Friday, May 31, 2013

O Silêncio, de Baran Bo Odar

Dois pedófilos, uma menina de bicicleta, uma oportunidade, um crime. O mais passivo e introvertido foge. Passam-se 23 anos e o crime é, aparentemente, reencenado. No mesmo local, uma bicicleta e um saco de ginástica abandonados. Uma menina desaparecida. Para a polícia, a situação é de embaraço, pois o crime original continua por resolver, mas é também uma oportunidade de redenção, matando dois coelhos de uma cajadada. Contudo, até aparecer um cadáver, o caso tem de ser tratado como o de pessoa desaparecida e não homicídio. Para o pedófilo que refez a sua vida, é uma ferida que se abre. Como remendá-la permanece uma incógnita.
 
A premissa é excelente e o início do filme é frio e desumano, preciso no enquadramento e demais pormenores técnicos, mas rapidamente começa a desagregar-se. De tão insistente em ser fiel ao título, torna-se surdo. A planificação rígida e compassada resulta sonâmbula e enchê-la de personagens neuróticas contribui apenas para um eco caótico.
 
O responsável pela investigação é um homem em sofrimento pela morte cancerosa da esposa (cinco meses antes), que não cuida do seu aspecto e (por casa e às escondidas) veste as roupas da falecida. O reformado chefe de polícia regressa para tentar deslindar o crime que não resolveu há 23 anos e o seu substituto é incompetente a lidar com as diversas tarefas do cargo. Uma das detectives está em acentuado estado de gravidez, outro ainda ostenta o buço de adulto em gestação. A mãe da desaparecida decide sair de casa poucos dias após o crime, quando a relação parecia saudável. As vítimas são identificadas como tendo 11 e 13 anos, mas as actrizes que as representaram parecem mais velhas, assim como a de um filme a que os pedófilos assistem, pondo em causa a própria definição da parafilia inerente.
 
Produção alemã com um suíço ao leme, O Silêncio segue o romance de Jan Costin Wagner, mas não sabe o que fazer dele, porque o cuidado com a forma foi inversamente proporcional ao da alma. A trama avança sob a percepção de que até os pedófilos se sentem sozinhos e que o assassino, tendo esgotado os meios de contactar o amigo, lhe teria enviado uma mensagem desesperada. Contudo, quando estes se cruzam, desmente, apenas para mais tarde desabafar com uma vizinha que realmente o fizera. Ora, se realmente foi ele o responsável pelo novo crime, apenas para que o outrora cúmplice viesse até si, o reencontro é demasiado murcho para a intensidade de emoções que deveriam tê-lo guiado. E, se realmente se tratou de uma recriação, porque razão a segunda vítima não foi violada? Mais interessante teria sido se a esta vítima, já que não passava de um chamariz, pudesse ser encontrada algures, desidratada e amordaçada, mas viva, tendo cumprido a sua função – afinal, nada mais dela era necessário do que a bicicleta e o desaparecimento do corpo, durante tempo suficiente para que a reunião tivesse lugar.
 
Cabe ainda reclamar que o filme trata os personagens e os eventos pela rama, numa superficialidade  comparável ao relato de um jogo de futebol por alguém não familiarizado com as regras. Encabeçada por um detective deprimido e instável, a esquadra de polícia é um cenário humano incoerente, perfeitamente recrutável num hospício. A utilização dos mesmos actores para os pedófilos, mesmo após um intervalo de 23 anos, torna confusa a idade que teriam aquando do primeiro crime. Por fim, lamenta-se que o único avanço na investigação provenha de um indecente facilitismo ao nível do guião (sem aquele cartão de visita, ninguém teria associado nada).
 
Das Letzte Schweigen 2010

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