Thursday, September 6, 2012

A Centopeia Humana, de Tom Six


O holandês Tom Six considera-se original e megalomaníaco e isso transparece no protagonista de A Centopeia Humana, mas a criatividade, ou o choque, reduzem-se ao tema, que é exposto em acetato: a união de três seres humanos, que passarão a locomover-se como uma centopeia, com a travessia gástrica a efectuar-se da boca da primeira ao ânus da terceira, passando, obviamente, por duas bocas de permeio. O resto é completamente inane.
Apresentado com uma qualidade de imagem, no mínimo, duvidosa (próxima do VHS dos anos 80), A Centopeia Humana resume-se à curiosidade e subsequente desilusão de ver o que o realizador/ argumentista poderia fazer com a ideia. Duas turistas norte-americanas na Alemanha perdem-se num bosque e vão parar à boca do lobo, o que, neste caso, tem duplo sentido. Primeiro, porque tocam à campainha de um cirurgião louco, farto de separar gémeos siameses e desejoso de fazer o oposto, e porque as suas bocas vão ser literalmente cosidas ao ânus de outrem. Diálogos risíveis, efeitos especiais indigentes, peripécias penosas e representações inferiores. Como a uma barata, esta centopeia é para esmagar.
Human Centípede First Sequence 2009

A Casa na Floresta, de Drew Goddard


Conceptualmente, Joss Whedon deve ter dado pulos de contente com a sua genialidade, mas esqueceu-se que ser espertinho não chega. Todos os filmes de terror passados em bosques repetem os mesmos ingredientes até à exaustão: os inquilinos da cabana são jovens com as hormonas aos pulos, reunidos por classes: a oferecida, o desportista, o ganzado, o marrão e a virgem. Depois de desfeitas as malas, vão ignorar os avisos para não mexerem em algo que deviam deixar quieto e, com isso, convocam forças malignas que vão dizimá-los pela ordem acima definida. A virgem será mantida para o final, podendo ou não sobreviver, dependendo da sua própria diligência.
Joss Whedon pegou nessa fórmula (que, eventualmente, terá os seus expoentes máximos no triunvirato Evil DeadSexta Feira 13 e Massacre no Texas, multiplicados pelo vírus das sequelas, remakes, plágios e variações), dividiu-a em componentes, separou o essencial do supérfluo e adicionou todas as referências de cartilha que cimentassem a sua teoria. Por fim, e esta é a sua tão badalada novidade, colocouThe Truman Show no topo.
Infelizmente, o malabarismo não é uma das suas virtudes e os três dias que levou, com Drew Goddard, num quarto de hotel, a burilar o guião, devem ter sido passados com metade do cérebro ocupado com os Avengers. A ideia central de A Casa na Floresta é a de que há forças por trás do acaso e que este é, afinal, objecto de manipulação segundo um propósito global, o cumprimento profético de sacrifícios aos deuses, praticado desde tempos imemoriais por todas as civilizações. Os filmes de terror, não são, assim, obras de ficção escapista, mas evangelhos instrutivos. Tudo isto estaria muito bem, se a dupla não se tivesse esquecido de um pormenor: o entretenimento.
De cada vez que o filme é rotulado como sendo de “terror”, as aspas surgem a defender o termo, como guarda-costas. Efectivamente, apesar de roubar elementos ao género, A Casa na Floresta não se leva a sério. Frustra em suspense, saltos na cadeira e em qualquer outro tipo de emoção, incluindo o humor (onde, em regra, Whedon está à vontade). É um objecto pseudo-filosófico, algo próximo do que Wes Craven já fez há vinte e dois anos atrás, quando abordou a sua criação, Freddy Krueger, sob uma luz diferente, naquilo a que chamou de Novo Pesadelo (1994). Declarava-se aí que Freddy não era apenas um monstro do celulóide, mas que, no presente histórico, o seu mediatismo levara o Diabo a adoptar-lhe a fisionomia como encarnação do Mal, para maior efeito. O cinema reflecte a realidade, uma vez mais.
Para piorar as coisas, A Casa na Floresta entrega o ouro demasiado depressa. Antes mesmo da prematura frase “Lembras-te de quando se podia simplesmente atirar uma virgem para dentro de um vulcão?”, já sabíamos que havia equipas tácticas a postos e que o recinto da cabana era protegido por uma rede eléctrica invisível. A partir daqui, ninguém esperava um mero ataque de zombies e os personagens tornam-se joguetes. Antes de voltarem ao pó.
A ligação entre Whedon e Goddard encontra-se na escrita das séries Buffy, Angel eDollhouse, a que não é alheia a partilha dos actores Amy Acker e de Fran Kranz. A Casa na Floresta podia, perfeitamente, ser um episódio de qualquer das séries, passado num mundo de sonho, de onde acordariam no dia seguinte para um episódio dito normal. Goddard foi, ainda, produtor e argumentista da série Lost, caracterizada por atirar ao público todo o tipo de dúvidas e mistérios, mas incapaz de resolver qualquer que fosse. Mesmo a propósito.
Cabin In The Woods 2012

Friday, August 17, 2012

A Serbian Film, de Srdjan Spasojevic



Depois da trilogia Hostel passar por Amesterdão (2005) e Eslováquia (2007) e antes de chegar, directamente para vídeo, a Las Vegas (2010), Srdjan Spasojevic trouxe o torture porn para a Sérvia natal, mas não soube o que fazer com ele. O argumento misturou snuff, pedofilia e até necrofilia, mas é tão plástico, encenado e tosco que é impossível levá-lo a sério.
O seu primeiro pecado é demorar a desenvolver. A curiosidade criada em torno de um filme mistério, para o qual um ex-actor porno é convidado a participar, por uma elevada quantia, não é suficiente e vai esmorecendo, tanto mais que os primeiros dias de filmagens são realmente entediantes. A desilusão não se fica por aqui: no reino da pornografia violenta, o filme envergonha-se. Tenta convencer o público de que é, ou vai ser, chocante, mas vacila ante a apresentação de um simples pénis, recorrendo a evidentes dildos de silicone, e até se esquece de juntar sangue à excisão de um. A cobardia, numa película que já pertencia à categoria M/18, não pode ser premiada.
Finalmente, o realizador entra em pânico e o filme torna-se surrealista, passando a depender de flashbacks e de todos os efeitos gráficos que vêm com a câmara. Sem que se perceber o que são alucinações, memórias ou presente, instala-se o desnorte e a confusão, com um lavar dos cestos que já nem pode considerar-se vindima e muitas respostas por esclarecer. Outras, porém, são tão previsíveis que se adivinham, como a identidade do violador encapuzado. No meio deste desperdício, fica o lamento de Um Filme Sérvio não trazer nada de novo.
Srpski Film 2010

Rec 3, de Paco Plaza



Os zombies são uma fonte de rendimento (ainda que não de inspiração) inesgotável e os espanhóis recusam-se a largar o osso. Assim como, ao cabo de dez minutos de filme, Ring 2 (2002) deitou fora a cassete assassina, [Rec 3] Genesis atira o conceito de vídeo caseiro às urtigas, passando para uma steadycam em menos de meia hora. Apesar da relativa originalidade de [Rec] (2007) assentar precisamente nessa técnica, não haveria aqui grande reclamação pois, se esta já não era fresca então, actualmente ultrapassou o ponto de saturação. Infelizmente, há mais a ligar ambos filmes: a possessão demoníaca como justificação e a nulidade que é como entretenimento.
Jaume Balagueró continua como produtor executivo, mas o guião e a realização ficaram a cargo de Paco Plaza, co- dos anteriores. No filme original, mencionava-se numa enzima, que estaria por trás da possessão da niña Medeiros, algo contagioso e que se propagava como o vírus da gripe. Já aí ficava por entender como é que o Vaticano optara por manter uma possível vítima de possessão demoníaca num velho apartamento do centro de Madrid, com análises laboratoriais a serem conduzidas com provetas sujas e relatórios de progresso registados num gravador de bobinas com quarenta anos mas, enfim, piscava o olho a Evil Dead e era graficamente adequado ao ambiente criado.
[Rec 2] (2009) reaproveitava o mesmo evento pela perspectiva de novas câmaras, mas [Rec 3] deixa completamente o molde. A acreditarmos que o tio veterinário, mordido por um paciente, será o portador do vírus, fica por explicar a presença policial antes mesmo de o contágio começar. Este filme permite apenas a conclusão de que o vídeo de uma boda é uma experiência secante, mesmo quando dá literalmente para o torto. Nem a carinha laroca de Letícia Dolera salva a honra do convento.
Rec 3 2012

Friday, August 10, 2012

ATM – Armadilha Mortal, de David Brooks


Com medo de uma silhueta volumosa que os aguarda à saída da cabina de Multibanco de um supermercado, três colegas de trabalho barricam-se no interior, à espera da polícia ou da luz da manhã. Entretanto, os ânimos exaltam-se e a violência, mas não a inteligência, escala.
O subgénero de terror dos maníacos assassinos tem-nos para todos os gostos, sendo o mais comum aquele que esconde as suas feições por trás de uma máscara ou de um gorro, ocultando as feições para assustar pela sua mera presença estática. Uns gostam de atacar em datas festivas (Halloween, Sexta Feira 13 e o Natal são as mais escolhidas), outros só se preocupam com o cenário. ATM é apenas frustrante para quem tivesse expectativas e, desde o título, o filme não as cria nem desenvolve. Um trabalho tarefeiro na escrita, realização e representação.
Antes de M. Night Shyamalan trancar gente num elevador com o Diabo a apertar a bexiga (Devil, 2010), espaços fechados em lugares desertos já eram poiso cativo para o medo. Em 1993, John Carpenter, que revolucionou o género e introduziu Michael Myers ao imaginário aterrador (1978), e Tobe Hooper (Massacre no Texas, 1974) juntaram três curtas-metragens numa cassete de vídeo, para consumo caseiro, sob o título Body Bags. O primeiro segmento passa-se numa estação de serviço perdida na América profunda, onde uma empregada nocturna tem de lidar com notícias de um assassino em série pelo rádio e um indivíduo presumivelmente mal intencionado a cirandar o estabelecimento. Recomenda-se vivamente uma consulta a este filme obscuro, mas de referência a quem quiser muito melhor do que ATM.
ATM 2012

The Tall Man, de Pascal Laugier


Depois do controverso e impressionante Martyrs (2008), Pascal Laugier anula-se completamente, com uma história desuspense de quinta categoria, passada numa terreola norte-americana perdida no pó, onde um dito Homem Alto rapta crianças às colheradas, sem que ninguém tenha pistas em relação à sua identidade ou ao paradeiro das vítimas. A finalidade do guião, também de Laugier, é simplesmente o de estabelecer um cenário e, a meio, trocar as voltas ao espectador, mudando inesperadamente de direcção, e pondo a narradora a explicar tudo no final.
Sabe a muito pouco. A reviravolta é inesperada, concede-se, mas todo o filme assenta exclusivamente nesse ponto de viragem, sem nada de interesse antes ou depois. Uma pitada de lenda urbana embrutecedora e bocejante, servida por uma apagada Jessica Biel, muito longe daquela que a Esquire elegeu como a mais bela caçadora de vampiros em 2005. E nem vale referir que a jovem saltou para o sucesso precisamente com um filme de terror, o remake deMassacre no Texas (2003), onde realmente se podia ver o filme só por ela. Se ao menos Laugier se tivesse deliciado mais com a construção narrativa, em vez de empurrá-la para o twist e daí varrê-la para baixo do tapete…
Ainda ficam por troçar os seguintes erros de palmatória: a heroína esconde-se no assento de trás do carro-patrulha do sheriff e mais tarde (ao fim de uma viagem) sai sorrateiramente… deve ser o único carro-patrulha da História com portas de trás que abrem por dentro. Muito pior do que isso, depois de a carrinha onde seguia ter embatido violentamente numa árvore e tombado, ela, que durante os últimos minutos do trajecto tivera um cão feroz a morder-lhe a canela, aventura-se no bosque sem coxear e, quando analisa o tornozelo, as marcas das dentadas são superficiais, apesar do grande volume do canídeo. Concluindo, sensações Phantasm e Jeepers Creepers são mera coincidência.
 
Tall Man 2012

Stash House, de Eduardo Rodriguez



Mistura de Sala de Pânico (2002) e Sozinho em Casa (1995), Stash House junta um has been a um never was. Dolph Lundgren dispensa apresentações, claro, o monólito russo de Rocky IV (1984) tem décadas de exposição ao celulóide e mantém a expressão cinzelada que sempre o caracterizou, mas é inegável que a idade não perdoa e que há esforço envolvido na arte de puxar ou empurrar alguém. Quanto a Sean Faris, as suas semelhanças físicas a Tom Cruise fizeram crer, a início, que estaria a tomar balanço para altos voos e Never Back Down (2008) apontava nessa direcção, mas desde aí as perspectivas, em vez de animadoras, são desoladoras, com Free Running (2011) a retirá-lo completamente de qualquer lista. Como o filme só tem quatro actores, faz-se o favor de referir os que faltam: Briana Evigan mostrava que não sabia dançar em Step Up 2 (2008) e agora fica claro que há mais coisas que não sabe fazer; Jon Huertas, simpático detective da série Castle, é um peso pluma a tentar fazer frente a Lundgren… ou um peso pesado, porque está gordo como um texugo.
 
O argumento de um estreante e a realização de um tarefeiro não ajudam. Para além de ser o típico filme onde os personagens optam sempre pela atitude imprudente em vez da cautelosa, não podem ignorar-se situações de negligência grosseira como ninguém ouvir a deflagração de uma granada na chaminé da lareira (as paredes da casa podiam ser reforçadas, mas a chaminé era uma ligação directa ao exterior) ou um explosivo de C4 que estava desarmado aparecer activo na cena seguinte (deu-se a desactivação do C4 quando a porta foi aberta à polícia, a amiga da proprietária apareceu a seguir – sem deflagração – e quando voltam a aproximar-se da porta, o C4 está inexplicavelmente armado). Já nem menciono pormenores como um vilão que cai do telhado sem se magoar ou outro que é borrifado com detergente e nem sequer esfrega os olhos. O que não pode omitir-se é alguém que entra em casa de um casal amigo, vê um cadáver no chão e um homem armado no sofá, mas a primeira atitude é tirar o telemóvel da carteira e informar que vai chamar a polícia; ou alguém que se barricara dentro de um armário à vista materializar-se, quando convém, atrás de quem abre o dito armário, de caçadeira em punho.
 
Stash House 2012

Dark Tide, de John Stockwell


John Stockwell sobreviveu a Christine, O Carro Assassino (1983), mas fugiu da Força Aérea assim que lhe propuseram ir para a Academia Top Gun (1986). Refugiou-se na praia, filmando dentro e perto de água: Crazy / Beautiful (2001), Blue Crush (2002), Into The Blue (2005) e Turistas (2006). Halle Berry queria mostrar que estava em forma, mas o papel de afro-americana de American Pie O Reencontro (2012) já estava tomado, pelo que teve de contentar-se com uma história de tubarões em tempo de piranhas.
Uma mergulhadora que gosta de fazer o que Thomas Jane já fazia em Deep Blue Sea (1999) assiste à morte por dentada de um colega de trabalho e decide mudar de ramo, mas os passeios turísticos de visita a morsas e golfinhos não pagam as contas. O antigo companheiro regressa com uma proposta irrecusável e, previsivelmente, os tubarões voltam a comer.
Dark Tide é daqueles filmes onde os personagens não agem dentro da razoabilidade (um cliente vira a dona do barco contra o imediato, quando lhe convinha estar calado, o barco precisa de séria manutenção mas avançam, irresponsavelmente), abundam as situações, tão mal montadas, que se tornam confusas, de tão súbitas (namorados discutem, barco perde a direcção, súbita tempestade, barco vira) e ainda incoerência entre elementos dentro e fora de água (sem âncora presa, o barco anda à deriva, mas a gaiola debaixo de água não sai do sítio; a tempestade é tão intensa que vira o barco, mas quando os actores vêm à superfície, percebe-se que estão a filmar numa piscina).
Dark Tide começa bem, com belas imagens de tubarões brancos verdadeiros junto de mergulhadores, mas depois do dramatismo serôdio da protagonista que não quer voltar a aproximar-se dos peixes, o realizador aliou o piloto automático ao excessivo escurecimento da película e ninguém tira partido do que não vê nem sente. E alguém devia tirar o Óscar a Halle Berry.
Dark Tide 2012

O Despertar das Trevas, de William Brent Bell


Virgem Santíssima, se Deus existisse, não iria ele velar para que houvesse melhor cinema? Terceiro filme de William Brent Bell, que em 2006 ainda conseguiu juntar umas caras conhecidas em Stay Alive, sobre um jogo de computador que matava quem o jogava. Agora, aderiu ao formato do falso documentário para investigar um exorcismo e acabou com a equipa toda possuída. Assiste-se à baratuchice do costume: luz ambiente, ausência de enquadramento, representações desniveladas, montagem cheia de cortes e solavancos para suposto realismo. Gritos e cruzes a contento, Fernanda Andrade é brasileira para quem se interrogar, Suzan Crowley podia passar Susan Sarandon perante uma plateia de cegos, há uma contorcionista que escala paredes e nem um instante de credibilidade. Ou de medo.
The Devil Inside 2012

Friday, June 29, 2012

Piranha 3DD, de John Gulager


Feito com os dejectos de Piranha 3D (2010), chega mais uma leva de esfomeados peixes carnívoros, agora com a copa duplicada. Se o primeiro já era um duvidoso exercício de ordenha desesperada,Piranha 3DD consegue ser muito pior. Alexandre Aja estava a anos-luz de John Gulager, realizador da trilogia Feast (2005-2009).
O palco, que no original foi um típico lago de férias da Páscoa, é agora um parque aquático, mas a essência é a mesma: músculos, mamas, e um humor imberbe. Paredes-meias com a total nulidade,Piranhas 3DD não aprendeu com as falhas do primeiro e continua a agir com tanta descontracção que se esquece do factor perigo. Danielle Panabaker, a serôdia protagonista que já se safou de Jason Voorhees (Sexta Feira 13, 2009), deve ter vendido o cérebro à ciência, porque, depois de ter visto uma piranha atravessar uma placa de aço para chegar à sua vítima (no caso, uma rã) e de ter sido cercada por dezenas delas enquanto estava num pontão, não só se lança a um lago, à noite, para verificar se uma conduta está bem selada, como, em pleno ataque de piranhas às piscinas, mergulha novamente, para salvar inocentes. Talvez seja da sua copa diminuta, mas as piranhas nunca se decidem por devorá-la, chegando a fazer sprint às suas pernas, apenas para desistirem, sem justificação, do propósito.
Frustrante e insignificante, Piranha 3DD esquece-se que a Internet é um inesgotável oceano de pornografia e de que o público adolescente já não depende de fitas embrutecedoras para ver mulheres emtopless. O filme não tem suspense e os efeitos especiais continuam a privilegiar o 3D em vez do realismo. Onde está o entretenimento? Resta David Hasselhoff, a parodiar a sua persona de nadador salvador, como único factor positivo.O cameo de Gary Busey não traz nada de novo, a homenagem à cena da banheira de Pesadelo em Elm Street (1984) teria funcionado melhor se não fosse um sonho e a cena em que uma piranha sai de dentro da vagina de uma mulher e morde o pénis do parceiro, que corta o órgão genital para se livrar do peixe, é demasiado surreal e absurda (e só é explícita do lado masculino).
Piranha 3DD 2012

Twixt, de Francis Ford Coppola


Discípulo de Roger Corman nos seus anos formativos (O Terror, 1963), o cineasta Francis Ford Coppola vem, uma vez mais, assinar o seu declínio. Depois de ter aberto caminho a tiro, o maior expoente da sua carreira permanece enterrado nos anos 1970. O Padrinho(1972 e 1974) e Apocalipse Now (1979) fizeram-no sonhar com um musical que lhe arruinou o estúdio (Do Fundo do Coração, 1982), rixas entre adolescentes ainda o aguentaram na primeira metade da década de 1980 (Os Marginais e Rumble Fish, 1983), mas a partir daí foi sempre a cair, do casamento de Peggy Sue (1986) às cantorias doCapitão Eo (1986) e nem o carro de Tucker (1988) pegou. Do fundo do poço da indiferença pública, apelou a dois títulos com valor de mercado: O Padrinho (1990) e Drácula (1992). O mal das mezinhas é que têm efeito passageiro.
Em Twixt, o realizador escolheu Val Kilmer para protagonista e ofereceu duas cenas à ex-mulher do actor, Joanne Whalley, que entre 1988 e 1996 foi Joanne Whalley-Kilmer. A magia de Willow (1988) perdeu-se de tal maneira que as turras de Kilmer com o IRS, em2011, a levaram a exigir-lhe a casa como garantia do cumprimento da pensão de alimentos. Estrelaram Dinheiro Sujo (1989), mas a presença de ambos em Played (2006) é praticamente uma miragem: Kilmer entra apenas durante um minuto e não contracenam juntos. Em Twixt, separa-os uma chamada de skype: ela é apenas um rosto num computador portátil, presumivelmente até em actuação pré-gravada.
A história de Twixt surgiu a Coppola num sonho, que o realizador desenvolveu. Segundo ele, uma história de terror gótica com laivos de Poe e Hawthorne, mas os sonhos são assim, não se confundem com a realidade. Twixt é um equívoco. Horrendo, sim, mas pela incapacidade em transmitir mais do que um fait-divers ensonado, uma fantasia que mistura um escritor de quinta categoria e o quintessencial Edgar Alan Poe (muito bem composto por Ben Chaplin), que se cruzam em sonhos (lá está a inspiração), numa terreola onde um padre matou, há muitos anos, as órfãs a seu cargo e actualmente há um corpo na morgue com uma estaca no peito. Nem David Lynch seria capaz de rir-se do depauperamento de Twixtface a Twin Peaks.
Val Kilmer já foi Morrison, Elvis, Batman e O Santo, mas agora não passa de uma amostra de Brando em final de carreira. Bruce Dern também já foi magro e Elle Fanning continua na sombra da irmã Dakota. Francis Ford Coppola mostra-se preguiçoso a escrever e autista a dirigir. Os sonhos a preto e branco, com coloração específica de elementos esparsos, recordam o peixe dourado deRumble FishTwixt quer dizer Entre.
 
Twixt 2012

Tuesday, June 12, 2012

Babycall, de Pal Sletaune


Escrito e realizado pelo norueguês que se recusou a dirigir Beleza Americana (2001) por torcer o nariz ao guião de Alan Ball, chegaBabycall, depois de duas comédias negras e de um excelente thrillerpsicológico que se pode considerar, pela sua duração, uma média-metragem (Naboer – Next Door, de 2005, só tem 75 minutos de duração). Desta vez, porém, Pal Sletaune traz uma história tão confusa e insatisfatória quanto a sua protagonista.
Anna e o filho Anders, de oito anos, chegam à nova morada, nos arredores de Oslo. Sob os cuidados do serviço de menores, percebe-se que ambos foram vítimas de abuso doméstico e que, por essa razão, ela se comporta de modo neurótico e excessivamente protector. Obrigados a dormir em quartos separados, por ser considerado mais ajustado ao desenvolvimento de Anders, Anna encontra a solução: um equipamento emissor-receptor sonoro, usado para que os pais possam ouvir os bebés à distância. Este aparelho, em vez do sossego esperado, vai trazer mais perturbação, já que o seu alcance permite ouvir situações de abuso vindas de um apartamento próximo, que Anna decide investigar. O vendedor do equipamento, com quem vai falar, torna-se o seu único amigo, ao passo que um dos agentes do serviço de protecção abusa da sua posição e assedia-a. Algo no juízo de Anna também não está bem, já que um local que interpretou como um lago vem revelar-se ser um parque de estacionamento. Quanto a Anders, também faz um amigo, mas a dada altura é feita uma confusão visual entre os dois e o amigo do Anders é que parece ser o filho de Anna. E que Anna poderia ser a agressora de Anders e não o pai. Mas o último fio de lógica desfaz-se quando é dado a entender que Anders pode nem existir.
Babycall tem diversos elementos de paranóia que poderiam proporcionar um filme interessante, mas Pal Sletaune não era o homem indicado para construir o puzzle, tanto mais que o deixa incompleto, quase como uma criança que se aborreceu do jogo. Noomi Rapace, em versão loura, é uma sombra das capacidades que deixou transparecer na trilogia Millenium (2009) e já se intuíam emDaisy Diamond (2007), mas que a América também não está a saber desenvolver (uma apagada participação em Sherlock Holmes Jogo de Sombras, 2011, não auspicia nada de bom).
Babycall 2011

The Chaser, de Hong-jin Na


Quando um proxeneta conclui que as suas prostitutas podem não estar a fugir-lhe, mas a serem vítimas de um assassino em série, inicia um contra-relógio para encontrar a última que lhe enviou, antes que seja tarde demais. Para mal dos pecados dela, porém, o conceito de contra-relógio é bastante mais lento na Coreia do Sul.
The Chaser baseia-se num caso verídico ocorrido em 2005, de umserial killer que chegou a ser preso por um pequeno delito, mas libertado por a polícia não confirmar o seu registo criminal. Quando foi detido, o seu currículo apresentava vinte homicídios. Este não é um filme de digestão fácil, mais pela indefinição de conteúdos do que por ser repulsivo. Cataloga-se como thriller e tem, certamente, elementos suficientes para aguentar-se dentro do género, mas a sua exasperante construção narrativa distrai-se demasiado com a constrangedora inércia policial. Essa persistência, realista e quase documental, de extrema incompetência é enervante, e revela-se, em última análise, um pau de dois bicos. Serve o propósito de esticar a incerteza quanto à sobrevivência da vítima aprisionada, mas sucumbe à excessiva passividade e falta de ritmo.
Debilitado por este marcar passo, desperdiça as suas potencialidades, apenas residualmente cumprindo objectivos. Melodramático e implausível, o filme não casa bem a crueza dos crimes com a estupefacção causada pela grosseira inépcia policial. Além disso, o final é deixado ao vento, ficando por descortinar o destino do proxeneta e o da menina órfã.
Chugyeogja 2008