Wednesday, January 26, 2011

O Cisne Negro, de Darren Aronofsky

Uma jovem bailarina no limiar da sanidade não aguenta o stress de ser escolhida para prima ballerina da Companhia a que pertence. A sua mente perturbada sucumbe à tensão e, de ataque de ansiedade em ataque de pânico, assistimos ao desagregar da sua personalidade. Cisne Negro descreve-se como um thriller psiológico, com o próprio realizador a traçar inspiração nos filmes de Roman Polanski Repulsa e O Inquilino, mas a imagem que se destaca da sua incursão pelo mundo do ballet é uma esquelética Natalie Portman com os braços a esvoaçarem dramaticamente e uma expressão desgraçada no rosto.

Depois de acompanhar a miséria de um wrestler de segunda categoria (O Wrestler, 2008), Darren Aronofsky esteve para dirigirThe Fighter (2010) e o remake de RoboCop (que a MGM adiou por dificuldades financeiras e um súbito desejo de fazê-lo em 3D), mas acabou por regressar a uma ideia antiga, baseada no conto O Duplo, de Dostoyevsky, que ele já ligara ao bailado O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, por causa da dicotomia entre o Cisne Branco e o Cisne Negro. Entregou o argumento a Mark Heyman, que tinha sido seu assistente de realização em A Fonte (2006) e co-produtor de O Wrestler (2008), que viria a ser retocado por mais dois amadores.

Cisne Negro é um filme masoquista, concebido como uma manta de retalhos, a acompanhar o desgaste psicológico de Nina, bailarina introvertida, desde a sua escolha para Rainha Cisne até ao final da estreia do bailado. Os eventos tentam colar-se ao libreto do ballet, mas fazem-no de forma solta, chegando a esticar a credibilidade, por exemplo, com a referência ao príncipe a ser concretizada no director da Companhia, cujo apelido é Leroy, do francês le roy (rei e não príncipe).

Leroy acredita que Nina é um competente Cisne Branco, mas que terá de aprender a soltar a sua sensualidade, se quer transformar-se também no Cisne Negro, arquétipo mais adequado a Lily, outra bailarina da Companhia. Contudo, em vez de centrar nas duas o conceito de dualidade, Aronofsky inventa imagens avulsas de uma sósia de Nina, que surge em multidões e até no chorus line, que não é explorada para além do jogo visual óbvio. Estas e outras imagens querem-se perturbadoras, mas sente-se que estão apenas a encher chouriços, através de artifícios popularizados pelo horror nipónico dos finais dos anos 90 e disseminado entretanto por remakes cada vez mais duvidosos: arranhões nas costas, unhas arrancadas, shape shifters e os olhos dos retratos da mãe que a perseguem quando entra no estúdio desta. Muita forma sem conteúdo.

A esperada transformação de Nina em Cisne Negro, durante os ensaios, nunca chega a verificar-se, tanto mais que, de hirta e desassossegada, ela só se revela no próprio palco, sendo que a paranóia a leva a uma queda desprestigiante no primeiro acto e, convenhamos, por muito bem que feche o espectáculo em ovação, será duvidoso que possa considerar-se perfeita. A dança, aliás, não parece ser mais do que um mal necessário, já que, para o objectivo de Aronofsky, funciona de modo tão neutro como a luta livre para OWrestler.

Carrie, de Stephen King, terá sido outra clara influência. Numa fase inicial, quando se estabelecem as bases para a instabilidade, inadaptação e comportamento rígido da protagonista, a autoridade, austeridade e agressividade passiva da mãe são apontadas como responsáveis. Um ambiente familiar opressivo e castrador, que insiste em restringir a liberdade e a autonomia da filha pela infantilização do seu habitat e pelo isolamento claustrofóbico. Aliás, pedia-se mais subtileza neste ponto, para que a marca Carrie se esbatesse. Enfim, algumas amarras vão sendo cortadas por Nina ao longo do seu percurso, aliviando o espartilho, mas não era necessário massacrar o espectador com constantes reproduções de dilaceração física, o permanente desassossego era mais do que suficiente. Aqui, são os primeiros anos de Cronenberg que são explorados, e até um nadinha de Shynia Tsukamoto.

Por último, O Cisne Negro vai ainda buscar inspiração a Branca de neve E Os Sete Anões, porque Natalie Portman e Mila Kunis, enquanto bailarinas, parecem de palmo e meio. Isso não impede que ambas tenham treinado arduamente ou emagrecido drasticamente, nem que sejam menos excitantes quando os seus corpos se prestam ao desejo, mas a frieza e artificialidade da abordagem do realizador tolhe todo o calor que delas pudesse emanar. Cisne Negro não passa de charlatanice, do ponto de vista do objecto de estudo, já que as conclusões da tese foram adulteradas para servir a pretensão.

Antes que fique por mencionar, Natalie Portman está fabulosa como a porta estandarte e alma do filme. A câmara segue-a sem contemplações, sem privacidade, sem licença, e ela mergulha de cabeça no papel traumatizado por pressões e recalcamentos de infância, que culminam na alegria e terror se ser, pela primeira vez, cabeça de cartaz. O crescimento da personagem e a sua neurose são acarinhados por um trabalho de método, incansável, milimétrico. Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey e até uma apagada Winona Ryder podem estar iguais a si próprios, mas Portman está melhor.

Black Swan 2010


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