Tuesday, August 16, 2011

I Saw The Devil, de Kim Ji-woon

Quando a noiva de um agente dos Serviços Secretos é violada e decapitada, este aproveita os dias de baixa para encontrar o assassino. A diferença está em que, desta vez, a vingança não se serve de uma vez. O agente secreto faz o assassino engolir um localizador GPS (sem que este o saiba) e persegue-o, para puni-lo de cada vez que este tenta reincidir.

Já o tema era intemporal quando Dostoyevsky fantasiou sobre ele. O crime & castigo termina sempre com a expiação dos pecados por parte do criminoso (ou não haveria castigo), mas longe vão os tempos em que o dito se remói de consternação e arrependimento. É o caso de I Saw The Devil, onde um serial killer é sujeito a tácticas de amestramento por parte do herói, mas a violência atinge extremos tais que se perde a definição de certo e errado e a qual se refere o Diabo do título.

Não sendo tão inovador como Oldboy (2003), I Saw The Devil não deixa de mesmerizar pela forma como estica os limites do género. O jogo de gato-e-rato entre psicopata e vingador, em forma de lição, parece fugir continuamente ao controlo do realizador, como se os personagens tivessem vida própria. Apesar da estilização irrepreensível e de prender a atenção com rédea curta, há factores que excedem a capacidade de suspension of disbelief, como a aptidão regenerativa do vilão, que se levanta após agressões que deixariam uma pessoa a um sopro da morte, continua a utilizar o braço depois de partido e a caminhar com o tendão de Aquiles cortado. Um pouco mais de adesão às leis da biologia teria ajudado.

Mesmo com algumas derrapagens ocasionais, o sul coreano Kim Ji-woon prova que ainda é possível revolucionar o género, apostando numa violência tão realista quanto atroz, para fazer a audiência duvidar da justificação das acções do herói, que pune constantemente o psicopata, mas de cada vez que o deixa vivo as consequências se tornam mais imprevisíveis. Entre a dor e o ódio, é fácil perder-se a humanidade.

Akmareul Boatda 2010


Insidioso, de James Wan

Será uma casa assombrada? Será um reflexo na fotografia? Não, é o Super Projector Astral, cujo espírito é capaz de viajar para a Terra do Mais Além, infelizmente deixando o seu corpo vazio e indefeso enquanto passeia por latitudes não cartografadas, e há demónios que querem possuir-lho para andarem a fazer maldades por aí. Se este intróito soa anedótico, deveriam ouvir o que mais é dito de cara séria neste filme.

A única ousadia de Insidioso está em mudar de barco a meio da travessia, de casa assombrada para possessão demoníaca. James Wan e Leigh Whannell nasceram precisamente com dez dias de diferença, o primeiro na Malásia e o segundo na Austrália, e fizeram juntos uma curta metragem de nove minutos, intitulada Saw (2003), que rapidamente foi transformada em sete longas metragens. Wan só realizou o primeiro Saw (2004) e escreveu o terceiro, enquanto Whannell escreveu para os três primeiros antes de passar o testemunho. Voltariam a reunir-se em 2007, com Dead Silence, sobre uma marioneta de ventríloquo assassina.

Quem quiser contar o número de filmes que sobre assombrações e possessões, prepare-se para descalçar-se, e mesmo assim não terá dedos que cheguem para tanta obra. O uso de caça-fantasmas também já não é novidade (O Orfanato, 2007) e lamenta-se a falta de imaginação, porque ruídos e portas que se abrem ou fecham sem intervenção humana já está muito visto. Insidioso não traz nada de novo e ainda acaba com um vulgar e previsível twist. Custa ver Patrick Wilson e Rose Byrne vergarem-se a tamanha falta de inspiração e é curioso notar que Barbara Hershey já foi abusada em filme por um espírito atrevido (em O Ente Misterioso, 1982, eram visíveis marcas de dedos a percorrer-lhe os seios, atribuídas a uma mão fantasma, produzidas por um eficiente sistema de pressão de ar quente inventado pela equipa de efeitos especiais). Parabéns pelo uso de Nuvole Bianchi, canção para piano do italiano Ludovico Einaudi, mesmo que o espírito não tenha aprovado.

Insidious 2010


Gritos 4, de Wes Craven

Variações sobre um tema morto e enterrado. Em 1996, Gritos foi um regresso aos slashers dos anos 80 e brindou-se a uma nova geração, com a moda a ser sustentada por Sei O Que Fizeste O Ano Passado(1997) e Mitos Urbanos (1998). Mas, inevitavelmente, cada sequela provou ser pior do que a anterior e, onze anos depois de Gritos 3, o mundo não precisava de mais uma adição ao título.

Há uma frase no filme que diz que se faz um remake para superar o original, mas toda a gente sabe que, na verdade, o objectivo é o de capitalizar no seu sucesso sem o esforço de criar algo novo. Pelo menos, nas sagas dos anos 80, grande parte da magia residia nos efeitos especiais, na constante tentativa de ser inventivo nas mortes e ir mais além de cada vez, fosse a rudeza de Sexta Feira 13 ou o festim de Pesadelo Elm Street. Em Gritos, há apenas uma voz a mandar bocas ao telefone e um tipo com uma máscara que parece chorosa em vez de ameaçadora, a brandir uma vulgar faca de mato.

Gritos provou ser um filão, mas pelo remate da trilogia já estava moribundo. Assim como a sua paralela satírica, Um Susto de Filme(2000, 2001, 2003 e 2006), que chegou primeiro às quatro tomas.Gritos 4 traz de volta os actores principais Neve Campbell, David Arquette e Courteney Cox e a equipa Wes Craven / Kevin Williamson, realizador e argumentista, que tinham sido separados em Gritos 3,com o guião de Williamson a ser rejeitado e Craven obrigado a realizar (condição para que a Miramax desse luz verde ao seu drama musical Melodia do Coração, de 1999). Alguma fricção ainda chegou a haver no set de Gritos 4 quando Ehren Kruger, argumentista deGritos 3, foi chamado para rescritas.

Gritos 4 nem chega a ser mais um estertor para o título. Tamanha falta de ingredientes novos pedia medidas desesperadas, uma nova máscara, uma faca da Hibben, um mínimo de suspense. Infelizmente, não passa de uma banal visita a um matadouro preguiçoso, com um final tão tarefeiro que desmoraliza. Kevin Williamson teve um inicial período de ouro: Gritos (1996), Sei O Que Fizeste No Verão Passado (1997) e Mistério na Faculdade (1998). Em 1999, decidiu que não sabia só escrever, mas O Rapto da Senhora Tingle (1999) foi um desastre e ele virou-se para o pequeno ecrã, onde criou e desenvolveu as séries Dawson’s Creek (1998-2003),Wasteland (1999), Glory Days (2003), Hidden Palms (2007) e The Vampire Diaries (2009-2011). Em 2005, Craven e Williamson juntaram-se para o medonho Amaldiçoados, premonitório no que toca a Gritos 4.

Wes Craven ficará para a História como o criador de Pesadelo em Elm Street (1984), mas os seus primeiros filmes foram abjectos (A Última Casa da Esquerda, 1972, Os Olhos da Montanha, 1977) camp(Swamp Thing, 1982) ou meramente insípidos (A Maldição dos Mortos Vivos, 1988). Entre o seu melhor está, realmente Gritos, mas convém não perder a perspectiva: foi o twist final, que surpreendeu pela existência de dois assassinos em vez de um, que o tirou da banalidade. Gritos 4 fica-se pela última. O sketch com Anna Paquin e Kristen Bell não passa de uma curiosidade e a presença de Hayden Panettiere prescindia daquele horrendo penteado. Emma Roberts, que faz de sobrinha de Sidney Prescott, a protagonista, é filha de Eric Roberts.

Scream 4 2011


Sequestrados, de Miguel Angél Vivas

A sequência inicial abre o apetite, mas afinal ficamo-nos pelas entradas. O realizador da curta I’ll See You In My Dreams (2003), de que muito se falou unicamente por ser produzida e interpretada por portugueses, volta a tentar sua sorte, mas não se pode dizer que tenha muita.

Sequestrados tem uma premissa muito simples: uma família bem sucedida é confrontada com uma situação de rapto e o cabeça de casal é conduzido por um dos captores a diversas caixas Multibanco, para esgotar o saldo dos cartões de crédito; em casa, um dos raptores torna-se violento com a mãe e a filha. Dá tudo para o torto.

Apesar de algumas imagens mais intensas e uma violação claramente desconfortável para o público, o cômputo geral é de desilusão, em larga medida porque o talento se esgota depressa. Com uma história destas e câmaras tão intrusivas como as de um reality show, é um filme de tudo ou nada. A tensão tem de ser milimetricamente gerida em cada detalhe, ou esboroa como um castelo de cartas. Neste caso, são as representações que não convencem e isso é um furo no pneu que nunca consegue encher-se. Não pode haver pior para a supension of disbelief do que actores que não são credíveis. Em especial, lamenta-se o namorado da filha e o vigilante de bairro, mas a compostura do vilão chefe é demasiado vazia e a sonorização do histerismo de Manuela Vellés (filha) adquire contornos irritantes, em vez de compassivos.

O recurso ao desdobrar do ecrã, para acompanhar em simultâneo duas acções distintas, é demasiado artificial, cortando a ideia desnuff que se pretende incutir. Não se entende porque hão-de os criminosos ser albaneses, a não ser para puxar pelos sentimentos xenófobos da audiência. O desfecho, longe de gratificante, é um colar de absurdos que afunda o filme na inconsequência (marretada no pai, tiro na cara da mãe, na nuca do namorado e facadas na filha, por um indivíduo que devia ter partido a coluna vertebral numa colisão frontal de automóvel; para além do resto, apresentá-lo incólume é um atentado à razoabilidade).

Secuestrados 2010


The Ward, de John Carpenter

Há uma razão para John Carpenter não fazer um filme há dez anos (Fantasmas de Marte, 2001) e, pela amostra, é pena que tenha interrompido o jejum. O realizador construiu toda a sua carreira em redor de um único título, aceitando-se que teve algumas obras interessantes nos anos 80. O sucesso de Halloween (1978) despoletou uma teia de sequelas e remakes e lançou a saga dos assassinos mascarados. Antes disso, Carpenter já evidenciara algum talento para crescendos de suspense (Assalto À Esquadra 13, comremake em 2005), que consolidou em O Nevoeiro (1980, com remakeem 2005), A Coisa (com remake para 2012) Christine (1983) ePríncipe das Trevas (1987). Isso deu-lhe uma certa carta branca para apalhaçar (Jack Burton Nas Garras do Mandarim, 1986, e Eles Vivem, 1988). Starman (1984) foi a sua única incursão no melodrama, onde Jeff Bridges e Karen Allen se portaram excepcionalmente. O completo fracasso de bilheteira de Memórias de Um Homem Invisível (1992) veio estragar o idílio e reduzir o realizador à classe de tarefeiro, de onde não mais saiu. Vampiros (1998) foi uma tentativa louvável de sair do esterco, mas derrapou novamente com Fantasmas de Marte, onde atingiu mínimos anteriormente inimagináveis.

Foram precisos dois Rasmussens para escrever The Ward, o que não abona nada ao nome de família. Num bocejo constante, desenvolve-se uma historieta de terror cliché, passada num hospício, onde um fantasma elimina sumariamente as pacientes de uma álea de adolescentes do sexo feminino. Quando uma nova paciente começa a ser atormentada, está na hora de fugir ou, em alternativa, descobrir quem é o fantasma. Mas, para tal ausência de originalidade e de inteligência narrativa, medo ou suspense, mais valia assistir ao genérico inicial em looping.

O tema já foi abordado de forma muito mais competente emIdentidade Misteriosa (2003) ou até Shutter Island (2010) e a completa falta de aproveitamento do ambiente tétrico do hospital faz recomendar o estudo de Fragiles (2005), de Jaume Balagueró (o mesmo de [Rec], 2007) ou do clássico Pesadelo em Elm Street 3(1987). Filmes sobre reclusos também poderiam ter ajudado, já que um hospital é, num filme de terror, essencialmente, uma prisão. Infelizmente, The Ward é mais uma prova de que o título Mestre de Terror tem de estar sob constante escrutínio. Carpenter, à pala disso, dirigiu dois episódios da série Masters of Terror (2005 e 2006), mas as últimas duas décadas desmentem qualquer mérito.

The Ward não serve o menor propósito. A história é débil, os efeitos especiais são lastimosos, não há tensão, os personagens não passam de papel de embrulho e as actrizes parecem meras figurantes a improvisarem. Amber Heard, Mamie Gummer, Danielle Panabaker, Laura-Leigh, tudo lixo. E a sequência final, com a outra a sair do espelho… é possível ser mais vulgar?

The Ward 2010


E A Noite A Cair, de Marcos Efron

Enésima versão de jovens americanas anoréxicas raptadas na América do Sul por gente sádica e sem escrúpulos, com vista ao tráfico humano. Uma é loira e a outra é morena, a primeira é recatada e a companheira oferecida, Amber Heard e Odette Yustman mais não fazem do que parecer larocas e burras. Vieram ao sítio certo.

Num minúsculo povoado argentino, é o último dia de viagem do par de ciclistas de pernas delgadas e seios pouco desenvolvidos que, depois de uma tarde de papo para o ar, se afastam uma da outra o tempo indispensável para que uma seja raptada. A amiga anda então à procura dela, por algumas paisagens bastante fotogénicas, com umtall dark stranger (Karl Urban) a oferecer ajuda pelo meio, mas esteremake de um homónimo filme britânico de 1970, passado com duas turistas na França provençal, é um banalíssimo thriller sem uma única razão para existir.

O original capitalizava no desarme de uma turista que procurava a amiga numa terra inóspita e de língua desconhecida, enquanto que oremake nem se preocupa em criar grande ambiente de desconfiança. Um dos raptores é óbvio desde o início e o outro também não é preciso muito. Fica a dúvida de a estalajadeira estar feita com os maus, por ter guardado os passaportes e o da raptada aparecer no chão do jipe do xerife. É a excelente Adriana Barraza (Babel e Sem Prada Nem Nada), que não chega para elevar o filme da nulidade.

And Soon The Darkness 2010


No Teu Sono, de Caroline du Potet e Éric du Potet

Caroline e Éric du Potet escreveram e realizaram Nos Teus Sonhos, um thriller francês cujo único mérito é reunir Anne Parillaud e Jean-Hugues Anglade, o casal impossível de Nikita (Luc Bésson, 1990), nem que seja por uma cena. Parillaud, 50 anos, protagoniza, e o filme, se alguma coisa, vale exclusivamente por ela. De resto, é mais um título para a estante poeirenta de filmes de terror previsíveis, com um serial killer que corta gargantas que dormem em moradias espalhadas pelos ermos rurais da França.

Entre os pontos mais negativos do filme, conta-se o esgotar do únicotwist ainda antes do intervalo e o recurso ao artifício do sonho para dar o dito pelo não dito. O ambiente não está mal conseguido, mas os eventos são tão random e desinteressantes que se torna indiferente a qualidade técnica.

Dans Ton Sommeil 2010

A Rapariga do Capuz Vermelho, de Catherine Hardwicke

A história do Capuchinho Vermelho conta-se em duas penadas: uma menina vai visitar a avó doente, através de um caminho na floresta, e um lobo quer comê-la, mas receia fazê-lo em público. A menina conta-lhe que vai a casa da avó e o lobo sugere-lhe apanhar flores. Enquanto isso, o lobo come a avó acamada e aguarda pela neta. Quando esta chega, faz-lhe as três perguntas da praxe, olhos, orelhas e dentes, e o lobo come a menina. Aparece um lenhador, abre o lobo ao meio e saem do seu interior a Capuchinho e a avó, sãs e salvas. A barriga do lobo é enchida de pedras; quando acorda, o lobo sente-se cheio de sede e acaba por cair ao poço. Disseminada por Charles Perrault e pelos irmãos Grimm, a moral da história é que não se deve viver sozinho, onde é perigoso, mas em comunidade, onde o bem comum é protegido.

A Rapariga do Capuz Vermelho serve-se do título apenas como ardil. Em vez de inovar e expandir o conto dos Grimm ou de Perrault, plagia o conceito de A Companhia dos Lobos (1984), do mesmo Neil Jordan que surpreendeu igualmente ao abordar o universo vampírico (Entrevista Com O Vampiro, 1994). A realizadora Catherine Hardwicke, expulsa da saga Crepúsculo (2009) depois do primeiro tomo, manifesta saudades de Jacob e transforma o lobo do Capuchinho num lobisomem de CGI extremamente económico, tanto em técnica quanto narrativa, ao ponto de até ser bicho com aversão por prata. Como de lobisomens está o inferno cheio, abre-se o campo à inclusão de um ambiente roubado a As Bruxas de Salém, dramaturgia de Arthur Miller escrita em 1953 para reflectir sobre a lista negra do Senador McCarthy, mas dramatizando eventos reais de 1692, para confundir políticos menos capazes. Assim, impregna-se a aldeia do Capuchinho Vermelho com a desconfiança generalizada dos vizinhos e a acusação de bruxaria a mulheres locais. Porque Stephen Sommers pôs tudo o que era monstro sagrado da literatura no mesmo saco e abanou (Van Helsing, 2004), A Rapariga do Capuz Vermelho é, uma vez mais, pronta a copiar e introduz um padre de espada e armadura, a fazer as vezes do caçador de vampiros de Bram Stoker e ainda de inquisidor da Santa Sé, que se sabe que, de santa, nunca teve nada, e até há lugar para forjar uma espécie de O Homem da Máscara de Ferro.

Catherine Hardwicke, a cumprir as expectativas, não era a pessoa indicada para realizar mais uma história de sobrenatural adolescente. Aliás, pô-la atrás das câmaras é, inevitavelmente, equivalente a transformar uma grande encenação da Broadway numa modesta peça de escola.

Em mãos despreocupadamente incompetentes, a história tropeça de cliché em cliché, num amadorismo inadmissível que cruza na diagonal toda a produção. Não é só Hardwicke ou o CGI, também os actores revelam desnorte, a excluir Amanda Seyfried e Julie Christie, que se aguentam nos seus postos. O outrora fantástico Gary Oldman perde-se em excessiva lascívia, o que faz dele imediata persona non grata; Lucas Haas é a mais famosa testemunha de um crime numa casa de banho pública (A Testemunha, 1985), mas exprimir uma facada nas costas é coisa que ninguém se lembrou de ensiná-lo a fazer; Virgínia Madsen não tenta fazer mais com o que não tem. De Crepúsculo, Catherine Hardwicke não trouxe só o actor Billy Burke (o pai de Bella), mas também aquele que ela queria por força que representasse Edward Cullen (Shiloh Fernandez), mas Kristen Stewart rejeitou. Curiosamente, também Amanda Seyfried tentou recusá-loem A Rapariga do Capuz Vermelho, mas deixou-se convencer pela realizadora. Infelizmente, o actor não tem o menor carisma ou credibilidade. As filmagens em Vancouver também aproximam os dois filmes.

A Vila (2004), de M. Night Shyamalan, é a prova de que o material original dava para mangas, não só vermelhas, como muito mais criativas. Mas, não; tem-se apenas uma minúscula aldeia de lenhadores sem fibra, assustados perante um lobisomem durante vinte anos e a baixarem a cabeça ao salvador de cruz ao peito; onde uma mãe conta à filha da ilegitimidade da irmã desta, em plena praça cheia de gente, mas o sussurro deve ser suficiente para assegurar o segredo; se mata um lobo raquítico e se insiste que é a besta que amedrontou duas gerações; se diz que o lobisomem rompeu as tréguas que este nunca assinou com as suas patas pouco dadas a segurar canetas.

Insiste-se que o lobisomem é um morador da aldeia, de modo a instalar a desconfiança. Mas, se há uma lua cheia a cada trinta dias, como é possível que os familiares do lobisomem, em casebres de uma assoalhada com uma cortina a transformar em duas, nunca tenham percebido que este passou fora de casa duzentas e quarenta noites, precisamente as noites em que toda a gente tinha medo de pôr um pé fora da porta?

Red Riding Hood 2011


A Casa Muda, de Gustavo Hérnandez

O uruguaio Gustavo Hérnandes decidiu fazer um filme de terror de baixo orçamento, com uma máquina fotográfica Canon EOS 5D Mark II, sem tirar o dedo do disparador. Isto é, filmar em plano sequência uma longa-metragem de 74 minutos, passada exclusivamente num velho casebre de campo e quinhentos metros em redor. Do ponto de vista técnico, o filme cumpre os requisitos da câmara subjectiva, com o realizador a rodopiar em redor da protagonista, ocasionalmente mostrando o que ela vê mas, de resto, a mostrá-la a ela. É um teste aos limites do interesse visual do espectador numa adolescente alta, magra, sem peito, de cabelo liso, top de alças e calças de ganga justas.
Pai e filha chegam ao casebre através dos campos e reúnem-se ao dono da propriedade, que aparentemente os contratou para tornarem a habitação decente para venda. Pai e filha deitam-se em sofás poeirentos, protegidos por mantas, para passarem a noite, e Laura ouve barulho no andar de cima, que o proprietário os alertou que não pisassem. Convence o pai a ir espreitar e este, dois ruídos secos mais tarde, aparece morto e amarrado. Há mais alguém na casa.
Esquizofrénico e absurdo, A Casa Muda decepciona, especialmente, pelo desplante de desafiar a lógica a cada compartimento do imóvel e, no final, propor-se, sem mais, resgatá-la. Uma vez que o casebre não dispõe de electricidade, a jovem orienta-se com o auxílio de uma candeia, o que permite inegáveis jogos de sombras e desfocados, garantindo uma atmosfera tensa, mas raramente inquietante. Isto porque as acções da franzina adolescente são incoerentes: face à proximidade de alguém ou algo que lhe dominou o pai em segundos, o amarrou e esfaqueou, ela não foge para fora da casa, antes a percorrendo muito devagar, inspeccionando atentamente o mobiliário e as peças decorativas cheias de pó, de costas voltadas para as portas, como se inventariasse o cenário, abstraída do perigo.
O aspecto virginal e indefeso da estreante Florencia Colucci, a protagonista, permite que o subterfúgio narrativo seja autorizado durante mais tempo que o previsto, mas até este discreto voyeurismo tem limites. Mesmo depois de ver que há um adulto com uma faca a persegui-la na casa, a jovem não se coíbe de caminhar arqueada, a observar o bric-a-brac, o que faz durante três quartos de película digital. No final, uma pseudo-explicação, de difícil deglutição, para os eventos, deixando inúmeras pontas soltas e corrompendo a ideia, pelo menos original, de deixar as imagens falarem por si.
A Casa Muda é um artifício baratucho, que inquina pela inconsistência da trama. A técnica da câmara subjectiva, ou câmara ao ombro, já foi iniciada há 12 anos, por Blair Witch Project (1999) e teve apogeu em Cloverfield e Rec (ambos de 2007). Nada de novo.Actividade Paranormal (2009) também exorcizou uma casa assombrada com câmaras digitais. Babysitter Wanted (2008) joga muito melhor o gato-e-rato entre vítima e carrasco. Ainda assim, a dupla Chris Kentis e Laura Lau, respectivamente o realizador e a produtora de Open Water (um filme caseiro onde um casal ficava á deriva num mar infestado de tubarões, de 2003), têm já um remakeà consideração do público.
Fica, então, o ardil pelo pormenor técnico, ainda que seja duvidoso afirmar que a filmagem não teve cortes, quando há duas ou três cenas de completa escuridão e ainda uma exposição em powerpointcom polaroids e frases esclarecedoras para os mais intelectualmente debilitados, antes do epílogo.
La Casa Muda 2010

Medos, de Joe Dante

Joe Dante é o realizador que viu O Tubarão (1975) e decidiu fazerPiranha (1977). Steven Spielberg gostou da paródia e não só evitou o processo judicial movido pela Universal, como apadrinhou o jovem aprendiz de Roger Corman. Durante algum tempo, o pódio do fantástico pertenceu à trindade Steven Spielberg, Robert Zemeckis e Joe Dante, todos da mesma equipa, mas o tempo é o inimigo dos atletas. De qualquer modo, Dante será sempre recordado por The Howling – o Uivo da Fera (1981), Gremlins – O Pequeno Monstro(1984), O Micro-herói (1987) e, em menor escala, Small Soldiers(1998).
Medos é apresentado como filme de terror, mas apenas o é se o conceito for apreendido à escala de Joe Dante, que sempre guinou na direcção family friendly. Isto não é um defeito, porque Dante sempre soube moldar e enriquecer os seus projectos, tornando-os identificáveis e inconfundíveis. Mas, será ainda possível trazer alguma novidade a um género cristalizado nos anos 80, que tem sido copiado e plagiado desde então, praticamente sem a introdução de elementos novos?
Neste género, Dante regressou em 2004 à TV para dirigir o episódio de Halloween da série CSI:NY (passado em Amityville) e foi convidado por Mick Garris para abrilhantar a série Mestres do Horror por dois episódios (2005 e 2006). Com Medos, fez o mesmo que há muitos anos atrás, quando teve para si um segmento do filme Twilight Zone(1981), percursor dos tempos da comédia horrenda em formato spoofde A Noite do Espanto (1985) e de Uma Casa Alucinante (1986).
Luzes que se apagam, portas que não abrem, fantoches de palhaços, meninas vestidas como bonecas de porcelana, homens enormes que se movem a coberto da escuridão, quem é que não viu estes artifícios mil vezes? Mas, é mesmo assim, os medos são sensações simples, que partem sempre de raízes semelhantes, a encontrarem eco na imaginação universal. Medos começa com um alçapão, situado na cave de uma casa nos subúrbios, por baixo do qual há um buraco negro que parece não ter fundo. E com três menores que são assombrados pelo que pode habitar as profundezas, cuja coragem poderá ser a única solução.
Joe Dante não tem entre mãos uma obra-prima, longe disso, apenas uma história de terror juvenil muito simples, mas à qual se dedica com a mesma candura que o fazia há mais de vinte anos atrás, fazendo tábua rasa de todos os filmes do género que polvilam o celulóide desde então. Da mesma forma que lhe criticaram que The Screwfly Solution, episódio da série Mestres do Horror, era uma variação de 28 Dias Depois (2001), quando afinal se baseava explicitamente num conto de James Tiptree Jr, escrito décadas antes, também se poderá invocar a falta de originalidade de Medos, mas a questão aqui não está no tema, mas na abordagem.
Joe Dante continua a saber o que faz. Manteve os efeitos especiais ao mínimo, recorreu à animação stopmotion em vez de CGI (o ataque do fantoche, na cave, demorou quatro dias a filmar), trabalhou a luz e a sombra de maneira a fazer do ambiente um personagem e dos personagens pessoas. Só assusta os mais pequenos, mas cativa todas as idades. Sem ser nem parecer nada de especial, passa a perna a tantos outros que querem ser muito e só conseguem ser nada.
Por último, o elenco. Não maravilha, mas não desmerece. Chris Massoglia protagonizou Circo dos Horrores: O Assistente do Vampiro (2009), Haley Bennett foi a cabeça de cartaz de A Maldição de Molly Hartley (2008) e Nathan Gamble entrou em The Mist - O Nevoeiro (2007); os dois últimos fizeram de irmãos em Marley & Eu(2008). Teri Polo não precisa de apresentações, mas recentemente entrou na trilogia iniciada com Um Sogro do Pior (2000). E não seria um filme de Joe Dante sem um cameo de Dick Miller (Gremlins). Os efeitos 3D em pós-produção é que eram completamente escusados.
The Hole 2009

O Ritual, de Mikael Hafström

O Exorcista para a nova geração, igualzinho ao da geração anterior.O Ritual não é mais do que uma sequela informal dessa franchise que já aí anda desde 1973 e em 2004 e 2005 teve duas prequelas concorrentes (insatisfeito com a encomenda a Paul Shrader, o estúdio passou a oferta a Renny Harlin). Um ano depois de ter sido possuído pelo feitiço da lua (Lobisomem, 2010), Anthony Hopkins apresenta-se com o diabo no corpo, mas tudo o que sabe fazer com ele é uma reles imitação de Hannibal Lecter.
A história conta-se em duas penadas: um seminarista sem fé é coagido a ir tirar uma pós-graduação em Exorcismo na cidade de Roma e lá é apresentado a um exorcista que tem um caso entre mãos. O seminarista age de forma céptica em relação à referida situação, mas acaba por acreditar, quando o demónio passa da vítima para o padre; é hora de vestir o escapulário e recitar as escrituras.
O sueco Mikael Hafström é um realizador discreto, que tem feito pela vida nos EUA desde 2005 (Pecado Capital, onde o pecado era a infidelidade), mas não passa de um tarefeiro e O Ritual não altera essa percepção. O filme peca por uma excessiva lentidão, com falta de argumentos a que se agarrar. A fazer pela vida está também Alice Braga, a brasileira que mais se tem internacionalizado nos últimos anos (é sobrinha de Sónia Braga, a eterna Gabriela Cravo e Canela). Colin O’Donoghue não se sai mal como protagonista, um seminarista que luta contra as suas dúvidas de fé. Sem oportunidade de brilhar, mas capaz de fazer frente a Anthony Hopkins, está Rutger Hauer, pai do seminarista e agente mortuário.
«Comando-te, pelo poder de Jesus Cristo e em nome da virgem Maria». Actualmente, será mesmo necessário à Igreja conduzir exorcismos como fazia há dois mil anos atrás? Com um crucifixo, água benta e palavras em latim, retiradas de livros poeirentos? Não faria mais sentido identificar o demónio através de um TAC e operar a vítima num hospital, fazendo uma incisão e retirando-o como um tumor? Ah, é verdade, tanto hoje como no início dos tempos, as manifestações de demónios são invenções de uma religião que sempre lutou por instilar medo e arranjou subterfúgios para explicar o que não sabe. Epilepsia, esquizofrenia, neuroses psicossomáticas, é tudo exorcizável.
A insistência na dúvida, por parte do seminarista, prolonga-se para além do lógico: se a hospedeira do diabo já demonstrara ter conhecimento de factos a que era impossível ter acesso, para quê ignorá-los e bater no ceguinho? Quanto ao miúdo que foi agredido por uma mula, durante um sonho (a mula de olhos vermelhos fosforescentes foi um pormenor risível), ninguém se lembra de o levar ao hospital? Mesmo que tivesse sido o demónio a fazer-lhe mal, as marcas físicas não é suposto serem tratadas por médicos? Se os demónios são vaidosos, porque perdem eles a força ao darem o seu nome? O que ganha um demónio em possuir um anónimo, não tem melhores coisas para fazer? Esta e outras questões ficam por esclarecer, mas a banda sonora de Alex Heffes não é má de todo.
The Rite 2011