Piranha Part 2 The Spawning

Exorcista: O Princípio, de Renny Harlin


Há dois mil anos, foi construída uma igreja no meio do deserto do Quénia, a qual ficou enterrada debaixo da areia até aos anos 50. A Igreja Católica ordenou as escavações e uma entidade sem nome pretende que um arqueólogo, outrora padre, obtenha uma escultura do demónio Pazuzu, que acredita estar no seu anterior. Uma vez lá, tem de lidar com as superstições locais e ainda com a memória dos tempos nazis em que um massacre de judeus o fez abdicar do colarinho. Claro que o título do filme exigia um momento de total cretinice e este surge, com efeitos especiais pindéricos e umas cicatrizes a lembrarem as da pequena Linda Blair. Se para recitar duas ou três frases até à exaustão é necessário o padre transportar consigo um compêndio de exorcismos católicos, compreende-se que o filme demore hora e meia sem justificar a sua existência.

William Peter Blatty escreveu o livro O Exorcista e realizou o terceiro tomo do mesmo (baseado no seu livro Legião), com uma sábia mescla de paranóia servida de imagens frias e fazendo tábua rasa da sequela intermédia. O tempo das prequelas chegou e os estúdios atacaram o ground zero de filmes que já contavam com alguma numeração romana. William Wysher (Terminator 2, Judge Dredd, O Último Viking) escreveu o argumento e John Frankenheimer foi contratado para realizar. Contudo, o realizador da velha escolha, responsável por títulos como o Candidato da Verdade (1962), Os Incorruptíveis Contra a Droga II (1975) e Ronin (1998), abandonou o projecto pouco antes de falecer em 2002. o realizador seguinte a tomar conta do projecto, Paul Shrader (Gigolo Americano e A Felina),foi despedido pela produtora Morgan Creeek por desacordo com a orientação seguida e Renny Harlin sentou-se na cadeira desocupada. O finlandês foi responsável por Pesadelo em Elm Street IV e Die Hard II, mas o seu casamento com Geena Davis deitou a carreira de ambos no abismo (A Ilha das Cabeças Cortadas e A Profissional). Mesmo assim, Harlin é conhecido por conseguir obter lucro com os piores projectos (menos em A Ilha das Cabeças Cortadas, que custou 100 milhões de dólares e rendeu 10), e até hoje estreia em média um a dois filmes por ano.

Com pouco mais do que tons ocres, efeitos especiais miseráveis e muito vazio para preencher, Exorcista: O Princípio é uma completa nulidade, e o seu insucesso deu origem a que Paul Shrader tivesse luz verde para concluir a sua ideia inicial, estreada um ano mais tarde com o título Dominion: A prequel to The Exorcist (2005). A banda sonora, a cargo do sul africano Trevor Rabin, ilustrou tanto a versão de Harlin como a de Shrader, mas não sobrevive sem as imagens.

The Exorcist The Beginning 2004

A Nona Sessão, de Brad Anderson 2001


Uma equipa de limpeza industrial é contratada para restaurar as infra-estruturas de um hospital psiquiátrico há muito encerrado devido a um escândalo envolvendo uma paciente. Na primeira inspecção ao espaço degradado, há um voz que cumprimenta o empreiteiro. A explicação do mistério reside na conjugação dessa frase com a última a ser proferida no filme (onde vive o Simon).
Infelizmente, nessas duas frases esgotou-se a imaginação do realizador e argumentista Brad Anderson, demasiado preguiçoso para criar um suspense consistente ou uma realidade credível. Tendo-se comprometido a fazer o trabalho de três semanas em apenas uma, mediante um bónus, é desconcertante verificar que raramente vemos a equipa de cinco homens atarefada, como se o trabalho se fizesse sozinho. Atribuem-se longos intervalos para almoço e um deles até passa o tempo a ouvir antigas gravações do tratamento de uma paciente com múltipla personalidade – de notar que este caso nada tem a ver com o mencionado escândalo, mas mera curiosidade num processo que caiu ao chão por acidente. E a atenção dispensada é tanta que ele se senta calmamente a ouvir mais uma bobina enquanto os outros reviram o hospício em busca de um companheiro desaparecido.
Nitidamente alicerçado na sua revelação final, A Nona Sessão é um entediante fait-divers entre um grupo de homens cujas atitudes vão apresentando ligeiras alterações de comportamento e a escuta das bobinas das nove sessões de um caso avulso da história do hospital, o qual só se torna relevante no último instante. Antes disso, assiste-se a um clímax excessivamente confuso e praticamente irrelevante. A única nota positiva que pode dar-se ao filme é que o twist final obriga a uma recapitulação de todos os eventos, para melhor compreensão.
A Nona Sessão marca o último papel cinematográfico de David Caruso, que desde 2002 se tem dedicado à série CSI: Miami, e Josh Lucas ainda não tinha dado início a um ciclo de maior exposição iniciado com A Diva da Moda (2002) e Hulk (2003), mas desde Stealth(2005) e Poseidon (2006) que regressou à obscuridade. Ben Anderson, realizador habituado à TV e ao cinema, assinou em 2004 O Maquinista, com Christian Bale num papel para o qual emagreceu 30 quilos. Anderson foi convidado para dirigir um episódio da sérieMasters of Horror (2006) e da Fear Itself (2008).
Session 9 2001

Live Feed, de Ryan Nicholson


Com ar de projecto estudantil, Live Feed é um festim gore de muito baixo orçamento, com um guião rascunhado num guardanapo de hamburgueria (sujo de ketchup) e efeitos especiais da loja dos 300. Mistura torture porn e snuff, com a acção a decorrer num cinema pornográfico (filmado num cinema aberto ao público, a equipa tinha de esperar que os clientes saíssem para começar a filmar) onde um grupo de cinco turistas americanos em Hong Kong (supõe-se) é torturado, mutilado e assassinado por um gigante de fardamenta S&M, enquanto um chefe local da Yakuza e os seus lacaios assistem e aplaudem.
Live Feed é extremamente gratuito na sua exploração da tortura, tendo gasto em latex e sangue falso o que poupou em iluminação, direcção de fotografia e numa câmara de jeito. Sem preocupação com enquadramento, direcção de actores ou história, Ryan Nicholson limitou-se a filmar entusiasticamente a pobreza de elementos. O resultado é amador, mal ensaiado, mal representado e mal gerido, numa fórmula de fracasso difícil de igualar.
Escrito e produzido por Ryan e Roy Nicholson, a dupla vem do ramo da maquilhagem e das próteses de efeitos especiais, ao qual Ryan se dedica desde 1993 e Roy desde 2003. Esta é a sua primeira longa metragem (82 minutos), tendo-se estreado em 2004 com 44 Minutos de violação e vingança em Torched. A dupla já completou um novo filme em 2008 (Gutterballs), a funcionar no mesmo género.
Se o argumento não fosse tão preguiçoso, teria melhorado a introdução e a apresentação dos personagens, para que o cinéfilo se interessasse com o seu destino em vez de os ver apenas como carne para canhão. Logo no início, o grupo, constituído por dois casais e uma amiga, fica chocado com dois cozinheiros que estripam um cão vivo à sua frente. A porta seguinte é de um cinema pornográfico e decidem entrar, apesar da veemente recusa da sino-americana do grupo (aparentemente, os outros já estavam refeitos da visão do cão degolado e acharam que ver um filme pornográfico num cinema degradado era um programa divertido). O cinema tem quartos VIP e é num desses quartos que um dos casais tem imediatamente sexo, apesar do quarto ser imundo (VIP em chinês deve ter outro significado), sendo que o casal seguinte pratica a mesma actividade numa casa de banho onde há baratas do tamanho de cascas de noz a passear no chão e a subir-lhes aos pés (estando ela de sandálias).
E, se com esta inacreditável tolerância ao ascoroso por parte dos protagonistas o argumento ainda não perdera total credibilidade, há ainda lugar para um sub-enredo sobre um japonês que vem vingar o assassinato do seu irmão (um polícia infiltrado nessa organização Yakuza). Quando ele revela que «as máfias chinesa e japonesa vão juntar-se para dominar a Ásia, a Rússia e depois o Mundo» perguntamo-nos se ainda estamos no mesmo filme.
Além de risível, o argumento é incongruente. O cinema tem um circuito interno de vídeo que permite que se assista na tela e nas televisões dos quartos VIP à projecção dos crimes, mas quando uma das vítimas esfaqueia continuamente um dos captores, ninguém está a assistir. Os polícias que chegam no final levam consigo a sobrevivente, sem se darem ao trabalho de verificarem a área ou vedarem o local do crime para que as provas não sejam contaminadas.
O filme, a tentar aproveitar a onda de torture porn iniciada em 2005 por Saw e Hostel e imitada por meio mundo (até Roland Joffé, realizador de A Missão e Terra Sangrenta, dirigiu um argumento de Larry Cohen no género, intitulado Cativeiro), inclui no menu a necrofagia (com certeza inspirados pelo novo fôlego do Massacre no Texas desde 2003), com uma cena que lembra o final de O Cozinheiro, O Ladrão, A Mulher Dele E O Amante Dela (uma obra-prima de Peter Greenaway de 1989), mas de resto não passa de um aborrecido, grosseiro e caseiro projecto de dois técnicos de efeitos especiais que nem sequer sabem fazer sangue falso convincente, ora a espichar como água ora espesso como alcatrão.
Live Feed (Unrated) 2006

Sonhos Terríveis, de Andrew Fleming


Um ano depois de Pesadelo Em Elm Street 3, Jennifer Rubin, modelo da campanha original Obsession da Calvin Klein, protagonizou outro pesadelo. Primeiro filme de Andrew Fleming, esta história de terror psicológico é conduzida com simplicidade, atenção aos detalhes e concisão narrativa. O enredo segue os primeiros dias de uma paciente de hospital que acorda ao fim de treze anos em coma. Única sobrevivente de um culto hippie que praticou o suicídio em massa, a jovem tem visões do mentor do culto, que pretende finalmente completar o círculo suicida. Enquanto ela resiste aos seus apelos, vão morrendo misteriosamente os restantes membros da terapia de grupo onde foi inserida para se adaptar à realidade dos anos 80.
Com savoir faire, Andrew Fleming sabe gerir o suspense, induzindo imagens, em vez da opção mais dispendiosa de as mostrar abertamente, o que permite ao mistério fluir discretamente, através de um cuidado com os detalhes. O ritmo do filme é bem compassado, os valores de produção são eficientes e as explicações para o fenómeno fazem todo o sentido e são introduzidas de forma eficaz.

As interpretações de Jennifer Rubin, Bruce Abbott e de Harris Yulin estão acima de crítica e é de mencionar a presença do sempre magnético Richard Lynch, aqui com uma doçura assaz suspeita e invulgar para o corpo da sua carreira. Bruce Abbott reprisa o papel de médico que já o definira em Re-Animator (1985), sendo capaz de transmitir segurança e charme com um mero sorriso sincero. De notar que o seu cabeleireiro é muito melhor desta vez. Como curiosidade, Abbott é também arquitecto e foi casado com as actrizes Linda Hamilton (1982-1989) e Kathleen Quinlan (desde 1994).


Bad Dreams 1988

All The Boys Love Mandy Lane, de Jonathan Levine


Mandy Lane era um patinho feio, mas desenvolveu-se durante o verão e agora tem atributos que a tornam popular, situação com a qual ela não se sente à vontade. Num fim de semana na casa de campo de um dos meninos ricos do liceu, começa o body count. Não vale a pena questionarmo-nos sobre a identidade do assassino, esta é revelada muito antes do previsto, e o twist final é previsível à légua (alguém se lembra de Gritos, de Wes Craven?). A seguir a esse, contudo, vem outro que não podia ser mais estúpido.

A primeira longa metragem de Jonathan Levine não é um thriller nem um filme de terror, é apenas uma inepta perda de tempo. O argumento é simplório e simplista, aposta nos estereótipos vazios e na ausência de originalidade, sem se esquecer de estragar as cenas de slash pela boçalidade do manejo da câmara. Sem um único personagem que desperte empatia nem eventos que justifiquem o menor interesse, diálogos de conteúdo rasteiro e actores dispostos a darem o seu mínimo pessoal, este filme aposta no tédio e só soma pontos nesse aspecto.

Quanto à protagonista (Amber Heard), se é suposto parecer misteriosa, o resultado é apenas uma cara de inadaptada com prisão de ventre. Anson Mount, num papel de poucas palavras, tenta a sua sorte ao lado de outra loira, ele que rumou à televisão desde que foi o interesse romântico de Britney Spears em Destinos(2002) duo que foi nomeado para o Razzie de Pior Casal nos seguintes termos: “Britney Spears and whatever his name was”.

All The Boys Love Mandy Lane 2006

Razorback, de Russell Mulcahy


Nove anos depois de Steven Spielberg aterrorizar os banhistas do mundo inteiro e de Stephen King mostrar que até o mais simpático e bonacheirão dos cães se pode tornar no pior pesadelo de uma criança, o estreante Russell Mulcahy, que viria a dirigir os dois primeiros Duelo Imortal (juntamente com os videoclips dos Queen da banda sonora desse filme), introduziu o javali das estepes desérticas australianas entre o número de animais assassinos.

Russell Mulchahy era já um conhecido realizador de videoclips, nomeadamente para os Duran Duran, e foi precisamente o videoclipde Hungry Like The Wolf, filmado no Sri Lanka e com um vibe deSalteadores da Arca Perdida, que conduziu ao convite para realizarRazorback, baseado no livro de Peter Brennan.

O filme acaba por ser apenas uma desculpa de aprendiz de cineasta, para Mulcahy experimentar com a sua câmara alguns filtros e recursos visuais, nomeadamente na curiosa experiência psicadélica do protagonista, após um dia inteiro de desidratação. De resto, a história é muito simples e com um desenvolvimento praticamente inexistente.

Um modelo animatrónico em tamanho real do javali, que custou 250 mil euros, é visto durante apenas um segundo. De resto, o filme comete alguns erros crassos com determinados ângulos de filmagem nos ataques da fera, que deveria ser visível em consequência do ângulo da frame anterior, mas encontra-se ausente (isto é claramente identificável no ataque do javali a um automóvel conduzido pela esposa do herói).

Razorback 1984