Tuesday, November 24, 2009

O Padrasto, de Nelson McCormick


Da imaginação de Donald E. Westlake (multi-premiado autor pela Mystery Writers of America) e da visão neo noir do realizador Joseph Rubin, surgiu em 1987 Padrasto Assassino, um thriller psicológico sobre um psicopata que almejava a relação perfeita, através de contínuas tentativas com viúvas e divorciadas com filhos, a cujo seio faltava a figura paternal. Se a família escolhida não se portasse bem, cortava o mal pela raiz e começava de novo.

O actor Terry O’Quinn revelou-se um autêntico diamante em bruto, capaz de incendiar a tela com a sua multifacetada interpretação, mas a película sofreu uma distribuição limitada e foi um fracasso de bilheteira, ainda que tenha colhido algum merecido culto e despoletado duas sequelas. Apenas o facto de O’Quinn ser um indivíduo magro, calvo e não especialmente atraente impediu que a sua estrela brilhasse mais e mais depressa (algo que, em 1996, julguei que fosse acontecer a Edward Norton, mas esse sempre tinha cabelo). O’Quinn lutou por evidenciar-se nas séries JAG e Millenium,esta última de um Chris Carter que soube ler o seu olhar de sacrifício humano na cena de abertura do filme X Files Fight The Future(1995). Hoje, O’Quinn é Jonh Locke, na série Perdidos.

Contextualmente, O Padrasto é um fenómeno previsível. Sabemos o seu propósito e com quem vai lidar. Um homem simpático chega aos subúrbios, disposto a ser aceite pelos demais e a constituir família. Era o sonho americano dos anos '50, reabilitado pelos valores sociais da governação Reagan da década de '80, mas essa aparência de normalidade voltou a diluir-se na Wisteria Lane das Donas de Casa Desesperadas e na Disturbia (2007) do novo milénio, para dar só dois exemplos. O Padrasto Assassino construía-se pela interdependência dos personagens, todos eles parte de um projecto pronto a ruir como um castelo de cartas. Daí a importância de um realizador que soubesse apresentar as pequenas nuances de forma sub-reptícia, até não poderem mais ser imperceptíveis e com elas fazermos um colar de presságios, e de um actor que soubesse usar esse colar com orgulho. Em 1987 isso foi conseguido. Em 2009 atingiu-se o desnecessário.

A dupla Nelson McCormick (realizador) e J.S. Cardone (argumentista) não trazem nada de novo. Da mesma forma que se tinham enterrado com o nulo remake de Prom Night (2008), limitaram-se a pegar em alguns actores de televisão e em mexer um ensopado de restos. Dylan Walsh (Nip/Tuck, série 2003-2010) é embaraçosamente bidimensional como o padrasto titular, com um interruptor para acanhado e outro para indisposto. Sela Ward poderá ter sido escolhida devido à sua prestação como a divorciada mãe de família da série Começar de Novo (1999-2002), mas não se lhe vê a menor centelha da inteligência que terá interessado o Dr. House na temporada de 2006. Penn Badgley vem da série Gossip Girl e de outras de daytime TV e não é desta que se emancipa. Amber Heard é quem tem mais horas de longas-metragens no currículo, mas a loira voluptuosa entretanto perdeu as curvas e as bochechas e não passa de um caramelo anoréctico, sem o exotismo que se lhe lia desde All The Boys Love Mandy Lane (2006). Em O Padrasto está constantemente de biquini, mas em Os Informadores (2008) opta pelo topless.

Quando, em pleno clímax, o padrasto confunde as suas identidades e solta a confusa tirada «Quem é que eu sou aqui?», o público podia rir nervosamente com Terry O’Quinn, mas Dylan Walsh não encontra a menor boa vontade por parte da plateia entediada com uma premissa estafada e um desenvolvimento sem originalidade. Walsh é apenas um dissimulado Michael Myers com a máscara do pacóvio cirurgião plástico da série Nip/Tuck. Não é simpático nem tem presença, ficando por determinar o que pode a bonita Sela Ward ter visto nele (o que dizer então do seu visual na cena de fecho). Também não se assiste a um esforço consciente e continuado por parte dele em tentar manter a família unida, como se fosse suficiente matar quem se lhe mete no caminho. Os homicídios são entediantes e apressados, só para constarem, e falham em plausibilidade (o som de um videojogo é suficiente para ofuscar um homicídio no andar de baixo).

Paranóia sem sustos, O Padrasto é abismalmente inferior ao original e conta ainda com um final insatisfatório. Qual é o psicopata com fobia em ser reconhecido que deixa passar mais de um mês sem regressar para silenciar as testemunhas que deixou vivas? Especialmente quando uma delas está indefesa numa cama de hospital, em coma? E qual a marca do adesivo que usa ao pescoço, aparentemente milagrosa o bastante para curar uma ferida em comprimento no pescoço, que deveria ter rompido diversas veias indispensáveis à sobrevivência humana?

The Stepfather 2009

As Colinas de Sangue, de Dave Parker


As Colinas de Sangue começa com uma ideia minimamente inspirada e curiosa, o que no panorama actual quase passa por original, e isso que dá vontade de abordá-lo numa nota positiva, mas rapidamente se percebe que as estrelas de um hotel não podem contabilizar-se pela apresentação do átrio, quando o elevador não funciona, as escadas não têm luz e os quartos não são arejados.

Um estudante de cinema (Tyler) decide fazer um documentário sobre um filme maldito de 1982, um slasher do tipo Sexta Feira 13 (1981), retirado das salas devido a protestos populares. A não existência de cópias e o desaparecimento de todos os envolvidos na rodagem desperta o interesse, tanto mais que a única prova de que tal filme alguma vez existiu é um trailer grosseiro a flutuar na internet. Após encontrar a filha do realizador, uma criança à data da rodagem, Tyler reúne a sua equipa (o melhor amigo e a namorada) e os quatro seguem em busca dos locais de filmagens e das bobinas originais.

Dave Parker começa o filme de modo promissor. Uma legendagem sinistra, ao jeito da de Massacre No Texas (1974), a situar a acção face ao mistério da fita perdida, entrecortando o relato com uma criança a retalhar o próprio rosto, com efeitos visuais suficientemente credíveis para se querer mais. Fastforward para o presente e a impetuosidade do estudante de cinema, decidido a recolher o máximo de elementos sobre o filme The Hills Run Redpara o seu documentário. São situados os personagens e as diversas motivações. Segue-se a viagem. Vulgariza-se a trama. Entorna-se o caldo.

A ideia de um filme retirado de exibição devido a piquetes de protesto pelo seu conteúdo não é insólita, sendo notório o caso deSilent Night, Deadly Night (1984), em que comissões de pais se opuseram ao facto de o assassino se vestir como Pai Natal. Referência incontornável é também a lista dos video nasties inglesa, em que o BBFC (Entidade que classifica filmes e vídeos na Grã-Bretanha) baniu ou exigiu cortes a dezenas de filmes, que eram inclusivamente confiscados de clubes de vídeo.

As Colinas de Sangue peca, infelizmente, por desfazer a inventividade inicial numa poça de trivialidades. Primeiro, começam a surgir inconsistências e por fim os dois twists adivinham-se com incrível antecedência. Entre as fragilidades, a filha do realizador maldito, em adulta interpretada por Sophie Monk (é muito parecida com a actriz pornográfica Sylvia Saint), não aparenta sequer a idade do celulóide (a actriz tinha 3 anos em 1982); é feito o desmame involuntário a uma toxicómana numa curta montagem, após o qual ela fica totalmente restabelecida (no motel onde tem lugar a intervenção, nem gerente nem camareiras interromperam o processo, independentemente dos gritos da drogada); o melhor amigo e a namorada de Tyler têm sexo na ausência dele e o facto não volta para assombrá-los, o que torna a cena totalmente dispensável.

Apesar dos defeitos, As Colinas de Sangue apresenta um maníaco icónico, que devia ter sido melhor aproveitado. De seu nomeBabyface, ostenta uma máscara que está ao nível das de Michael Myers, Jason Voorhees e Leatherface. A carantonha conjuga o rosto de um bebé de porcelana com a mandíbula inferior visivelmente deslocada, dentes podres e, claro, uma careca com meia dúzia de fios de cabelo, porque nenhum monstro de baixo orçamento usa Dercos. Duas cenas acima da média merecem referência em relação a esta criatura. Ao contrário do comum dos maníacos do bosquedo, que só usa armas brancas, Babyface dispara casualmente sobre uma vítima que o defronta munida de flares, lembrando Indiana Jones e o árabe com duas espadas (Salteadores da Arca Perdida, 1981). Após ficar estabelecido pelo seu modo de deslocação e mutismo que é atrasado mental, ele sai-se com uma deixa absolutamente surpreendentemente: para tentar acalmá-lo, uma vítima embála-o com uma canção infantil, que parece fazer algum efeito, pela maneira como ele posiciona a cabeça; inesperadamente, ouve-se através da máscara, em tom perfeitamente normal: «Podes continuar a cantar, se te faz sentir melhor». Mas a deixa é claramente um add-on em pós-produção, porque o personagem não diz absolutamente mais nada, nem quando se debruça sobre a mãe assassinada, no seu momento Bambi.

Assim como Tarantino foi buscar o título de Inglorious Basterds ao nome alternativo de um obscuro filme de guerra italiano dos anos 60, também The Hills Run Red já foi um western de 1966. Eu teria preferido The Rivers Run Red, pela sonoridade mais completa, tanto mais que há rios que correm por entre zonas florestais, mas enfim. Se Dave Parker tivesse arriscado mais e filmado no estilo camp de Tobe Hooper, As Colinas de Sangue podiam ter atingido, na recta final, o pretendido nível de pesadelo, que só por inépcia nem sequer orlam. Os actores, apesar de não desmerecerem, também não são a mais fina flor. O único veterano da película é William Sadler, que nunca foi grande actor e a quem falta intensidade. Tad Hilgerbrink (Tyler) falha na cena mais exigente, em que deveria enlouquecer, como consequência do seu momento Laranja Mecânica sem pinças nos olhos (em Terror na Ópera, Dario Argento mimetizara o método de Kubrik com a simplicidade de um adesivo com agulhas). Pelos seus defeitos, As Colinas de Sangue ficam mais próximas de Hatchet(2006) do que de Sexta Feira 13. E fica por entender a razão para ter sido filmado na Bulgária, quando há bosques como aquele em todo o lado.

The Hills Run Red 2009

A Perfect Getaway, de David Twohy


David Twohy está de volta. Em low profile desde As Crónicas de Riddick (2004), o seu nome é dos que deixam saudades. Estreou-se atrás das câmaras em The Arrival (1996), uma deliciosa história de invasão extraterrestre que praticamente dispensou efeitos especiais e apanhou de surpresa as bilheteiras intergalácticas em Pitch Black(2000), com Vin Diesel à solta num planeta cheio de criaturas pouco amistosas.

As Crónicas de Riddick conheceu uma recepção fria, mas a versão do realizador vendeu 1.5 milhões de cópias no dia do lançamento, pelo que uma trilogia se encontra em desenvolvimento. No último Comicon, o actor fazia saber que um guião estava finalizado.

Entretanto, chega A Perfect Getaway, um ataque tão sorrateiro comoPitch Black, desta feita redireccionando o thriller para um paraíso tropical. Após a notícia sobre assassinos a monte no Havai, um casal em lua de mel é confrontado com a possibilidade de estar a viajar com os criminosos. Três casais e uma dúvida é o suficiente para manter o suspense no máximo durante três quartos da duração, ficando o alucinante final a cargo de uma perseguição sem quartel, a rasgar a ténue película da realidade.

Não parece muito, mas é aqui que Twohy é mestre. Com humor e discrição, vai construindo a tensão com mão segura, não restando ao espectador mais do que ficar à mercê da condução da narrativa, a interpretar as pistas como migalhas com sabor a mel. A compensação tarda, mas não falha. E apanha-nos desprevenidos através dosflashbacks em filtro azul, cisão que prepara o filme para o ajuste de contas.

David Twohy tem créditos de argumentista firmados em projectos tão díspares como O Fugitivo (1993), Waterworld (1995) e G.I. Jane(1997). Em A Perfect Getaway, assina o texto e a objectiva. O elenco é encabeçado por Steve Zahn e Mila Jovovich, mas é Timothy Olyphant quem mais se diverte, misturando a traquinice de A Miúda do Lado (2004) com a pose de Hitman (2007). Kiele Sanchez fecha o ramalhete principal, com Marley Shelton e Chris Hemsworth (o próximo Thor, da Marvel, para 2011) na peugada.

A Perfect Getaway 2009

Vigilância, de Jennifer Chambers Lynch


Desde 1993 que Jennifer Chambers Lynch não arriscava sentar-se atrás das câmaras. Três anos antes, o pai, David Lynch, tinha-lhe dado o rebuçado de escrever O Diário Secreto de Laura Palmer, publicado para capitalizar no sucesso da série televisiva Twin Peaks, e Jennifer tratou o projecto como um trabalho de casa, porque lhe diziam que sabia juntar frases. Boxing Helena – Paixão Selvagem(1993) foi a sua estreia na realização e no guião, mas o falhanço foi tal que só década e meia depois se viu confiante o suficiente para tentar novamente.

Vigilância é um filme independente, com poucos cenários e um restrito grupo de personagens, construído como uma dança entre duas cenas, causa e consequência, que se digladiam através de um interrogatório e respectivos flashbacks. Para assegurar a integridade do jogo, foram escolhidos dois actores que se mostraram tudo menos naturais: Bill Pulman e Julia Ormond, com Michael Ironside em apoio secundário. Há uma razão para estas interpretações afectadas, mas nem por isso estas satisfazem ou convencem. A história, curiosa para ser simpático, estica demasiado a credibilidade, ficando na dúvida se chegou a partir, o que dependerá do grau de resistência do espectador.

Inicialmente, há uma certa sensação de regresso a Twin Peaks, território familiar ao clã Lynch, com um par de agentes do FBI a entrarem numa esquadra local para questionarem as testemunhas de um homicídio em série (as vítimas ascendem a seis) e, sem excepção, todos se comportam de forma histriónica. Mas rapidamente a estranheza passa a saturação, devido a um ritmo lento que antecipa os twists muito antes de serem revelados, porque a comédia negra se gasta no vazio e o sadismo em seco provoca enfado.

Apesar do ditado popular, Jennifer Chambers Lynch apenas deixa provado que filha de peixe... molha-se. A desistência do actor Billy Burke a dias do início das filmagens (preferiu ser pai de Bella na sagaCrepúsculo) fez chamar Bill Pulman, amigo da família, escolha inglória pelas caretas deslocadas que produz constantemente e por ser doze anos mais velho do que Julia Ormond (Burke é praticamente da idade dela). French Stewart (da sitcom 3º Calhau A Contar do Sol) foi outro tiro no pé. Apesar de manter algumas interrogações ao longo do filme, o fio que sustém o interesse é demasiado ténue para aguentar tanta monotonia. Apesar de tudo, há mérito nas opções de fotografia de Peter Wunstorf.

Surveillance 2008

A Tribo, de Jorg Ihle


Dizer que A Tribo nem aos fãs de Jewell Staite interessa, não é um eufemismo. A história mais interessante por trás do filme encontra-se nos bastidores, não da filmagem, mas da produção. Filmado entre 2006 e 2007, acabou por encontrar o cenho franzido do produtor Mo Ramchandani, que exigiu extensas refilmagens, o que não encontrou a disponibilidade do elenco, entretanto disperso. A boa vontade do produtor foi tal que atirou a bobina para a prateleira e contratou um novo realizador, argumentista e actores, rodando tudo de raiz. Apenas o mimo que faz de macho alpha da tribo foi mantido (um duplo chamado Terry Notary).O novo filme terá o título A Tribo Perdida e é previsto para o final do ano.

Jewel Staite, conhecida do grande público como a querida mecânica da série Firefly e subsequente filme Serenity (2005), acabou por ser dispensada da obrigação de repetir as suas cenas com a acusação de ser uma prima donna, mas vozes mais conciliáveis invocam a necessidade de estar no set da na série Stargate Atlantis (entre 2005 e 2009, entrou em 33 episódios) e subsequente filme Stargate Extinction (2009) como razão para a sua exclusão.

A Tribo surgiu em 2009 directamente para vídeo, provavelmente para aproveitar a celeuma, e isso faz de A Tribo Perdida um remake produzido antes da estreia do original. O que dizer da versão que o produtor pôs na prateleira? Que devia ter ido para o lixo.

Jewel Strait apresenta-se com uns quilos a mais e um papel serôdio, que parte num iate geração minúscula em busca de um resort nas Antilhas, mas vai parar a uma ilha que não consta dos mapas e é habitada por uma tribo de canibais (com ar de macacos do 2001 – Odisseia no Espaço) desejosa de carne que não lhes deixe pêlos agarrados aos dentes. Como já se percebeu que se trata de uma película de vitimização numa ilha perdida, cabe indicar que, com ela, seguem o musculado namorado (Justin Baldoni), o irmão deste (um jovem de cara mimada e um sério problema de calvície), e um casal amigo constituído por um gordo e a sua interesseira e jovem esposa (Nikki Griffin, um corpo espectacular completamente desperdiçado).

As parvoíces da história: logo à partida notam que o GPS está estragado, mas abalançam-se de qualquer modo; o iate encalha nas rochas e todos os tripulantes caem no mar, independentemente de estarem no interior da embarcação; a bagagem dá milagrosamente toda à costa e no sítio onde eles acordam; o namorado desaparece, deixando a toalha onde dormia cheia de sangue e um rasto na areia em direcção à selva, mas afinal o sangue proveio de uma ferida na perna que nem sequer o impede de correr como um profissional; a tentar salvar a vítima de uma armadilha, suspensa de uma árvore, o irmão do namorado cai de uma árvore, o equivalente a três andares de uma construção urbana, e desata a correr como se nunca tivesse saído do chão; a meio da perseguição que a tribo lhes move, os dois sobreviventes acham conveniente pararem no meio da selva para discutirem; os membros da tribo são cegos e precisam de cheirar ou ouvir as vítimas para as apanharem, directo plágio à A Descida(2005); e a heroína protege-se com uma gelatina mal cheirosa que confunde os sentidos dos tribais, da mesma forma que Schwarzenegger se cobriu de lama para não ser detectado peloPredador (1987); no final, corta a cabeça ao macho alpha e os outros dispersam e ela foge no bote do iate sem levar consigo a cabeça, o que teria ajudado a provar a sua inocência, porque vai ser a única dos cinco a regressar (partindo do princípio de que se safa).

The Forgotten Ones 2009

A Última Casa À Esquerda, de Dennis Lliadis


É na antítese que pode comparar-se o remake de A Última Casa À Esquerda, que recupera um dos mais ineptos filmes de culto de terror dos anos 70. Porta-estandarte de mau gosto e incompetência cénica, a estreia de Wes Craven em 1972 cimentou-se à custa de muita publicidade e pelo facto de encontrar o público desprevenido.

História de sadismo bacoco, supostamente baseada na mesma canção sueca do século XIII que inspirou A Fonte da Virgem, de Ingmar Bergman (1960), A Última Casa À Esquerda tinha como mero mecanismo o choque, mas nem disso sabia tirar partido. Ao contrário da óptica do «são sádicos e está explicado» de Craven, Dennis Lliadis, realizador do remake, acerta com sensibilidade e segurança o peso e leveza a dar a cada momento, sentindo o pulso às emoções do espectador com a precisão de um técnico de som, sempre atento aos picos de volume. Ao choque, juntou melancolia, porque sabe que estamos a assistir a duas mulheres serem violadas e mortas e nada podemos fazer para evitá-lo; contornando o voyeurismo, Lliadis capitaliza na impotência da assistência e na sua sede de retribuição.

Através do esforço consciente e da dedicação aos mais ínfimos pormenores, a sua versão assenta num relato de coragem e sobrevivência, contrariando o determinismo dos cânones clássicos do horror adolescente, dos quais se retira que, por mais inocente, quem se mete na boca do lobo tem de punido pela prevaricação. Aliás, já oremake de Massacre no Texas (2003) premiara Jessica Biel pela sua resistência à ameaça canibal.

Impressionante pela intensidade na condução do suspense, o filme tropeça na execução do showdown climático. A querer evitar o facilitismo, torna-se pouco confiante nas reviravoltas e encerra o episódio com o bizarro de uma cabeça humana a explodir num microondas. Com todo um filme pautado pela credibilidade e pelo realismo, esta cena fica a abanar ao vento, deslocada do resto.

Quanto ao elenco, Garrett Dillahunt (O Assassínio de Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford, 2007, e papeis recorrentes nas sériesDeadwood, Os 4400 e Terminator: As Crónicas de Sarah Connor) é o maior trunfo. Aqui no papel de Krug, o líder do clã sociopata, Dillahunt sabe tirar partido da sua postura e, especialmente, do olhar; ele não é puramente mau, mas cauteloso e calculista. A sua maior preocupação é a liberdade e o anonimato, os eventos é que se precipitam e não é capaz de evitar a fúria. Os restantes estão bem, sem especial destaque. As maminhas de Riki Lindhome são a excepção.

O título é que continua por entender, visto que o próprio proprietário indica que a casa mais próxima fica a seis milhas de distância. Portanto, última casa à esquerda de quê?

Last House On The Left 2009

Thursday, September 10, 2009

Calafrio, de Isidro Ortiz


História de terror de produção espanhola, capaz de assustar apenas um público infantil ou de fácil sugestão. Santi é um adolescente que sofre de vampirismo. Uma mistura de fotofobia e meningite poderia explicar a hiper-sensibilidade à claridade e à luz do sol (é uma doença da retina) e a meningite as hemorragias vasculares, mas os dentes caninos exageradamente evoluídos ficam-se pelo reino da fantasia. Santi não aguenta a luz do dia, mas não tem força sobre-humana nem a sua dieta inclui sangue humano. Aliás, é tão pacífico e cobarde que convence a mãe a mudarem-se para o norte só porque é gozado na escola, indo ambos parar a uma localidade rural onde o sol marca pontos pela ausência. Ainda a tentar habituar-se à mudança de ares, é implicado em dois homicídios que ocorrem nos bosques.
Se perdemos metade do filme a cogitar sobre a doença de Santi, já após o filme ter terminado a questão que permanece é: para que serviu todo esse artifício? De resto, o monstro é outro, e não percebemos se é mau por natureza ou só é agressivo quando é atacado. O mistério, esse, é pobre, perde-se demasiado em clichés e as cenas chave são filmadas com um cuidado tão excessivo que se tornam anedóticas. A sonoplastia é péssima: as vozes off que gritam parece que cacarejam, as que choram parece que riem e as que respiram sem fôlego são tão descomedidas que nem respeitam os movimentos dos lábios do actor. As explicações surgem em formato de flashback, no final, e são tão insatisfatórias que teríamos ficado melhor servidos com uma verbalização sem imagens. A última cena, porém, permanece uma incógnita.

Eskalofrio 2008


Aniversário Macabro, de Wes Craven


O slogan «Para evitar desmaiar, repita para si próprio que é só um filme, é só um filme», apenso ao cartaz promocional da primeira longa metragem de Wes Craven, seria totalmente dispensável, porque óbvio. A Última Casa À Esquerda (que chegou a ter os títulos provisórios Crime Sexual do Século e Casa de Banho Masculina) não engana o mais distraído.

Com 33 anos, um emprego de taxista e de editor de som no currículo e uma licenciatura em escrita e em psicologia, o futuro criador deFreddy Krueger travou amizade com Sean S. Cunningham (futuro criador de Jason Voorhees e da respectiva saga Sexta Feira 13, iniciada em 1980) e participou como produtor executivo no segundo filme deste, Together (1971). Apesar de Cunningham vir a tornar-se uma referência do terror camp, os seus dois primeiros filmes (The Art of Marriage e Together) eram falsos documentários sobre sexualidade, com pessoas nuas a falarem sobre as suas experiências.

Um ano mais tarde, os papeis inverter-se-iam e A Última Casa À Esquerda foi o resultado da parceria. Craven, sem experiência nem orientação, concebeu um clássico de como não se deve fazer um filme de terror. Actores insuportavelmente maus, total ausência demise en scène e uma banda sonora autista (cenas de tensão mergulhadas em bluegrass prazenteira) e um encadeamento de eventos sem lógica (apesar de virem a conduzir desde a cidade e sem saberem onde Mari mora, tomam o caminho que leva à sua casa e o carro avaria mesmo à porta dela; a violação de Mari é encarada como o evento chocante central, mas Phylis já tinha sido violada na véspera e não se lhe deu a menor relevância; antes que nos apercebamos, a família homicida já se fez hóspede dos Collingwood, sem terem a menor justificação; as peripécias ridículas passadas com os polícias).

A inspiração para A Última Casa À Esquerda terá sido A Fonte da Virgem (1960), de Ingmar Bergman, mas o seu objectivo era bem diferente, ficando-se pelo ensejo belicoso de chocar um público pouco habituado a manifestações de sadismo mal concebido e ainda pior representado. Para não repetir a menção ao desajuste da banda sonora (da autoria do actor David Hess, que tem o papel de Krug) ou a incapacidade dos actores veicularem emoções credíveis, fica também o absurdo de interromper as cenas mais intensas com enxertos pseudo-humorísticos (e desgraçadamente fracassados enquanto tal).

Desde a sua estreia que se tem tentado elevar o filme a um estatuto que o mesmo não suporta. Os abjectos eventos narrados não são acompanhados do menor desenvolvimento ou análise, constituindo uma mera manifestação de sadismo gratuito, não sendo a inerte naturalidade com que é exibido um sinal de glorificação, mas um exemplo de vulgaridade a todos os níveis técnicos inepta. Com um tratamento capaz, uma réstia de preciosismo ou uma equipa motivada, talvez se pudesse salvar alguma coisa dos destroços, da forma como o produto foi apresentado, apenas se consegue ver o péssimo acabamento de uma matéria prima que já não primava pela qualidade. Aborrecido e incompetente, A Última Casa À Esquerda não assusta, não enoja, não funciona.

Wes Craven é um realizador desigual e inconsistente. Reconhecido como o autor de Pesadelo em Elm Street (1984) e da trilogia Gritos(1996-2000), o seu percurso cinematográfico conta com tantos buracos como buchas, como realizador e produtor. Apesar do seu sucesso emergente, o destino dos restantes envolvidos não foi tão sorridente. Após A Última Casa À Esquerda, Sandra Peabody (a vítima Mari) fez apenas meia dúzia de filmes eróticos; Lucy Grantham (a vítima Phyllis) desligou-se da sétima arte; David Hess (o assassino Krug) perdeu-se em papeis secundários, em inúmeros filmes e séries, chegando a realizar o ignorado To All A Good Night, em 1980; Fred Lincoln (o naifa) realizou, desde 1976, mais de 300 filmes para a indústria pornográfica; e Jeramie Rain (a sádica Sadie) fez apenas três filmes, foi casada com Richard Dreyfuss de 1983 a 1995 e fundou a associação de caridade Mother’s Care.

Se o que ficou acima assinalado não ilustrar suficientemente a nulidade da película, três cenas flagrantes: após fugir dos captores num bosque que conhece (ao contrário deles), e que fica a poucos quilómetros da casa dos pais de Mari, Phyllis corre às voltas e sem grande ímpeto, ao ponto de os perseguidores desistirem e ela, inadvertidamente, vir dar com eles; no fim da perseguição, o naifa desembainha o seu canivete de ponta-e-mola, quando antes de iniciar a perseguição o tinha entregue a outro que ficou para trás (tinha dois canivetes?); os pais de Mari encontram o corpo baleado da filha na margem do lago, ainda de olhos abertos e a mexer a cabeça por vontade própria, mas o pai (médico de profissão) profere solenemente (e sem que os seus lábios mexam, em voiceover): «está morta».

Last House On The Left 1972


O Mensageiro dos Espíritos, de Peter Cornwel


Uma família vai morar para uma casa assombrada e à cabeça, no que parece ser uma entrevista sobre o que aconteceu (portanto, o resto do filme será um flashback), a matriarca diz que não sabe porque é que foram escolhidos para vítimas. Muito timidamente, aventuraria que a razão é estarem lá a morar...

Nunca é bom prenúncio quando um realizador principiante aceita um projecto de terror apenas porque a alternativa é o desemprego. A máxima confirma-se. Se Peter Cornwel assistiu a alguns dos clássicos do género (Amityville, A Queda da Casa de Usher, A Mansão, A Casa do Passado, etc), depressa decidiu que nada tinha a acrescentar ao tema, e nessa sua modéstia se reviu a abordagem aborrecida e sem a menor originalidade que fez ao material. Verdade seja dita que a história já era estéril, mas a vulgaridade com que foram encarados os eventos desprestigiou até os actores Virginia Madsen (desdeSideways, 2003, que se espera uma centelha de talento que tarda em acender) e Martin Donovan (outrora primeira escolha de Hal Hartley). O esforço de realismo é tão ínfimo que um dos personagens, durante uma alucinação, arranha uma superfície até deixar sulcos profundos na madeira e ter os dedos cheios de sangue, mas nessa mesma noite nem sequer usa ligaduras. Tirando isto, ficamo-nos por barulhos estranhos e alguns vultos com mau aspecto e débil mobilidade, um pai de quem todos têm medo quando está alcoolizado mas parece frágil como uma pena e um reverendo (Elias Koteas) com cancro que percebe de espíritos e assombrações. As explicações não fazem o menor sentido (os espíritos estão presos naquela casa porque uma sessão espírita correu mal, porque quiseram ou porque foram enganados? Quem os mumificou e porquê?).

Sem um ambiente fantasmagórico palpável nem uma abordagem minimamente curiosa, O Mensageiro dos Espíritos não passa de uma amostra de quinta categoria da pobreza de ideias que povoa o género na actualidade. Se não bastasse, o filme ainda se afirma baseado em factos reais.

The Haunting in Connecticut 2009


Return To House On Haunted Hill, de Víctor García


Para casas-fantasma que não valeram o preço do bilhete à primeira incursão, o regresso ao manicómio poeirento do Dr. Vannacut é vergonhosamente inaceitável. A Casa do Passado (1999) não aproveitara o cenário nem os fantasmas, desperdiçando os actores em valores de produção irrisórios e todos os mesmos erros seriam repetidos se houvesse em Return To House On Haunted Hill algum actor capaz de desperdiçar.

Amanda Righetti e Cerina Vincent são os nomes de cartaz deste direct-to-video que se centra numa espécie de Tomb Raider, com duas equipas de caçadores de trofeus atrás de uma escultura de Baphomet, esquecida algures no interior do antigo hospício. Os sobreviventes do primeiro filme não regressam. Sorte deles.

Com montagem ao ritmo MTV mas claramente a contar os tostões,Return To House On Haunted Hill faz questionar sobre os nomes de Joel Silver e de Robert Zemeckis na produção. E o de Jeffrey Combs a bisar o pindérico papel do médico fantasma sem direito a uma única fala. Víctor García, técnico de efeitos especiais, provou o sabor da câmara com a curta O Ciclo, de 2003, e a mini-série baseada na graphic novel 30 Dias de Noite(Blood Trails, 2007), antes de inquinar neste compósito inútil. A versão unrated conta com uma cena pós-créditos com topless (a escultura de Baphomet é encontrada numa praia).

Return To House On Haunted Hill 2007


A Casa do Passado, de William Malone


O remake do filme de 1959 (realizado por William Castle e com Vincent Price) segue a história original de Robb White com pouco mais do que algumas alterações de cosmética, mas nenhum ambiente. Os eventos sucedem-se como caricaturas aborrecidas, com efeitos especiais pedestres e actores que nem se esforçam. O elemento «macabro», ponto de honra do Sr. Espectáculo dos anos 60 (Castle) está totalmente ausente e o manicómio art-déco que substitui a histórica Casa Ennis-Brown (desenhada pelo arquitecto Frank Lloyd Wright e aproveitada em produções tão díspares comoBlade Runner e Chuva Negra) é um mau CGI.

Um excêntrico milionário convida seis desconhecidos para a festa de aniversário da esposa, a realizar num antigo manicómio supostamente assombrado, aos quais oferece uma soma para permanecerem nas instalações até ao final da noite... se ainda respirarem. Nem todos sobrevivem, principalmente por culpa de uma história indigente, de um realizador incapaz e dos efeitos visuais que não convencem um cego. A versão dos Marylin Manson da cançãoSweet Dreams, dos Eurythmics, que pode escutar-se durante os créditos finais, é meramente operática.

O elenco conta com Geoffrey Rush, Famke Janssen, Peter Gallagher, Taye Diggs e Ali Larter, mas nenhum deles deixa a menor marca no celulóide. A crise do ramo imobiliário não prenuncia nada de bom para casas assombradas...

House On Haunted Hill 1999


Sublime, de Tony Krantz


A Raw Feed continua a editar lixo. Depois de Rest Stop 1 e 2, o trio Shiban, Myrick e Krantz produz um filme que só poderá ser impressionável a hipocondríacos. Enésimo exemplo do mito urbano em que um paciente que entra num hospital para uma operação de rotina e vê os seus problemas aumentarem exponencialmente, com o seu estado a degenerar diariamente e a assistir a diversas experiências inexplicáveis... que afinal não passam de um pesadelo.

A história é mal conduzida desde o início (e os flashbacks não ajudam – quantos flashbacks aguenta este filme?). Quando a colonoscopia de rotina é substituída por uma simpatectomia torácica, ainda pomos em dúvida o que virá a seguir, mas a amputação de uma perna é demais. Intuímos imediatamente, tanto mais que ninguém parece ter uma reacção normal ao sucedido, que a história aponta para o que em BZ (1990), de Adrian Lyne, foi um golpe de génio, mas que entretanto se transformou num recurso laxativo de argumentistas preguiçosos que não sabem como concluir uma história.

O guião de Erik Jendresen é preguiçoso e estereotipado, a testar os limites de tolerância à estupidez. Anedótico e pouco convicto, com a medicação de embrutecimento do paciente a ser receitada igualmente ao público. Não interessa se é sonho ou realidade, nem um nem outro conseguem manter os padrões mínimos de entretenimento.

Tom Cavanagh (Ed), com os seus honestos olhos azuis, defende o papel principal com estoicismo e dignidade, mantendo-se credível entre flashbacks e imbecilidade hospitalar. Entre os actores secundários encontramos Kathleen York (West Wing), Paget Brewster (Huff e Mentes Criminosas), George Newberry (Providence, Reunion e dezenas de outras séries) e Lilyan Chauvin, a velha madre do Silent Night Deadly Night, como enfermeira.

Sublime 2007


Férias Assombradas, de Glen Morgan


No Natal de 1974, Black Christmas foi o filme choque de Bob Clarke, sobre um assassino nas sombras que eliminava, uma a uma, as estudantes de uma residência universitária feminina. Nunca é indiciada a razão da escolha daquela casa específica nem a motivação dos homicídios. O filme teve pouca adesão numa fase inicial, pensa-se que devido ao título alternativo de estreia Silent Night, Evil Night (por receio de que Black Christmas soasse racista), mas entretanto ganhou estatuto de culto. Surge agora um remake, escrito e dirigido por Glen Morgan, que é uma horrenda fantochada.
Verdade seja dita que muitas alterações foram exigidas ao guião proposto por Glen Morgan, que não incluía as cenas passadas no hospício, não arrancava olhos, ordenava os flashbacks na abertura e Agnes não era filha de incesto. O resultado final, contudo, é o que conta, e este remake não poderia ser menos qualificado. Inventa-se todo um passado atroz para o assassino, que adquire uma tonalidade de pele amarelo-alaranjada por efeito de um problema de fígado, presta-se a sexo anedótico com a mãe e até se canibaliza em churrasco de progenitura, antes de ser enviado para o sanatório. De resto, temos uma residência universitária com moças para todos os gostos (Kristen Cloke, Michelle Trachtenberg, Mary Elizabeth Winstead, Lacey Chabert…) - menos para quem gosta de negras, asiáticas e gordas - e um assassino com a peruca da Mãe Bates e a cara do Mickey Rourke em latex que liga às sobreviventes pelo telemóvel da última vítima, sendo que, invariavelmente, todos os telemóveis têm o mesmo tétrico ringtone natalício.
Meia dúzia de olhos arrancados depois, uma advertência a sex tapes que dão por si no youtube e muitos gritinhos irritantes, fica apenas um body count sofrido e muito pouca imaginação. A banda sonora está a cargo de Shirley Walker, compositora de Final Destination, de James Wong, produtor de Black Xmas e realizador de Final Destination 1 (com Kristen Cloke) e Final Destination 3 (com Mary Elizabeth Winstead).
Black Xmas 2006