Thursday, February 14, 2019

The Conjuring 2, de James Wan

Dantes, quando se gostava muito de um filme, a regra era vê-lo e revê-lo. Agora, com remakes, prequelas e sequelas numa autêntica linha de montagem, Frankenstein tem uma noiva nova todas as noites. Mas, as mais das vezes, nem ele quer já casar com elas. Mais uma casa assombrada e uma família assustada, um velho que morreu numa cadeira de baloiço e não gosta de companhia infantil, quem é que o pode culpar de se voltar contra aquela que, não tendo ainda idade para sexo nem drogas, é, no entanto, apanhada na escola com um cigarro na mão. De resto, cumprem-se os clichés dos barulhos sem causa, dos brinquedos que se mexem sozinhos, das coisas pelos ares, dos crucifixos invertidos, da possessão com voz demoníaca e para o resto há um índice.

James Wan é um realizador e produtor sem mãos a medir. Desde que deu descanso à franchise Saw (realizou o primeiro em 2004 e produziu os seguintes até 2010), encontrou a de Insidious (2010, 2016 e 2018) e anda a espremer a de The Conjuring (2013, 2016), que já despoletou os spinoffs de Annabelle (2014 e 2017), da Freira e do Crooked Man(2018). Fora do terror, dirigiu as carecas de Diesel e Rock em Furious 7 (2016) e mergulhou em Aquaman (2018).

Se é inegável que se saiu bem em The Conjuring, nota-se o cansaço na gestão dos mesmos elementos na sequela, porque os artifícios estão esgotados e as franchises usam e abusam deles [por exemplo, o recurso ao tabuleiro de Ouija, que já tem duas franchises, Ouija (2014 e 2016) e The Ouija Experiment (2013 e 2015)]. Em The Conjuring 2, a entidade maligna desdobra-se no demónio Valak, na Freira dos olhos com icterícia e no Homem Torto, que mais parece uma variação do Homem Alto, angariador de criancinhas desde tempos imemoriais. A trama baseia-se num fenómeno mediático real de 1977, o poltergeist de Enfield, que a série The Haunting of Einfield detalhou em 2015. Mas, agora, com pipocas. Vera Farmiga e Patrick Wilson ao serviço, há que enfrentar o cepticismo com um exorcismo.

The Conjuring 2 2016

Annabelle 2 A Criação do Mal, de David F. Sandberg

Com o franchise de Insidious (2010 e Insidous 2, 2016) e de The Conjuring (2013, The Conjuring 2, 2016) a servirem de alicerces, o produtor e realizador James Wan arregaçou as mangas dos spinoffs. A boneca Annabelle foi vista numa vitrine de The Conjuring e já conta com dois filmes, The Nun e Crooked Man apareceram brevemente em The Conjuring 2 e são já nomes de cartaz para 2018 (ano para o qual se prevêem Insidous 4 e The Conjuring 3).

Annabelle: Creation é a prequela de Annabelle (2014), começa na construção da boneca e termina no início do filme anterior, mas pelo meio não passa de um adereço em madeira que não se mexe nem serve para nada porque, ao contrário de Chucky (a franchise do Boneco Diabólico conta já com seis volumes), o demónio que a usou como portal para ascender ao nosso mundo parece dispensá-la nas suas maldades, mas como está no título há que alimentar alguns clichés com a sua presença, numa vivenda vitoriana situada num planalto solitário, onde um casal decidiu brincar aos orfanatos, albergando uma freira e seis órfãs.

David F. Sandberg é o realizador do curioso Lights Out (2016), mas uma olhada ao guião de Gary Dauberman fê-lo ligar o piloto automático e instalar um botão para os violinos infernais avisarem a plateia sobre quando saltar na cadeira. Todos os personagens tomam decisões estúpidas como deambularem pelos corredores à noite, meninas sozinhas atraídas por barulhos nas sombras que devem ser investigados sem perder tempo nem acender a luz. Na maior confusão, a dada altura, tanto o demónio quanto Annabelle semeiam o pânico em locais diferentes.

Os vários encontros com a entidade maligna são barulhentos, mas só os intervenientes individuais os ouvem, continuando os restantes moradores a dormir como bebés. Uma das meninas, a recuperar de poliomielite, tem de destrancar a porta de um quarto e a da despensa na sua incursão por território proibido, mas ninguém a ouve; outra dá tiros com uma espingarda que tem uma bola presa a um cordel e recolhe a bola com uma manivela, ouve passos apressados no corredor, grita, tudo faz barulho e mais ninguém ouve. Uma cadeira de rodas ocupada é empurrada à força pelo caminho entre a casa e o celeiro, a ocupante grita e esperneia, é atirada para dentro do celeiro e a porta bate sozinha, mas as restantes órfãs, reunidas a curta distância, nada ouvem ou veem de estranho. E a que propósito é que a freira do The Conjuring 2 faz uma visita, é apenas para manter a curiosidade no seu filme a solo de 2018?

Annabelle: Creation 2017 

1922, de Zak Hilditch

Escrito e realizado pelo australiano Zak Hilditch, 1922 baseia-se num conto homónimo de Stephen King, que este ano viu abrir a cortina a quatro longas metragens baseadas em livros seus, se as cortinas de casa contarem em metade dos casos. É que, se It e A Torre Negra chegaram às salas de cinema, 1922 e Gerald's Game foram produzidos para a sala de estar, com os cumprimentos por streaming da Netflix.

Stephen King é um nome que traduz terror em todas as linhas e línguas, mas nem todas as suas histórias se reduzem a esta caracterização e 1922, publicado em 2010, é uma caminhada fatalista para um abismo previsível desde o primeiro passo que, neste caso, até começa pelo fim. Sem elementos sobrenaturais para além daqueles que a psicose explica nem reviravolta de último acto, resta à adaptação de Zak Hilditch trabalhar a atmosfera de gótico americano e isso este faz na perfeição, apresentando uma peça de época que homenageia In Cold Blood, Bonnie and Clyde e Badlands. Thomas Jane, de dentes cerrados e bronzeado carregado, tem aqui a melhor actuação da sua carreira.

1922, 2017 

Jeepers Creepers 3, de Victor Salva

Adeus, Victor Salva. Depois de três arranques apadrinhados por Francis Ford Coppola [Clownhouse (1989), Powder(1995) e Jeepers Creepers (2001)], não foram os constantes boicotes aos seus filmes que lhe arruinaram a carreira, mas os próprios filmes. Salva, pedófilo condenado por registar os abusos perpetrados a um actor de doze anos durante as gravações do filme de estreia, teve em Jeepers Creepers o seu maior, mas também último, sucesso. Se a sequela de 2003 desiludiu e os trabalhos seguintes foram muito piores [Rosewood Lane (2012) e Dark House (2014)], Jeepers Creepers 3 é o último prego no caixão da boa vontade.

Anunciado com constantes avanços e recuos desde 2003, alterações no título e mudanças de estúdio, Jeepers Creepers 3 deixou o guião original (Jeepers Creepers 3: Cathedral passava-se 23 anos depois) na gaveta e aninhou-se, por alguma razão, entre o primeiro e o segundo filme, numa espécie de 1.5, passando-se assim toda a trilogia nos mesmos 23 dias de 2000. Salva experimenta um emaranhado de ideias soltas, mal desossadas e até contraditórias, montadas de forma descoordenada e apresentando um todo de onde parecem faltar partes, como um filme pornográfico sem as cenas de sexo, com um resultado confuso e incoerente.

Assim como o segundo filme, este é mais um episódio para passar o tempo. Na versão exibida pelo canal americano Syfy, pelo menos, há dois personagens que tocam naquilo que é sugerido ser uma mão decapitada do Creeper do massacre de 23 anos antes e têm visões da origem do monstro, mas o público é mantido na ignorância sobre o seu conteúdo, o que as torna inúteis, porque nem ajudam a conhecer aquilo com que lidam nem, aparentemente, uma via para derrotá-lo. Estaria prevista uma cena esclarecedora que o financiamento tornou proibitiva? É a única conclusão lógica.

O final é anti-climático, sem lugar a um confronto entre o monstro e os sobreviventes. No início do filme, um jovem enterra a mão do Creeper, que caiu do céu depois deste capturar uma vítima em voo e, 23 anos depois de também ter caído vítima do Creeper, esse jovem revela à mãe o regresso do monstro e o lugar onde a mãe está enterrada, mas, no final, a mãe apenas devolve a mão ao local de onde a desenterrou, com um cartão em que diz que sabe o que o monstro é. E o Creeper, que tem duas mãos, limita-se a desfazer a mão velha e a berrar ao vento.

O furgão do Creeper, que no primeiro filme rivaliza com o camião de Duel (1972), é agora um adereço quase anedótico, com armadilhas embutidas que incluem duas fileiras de espigões verticais na traseira, que formam uma barreira gradeada (mas onde estão guardados os espigões quando inactivos?), outro espigão horizontal para espetar em quem tenta passar da traseira para o espaço do condutor (e que surpreende o próprio Creeper, noutra cena hilariante em que um olho deste até incha) e um arpão que é disparado pelo cano de escape. A parte exterior do furgão não só é à prova de bala, como faz ricochete das balas que lhe são disparadas, um ricochete tão especial que, independentemente do ângulo dos disparos, devolve sempre a bala na direcção do atirador. Há também umas minas redondas que saem do chassi e têm locomoção própria, podendo perseguir viaturas que se desviem delas.

Em Maio de 2016, o realizador afirmava que o terceiro filme iria responder às questões sobre a identidade, a origem e a motivação do Creeper, mas a única resposta chega na forma de um soundbite na abertura: «De 23 em 23 anos, durante 23 dias, o Creeper acorda para comer». E isso já se sabia. Também dizia que o enredo se situava no vigésimo terceiro dia de festim da Besta, mas afinal foi antecipado para quatro dias antes da narrativa de Jeepers Creepers 2. nem se percebe se o Creeper dá grande importância à mão enterrada, já que tem duas e se entretém a caçar durante dias antes de interessar-se pelo membro amputado. Em tantas vítimas do Creeper, porque é que apenas uma se torna fantasma? Que relevância tem a sobrinha do fantasma, para o Creeper a capturar sem matá-la?

No epílogo, aparece uma irreconhecível Gina Philips (17 anos envelhecem qualquer actriz) a chamar às armas através da internet, presume-se que 23 anos no futuro, ou seja, no presente. É uma espécie de Mark Hammil no final do Star Wars VII (2015) mas, com as dificuldades que a produção de Jeepers Creepers 3 teve, é duvidoso que haja um quarto. Meg Foster, aos 69 anos, continua a ter olhos azuis como água, mas a idade vingou-se-lhe no rosto seco e rugoso.

Jeepers Creepers 3 2017

Among The Living, de Alexandre Bustillo e Julien Maury

É impossível deixar de manifestar desilusão a cada filme da dupla Alexandre Bustillo e Julien Maury, tendo em conta a sua auspiciosa estreia, pois a carreira dos autores de No Interior (2007) acabou por parir apenas ratos de laboratório, daqueles nos quais se fazem experiências falhadas, nomeadamente Livide (20), este Entre Os Vivos (2014) e Leatherface (2017).

Depois da ausência em Livide, a antiga bomba sexual francesa Béatrice Dalle aparece fugazmente para dar o pontapé de partida à violência, num prólogo que quer compensar a ausência de gore até ao terceiro acto. Entretanto, é o último dia de aulas e três pequenos delinquentes distraem-se a fazer asneiras, nomeadamente pegar fogo ao celeiro de um vizinho de quem não gostam, mas decidem armar-se em heróis quando seguem um reboque até um abandonado estúdio de cinema e vêm uma mulher gritar na bagageira. Acabam por fugir ao primeiro sinal de perigo, mas é o suficiente para o homem que habita a cave ordenar à figura magra e de máscara de palhaço que vá matá-los. É aqui que encontram o panfleto sobre um gato perdido que um dos miúdos deixou cair.

Seguem-se dois segmentos em que uma criatura mal focada entra na casa de dois dos miúdos e os mata, juntamente com quem está com eles (na primeira situação, a babysitter, na segunda, o pai abusivo), assistindo-se, em ambos casos, a um curto jogo de gato e rato e o destino das vítimas não é filmado. Não se sabe como chegou o assassino ao conhecimento das respectivas moradas, já que o panfleto do gato era precisamente do terceiro miúdo e só teria, é bom de ver, o contacto dele. É na residência da derradeira vítima que tem lugar a sequência mais gráfica e onde o assassino se demora mais tempo, identificando-se com um albino alto, magro e sem pêlos, cujos genitais mal formados são o único traço anormal evidente. Apesar da ocasional violência, a cena não fica na memória, para além da noção de que o indivíduo é de carne e osso mas a narrativa fá-lo teleportar-se conforme a conveniência.

Entre Os Vivos é um slasher vulgar, tão mal urdido como o anterior Livide, parecendo martelar um conjunto de segmentos individuais para que simulem um todo sem coesão nem coerência. O prólogo e o epílogo tentam alargar a história de um menino que aos quatro anos tem a altura de seis e aos seis a de um adulto, que o pai esconde da vista através de uma narração onde diz que desaparecem para poder viver entre os vivos. E raptando mulheres… para que lhe sirvam de mãe? O resto é um episódio em que são descobertos pelos delinquentes que se tornam suas vítimas. Sem se criar empatia para com eles, tudo o resto se torna externo, indiferente, e a banalidade do vilão (quando está desfocado, parece saído de The Descent, mas focado é um mero skinhead) não convida ao deslumbre. No clímax, o assassino recebe um único tiro na cabeça, mas o miúdo que o mata declina disparar mais, nomeadamente sobre o pai, que também o atacou e à família (mãe, irmã e padrasto) e a criatura regressa para o epílogo, pelo que é, supõe-se, imortal. Num exemplo gritante de imbecilidade escrita: «ele só tem seis anos», é a única justificação dada pelo pai, inconsolável com o filho baleado nos braços. Mas, afinal, quem é esta dupla que vive à margem da sociedade e se esconde apenas porque o filho tem uma malformação congénita, raptando mulheres e matando testemunhas? É o que é, mas é pouco. Muito pouco. Mesmo que isto seja uma espécie de não confirmada origin story do lendário Tall Man.

Aux Yeux Des Vivants 2014 

Leatherface, de Alexandre Bustillo e Julien Maury

A estreia de Alexandre Bustillo e Julien Maury, com No Interior (2007) foi auspiciosa, e do impacto desse filme chegou a oferta de um remake de Hellraiser (1987), mas, como é regra dos presentes envenenados, e com um atraso de dez anos, o que se materializou foi uma prequela de Massacre no Texas (1974). Como a franchise já está mais do que espremida, esta segunda prequela (depois de Massacre no Texas: O Início, 2006) até pediu emprestado o título do terceiro tomo, Leatherface (1990).

O oitavo filme de uma série que conta com um original e três sequelas (1986 a 1994), um remake (2003), uma prequela (2006), uma sequela directa ao original em 3D (2013) e agora este emplastro que pretende, segundo o argumentista Seth Sherwood, encabeçar uma trilogia sequencial Leatherface (2017) – Massacre no Texas (1974) - Massacre no Texas 3D (2013). Das nove franchises de terror norte-americanas, é a segunda menos rentável. A sequência descendente é a seguinte: Sexta Feira 13, Pesadelo em Elm Street, Hannibal Lecter, Halloween, Saw, Gritos, Psico,Massacre no Texas e Chucky. Por muito que o primeiro filme permaneça icónico e o remake de Marcus Nispel tenha catapultado a sua mística para o novo século, não se entende o constante fascínio por repetições pedestres do fenómeno inicial.
Alexandre Bustillo e Julien Maury atingiram o mercado norte-americano com um sequência de Os ABCs da Morte 2(2014) e o seu primeiro filme foi alvo de um remake (Inside, 2016) com realização e argumento espanhóis, mas actores norte-americanos. Este remake provou ser tão mau como o resto do currículo da dupla de realizadores/ argumentistas francesa.

Assim como Tobe Hooper e Marcus Nispel, mantém-se a tradição dos cineastas que nunca saem da sombra do seu primeiro trabalho e a franchise acéfala não ganha mais do que outro slasher sem miolos, suspense ou uma intriga digna de nota. Ao descartarem a anterior prequela da sua sequência de eventos, Bustillo e Maury desperdiçam a tábua rasa que lhes é dada e, simplesmente, não trazem nada de novo. Plagiam a Rob Zombie a juventude do antagonista num hospício (do remake de Halloween, 2007) e o grupo de alienados em fuga de Os Renegados do Diabo (2005), banalizam o poderosíssimo pontapé no passeio de American History X (1999) e o alojamento dentro de um animal de grande porte de The Revenant (2015). Desvirtuam igualmente toda a premissa do original (1974) em troca de um twistque apenas satisfaz durante alguns segundos (Leatherface, afinal, não é quem se imaginava). Se Gunnar Hansen (o actor que primeiro encarnou Leatherface) pesquisou em hospitais psiquiátricos por doentes com atraso mental incapazes de dominar a mais básica alfabetização, o novo filme limita-se a dar um tiro na boca de um inteligente descendente de uma família de violentos hillbillies sem visível inclinação para o canibalismo (excluindo, eventualmente, o canibalismo indirecto de darem humanos a comer aos porcos).

Em vez de um patriarca, a família Sawyer (Saw-yer) tem agora uma matriarca, o que, por muito que Lily Taylor esteja à altura para fornecer, também não joga com a herança do original, ainda que possa contorná-la e ir dar um hi five ao Massacre 3D, onde a protagonista herdava uma casa da avó que nunca conheceu e lá dentro vinha Leatherface como primo de bónus. Stephen Dorff é o xerife que quer vingar-se da família Sawyer por lhe terem morto a filha, Vanessa Grasse é a enfermeira naïf que nunca chega a despir-se e Jessica Madsen a paciente que sim. Sam Coleman é o engodo e Sam Strike o tristemente verdadeiro, Finn Jones continua a não ter Punho de Ferro de que orgulhar-se.

P.S. Para além dos plágios acima referidos, há ainda a referir um Sawyer que ataca com um saco na cabeça próximo (na sombra não se vê bem) daquele usado como máscara pelo Jason de Sexta Feira 13 Parte 2 (1981) e que os fugitivos do hospital, a dada altura, fogem da polícia num carro patrulha e são perseguidos por veículos idênticos (Terror na Auto-Estrada, 1986).

Leatherface 2017 

Blood Harvest, de Bill Rebane

Bill Rebane é um habitante do Wisconsin nascido na Letónia, que nos anos 1970 e 1980 produziu e realizou uma dúzia de filmes de terror de muito baixo orçamento, daqueles que são tão maus que não melhoram com a idade. É o caso de Blood Harvest, sobre uma jovem que não encontra rasto dos pais quando regressa de férias, mas rapidamente se habitua a morar sozinha, não fosse o facto do vizinho do lado ainda gostar dela e do irmão dele se vestir sempre de palhaço. 

Desde o início que o filme tenta acusar o palhaço dos crimes que ocorrem, mas o facto deste nunca despir a fantasia e do assassino usar as calças e as sapatilhas do irmão dele são tão óbvios que não há peúga na cabeça que nos convença do contrário. No clímax, fica-se a saber que o mesmo homem matou os próprios pais e os da protagonista, pendurou no celeiro o namorado e a melhor amiga dela como porcos no matadouro e, rejeitado por ela, tenta matá-la também; acto que é interrompido pelo irmão que gosta de brincar com cadáveres, mas não faz mal a uma mosca, pelo menos até então. O cliché do assassino abrir os olhos no final não é esquecido. 

Blood Harvest é estrelado pela atlética e arejada Itonia Salchek (com um erro ortográfico no genérico, ficou Salocheck), que se despe com mais naturalidade do que expressa emoções, ao ponto de nunca mais ser vista no mundo do espectáculo, com nenhum dos nomes referidos. Lori Minnetti e Peter Krause também participam, ela com um nome curioso e um corpo invejável, ele por outro motivo: trata-se de um dos actores principais da série Sete Palmos de Terra. Não se lhe adivinhava grande futuro.

Vendido como fita de terror, mas mais próximo do softcore, Blood Harvest tem um enredo risível, com realização e interpretações a condizer. Sem criar ou manter uma atmosfera inquietante ou a curiosidade em relação à identidade do assassino, é apenas nota de rodapé pela presença do excêntrico Tiny Tim, um entertainer com alguma visibilidade nos anos 1960 e 1970, mas em completo declínio em 1987, a quem Howard Stern deu um segundo fôlego no início dos anos 1990 ao entrevistá-lo no seu programa de rádio, o que conduziu a uma digressão onde Tim sofreu dois ataques cardíacos, falecendo do segundo.

Blood Harvest 1987

Eles Matam, de Victor Salva

Apesar dos palhaços usarem flores de plástico (que esguicham), este foi um jardim que floriu em sangue durante a década de 1980. A chegar depois de Terror On Tour (1980), The Funhouse (1981), Blood Harvest (1987), Funland(1987), Out Of The Dark (1988) e Killer Klows From Outerspace (1988), a inócua profissão do serial killer John Wayne Gacy teve o seu maior momento quando Stephen King criou Pennywise para o seu livro de 1986, It, identificável com o actor Tim Curry desde a minissérie homónima (1990) até 2017, com a passagem de testemunho para Bill Skarsgard na primeira adaptação cinematográfica.

Clownhouse dificilmente descobriu a pólvora, mas Victor Salva tinha alguns truques na manga. O financiamento chegou directamente das mãos de Francis Ford Coppola, juiz num concurso da Sony a que Salva, com Something in the Basement (37 min, 1986), concorreu. Coppola é conhecido pela trilogia O Padrinho (1972-1794-1990), mas o seu primeiro filme foi uma baratucha fita de terror para Roger Corman (Dementia 13, 1963) e, tendo acabado de criar a Commercial Pictures, Clownhouse foi a sua primeira aposta: 25 mil dólares e o empréstimo das câmaras com que George Lucas filmou American Graffiti (1973).

As bilheteiras começaram por prometer um inesperado sucesso, mas a acusação feita pelo púbere protagonista Nathan Forrest Winters (que já fizera parte do elenco de Something in the Basement) de que o realizador os tinha filmado em práticas de oralidade arrefeceu os ânimos e aqueceu-lhe uma cela, já que o realizador se declarou culpado (e as buscas à sua casa tinham revelado mais gravações). Depois de cumprida metade da pena de três anos e apesar do contínuo apoio de Coppola (visita assídua na prisão), o regresso à carreira fez-se sob a sombra de boicotes e protestos. Foi assim com Powder (1995), Jeepers Creepers (2001), Peaceful Warrior (2006) e o muito adiado mas finalmente concluído Jeepers Creepers 3 (2017).

Clownhouse, como o nome indica e o género prenuncia, é uma história de terror onde palhaços assassinos assombram uma casa habitada por três irmãos menores, um mais impressionável do que os outros, até faz xixi na cama por causa dos pesadelos da praxe. São também três os palhaços, foragidos de um hospício local, que matam três profissionais do circo, se afeiçoam às fantasias coloridas e em passeio nocturno se cruzam com uma casa já em preparação para o Halloween, a duas semanas de distância. A mãe está fora e o pai ausente, há três miúdos para assustar e um deles até tem medo de narizes vermelhos.

Michael Becker e Thomas Richardson assinaram a banda sonora e, apesar de nenhum deles se ter distinguido (ambos se estrearam aqui e o segundo aqui desapareceu), estendem uma adequada tapeçaria sonora de desconforto e inquietação que a câmara de Victor Salva amplia com excelente aproveitamento das sombras, iluminação artificial e montagem, num jogo de prestidigitação com o espectador, que antecipa cada passo num crescendo de ansiedade, habilmente manipulado por um realizador que joga as notas certas desde o pesadelo de abertura (um simples panfleto do circo que gravita até à janela, provando que pouco pode ser muito).

Passa-se meia hora a estabelecer a premissa (a relação entre os irmãos, o medo de palhaços e a troca de identidades), outra meia a desenvolver a atmosfera e finalmente meia para correr e gritar. Para além da total ausência de gore, o filme enche apenas quatro caixões, três dos quais os palhaços originais e, quatro, uma vítima de ocasião (os restantes três, aposto que se adivinham). Dos três irmãos, o mais crescido e antipático, interpretado por Sam Rockwell (Nathan Forrest Winters e Brian Hugh, os outros irmãos, que já vinham de Something in the Basement, nunca voltaram a representar) é o único que cai vítima dos palhaços doidos, mas é mais tarde encontrado inconsciente, vivo.

Para filme de terror, deita demasiada água na fervura, mas como exercício de supense, Victor Salva demonstra conhecer todos os truques, aos trinta anos, prova de que as curtas metragens a que se dedicava desde o liceu não eram obra do acaso. Claro que, ao seguir a regra de Alfred Hitchcock de trabalhar ao máximo o factor da antecipação, retardando o desfecho das cenas até ao limite do tolerável, o mero acto de brincar ao gato e ao rato com o espectador desafia, por vezes, a lógica. Por exemplo, os antagonistas parecem não fazer o menor ruído enquanto se espalham maldosamente pela casa dos protagonistas, com sapatos de palhaço em soalho de madeira; chegam a eclipsar-se instantaneamente quando, na presença de Sam Rockwell, este se vira para eles e, numa troca de ângulos, não os vê; um deles agride Sam Rockwell através da porta de vidro que dá para o pátio da casa, mas arrasta-o para o primeiro andar, onde o esconde dentro de um armário só para criar um susto posterior; Nathan Forrest Winters esconde-se à vista, debaixo de uma mesinha de canto numa saleta, mas o vilão não o nota, inclusivamente colocando as mãos à frente do corpo como se estivesse às escuras, quando a saleta é bem iluminada; o final, muito abrupto, deixa-nos sem moral da história, isto é, não é o protagonista, que deveria enfrentar os seus medos e sair triunfante, que mata nenhum dos vilões (co-mata um deles, vá, mas não chega).

Em conclusão, Clownhouse é um bom primeiro filme. Mesmo tendo em conta o número de fitas de terror com palhaços assassinos, que o século XXI também já contribuiu com uma longa lista (mais de 25), aguenta-se pelo respeito pelos personagens, pela composição das cenas, pela construção da atmosfera inquietante e pela consciente ausência degore. Mesmo com atitudes parvas como a voltar para dentro de casa quando se sabe que está lá um assassino, compensa as falhas com os momentos mais eficientes, entre os quais não será alheio o facto de apenas mostrar a cara do líder lunático sem maquilhagem uma vez, de relance.

Clownhouse 1989 

It Comes At Night, de Trey Edward Shults

O título é enganador. Não há nada que chegue de noite senão, eventualmente, os sonhos de um dos personagens que, privado de sono reparador, confunde realidade e alucinação e é na sua palavra que se equilibra a sustentabilidade de uma casa na montanha partilhada por duas famílias durante um surto desconhecido. O preço da mentira, neste caso de duas, e a diferença entre uma mentira branca e uma, chamemos-lhe, à custa do seu emissor e respectivas consequências, negra.

Depois de Loving (2016), Joel Edgerton volta a ser cabeça de um casal inter-racial, tema que nunca é abordado nos diálogos, naquilo que poderá resumir-se como uma história de sobrevivência que, à americana, nunca poderia terminar pacificamente. É o segundo filme escrito e realizado por Trey Edward Shults, que muito foi elogiado pelo seu trabalho de estreia (Krisha, 2015) mas, desta vez, há que reprimir exageros nos louvores. A lentidão com que o enredo avança tem apenas justificação na indigência narrativa de um projecto sem muito para oferecer, passado num cenário já visto e que, em retrospectiva, se revela banal e pouco inspirador.

It Comes At Night 2017

A Múmia, de Alex Kurtzman

É um filme com Tom Cruise, por isso sabemos que não será sobre a múmia titular. E é um filme introdutório ao universo negro do estúdio Universal, a tentar capitalizar no seu arquivo de monstros antológicos, na cauda da Marvel e da DC, pelo que irá levantar um pouco o véu ao que há-de vir (A Noiva de Frankenstein, o Lobisomem, o Homem Invisível, Dr. Jeckyl & Mr Hyde e mais algumas criaturas que já nA Múmia aparecem em formol (A Criatura da Lagoa Negra e Drácula). E é mais um remake do clássico que as novas gerações associam ao remake de 1999, de Stephen Sommers, que continua a ser largamente apreciado pela sua irreverência e sensação de retorno aos tempos áureos de Indiana Jones. 

A Múmia de Tom Cruise, e este nome impõe-se, quase como se fizesse parte do título, porque a estrela mexeu todos os cordelinhos para ter mais protagonismo do que aquele que o guião aprovado lhe concedia, vindo o estúdio a reclamar posteriormente que o desprestigiante fracasso de bilheteira se deveu a interferências da estrela nos processos de montagem e marketing, resultando o filme num objecto muito diferente daquele inicialmente projectado. 

Muito simplesmente, A nova Múmia é uma fita divertida, mas longe de ser memorável. Conta agora com uma antagonista feminina (Sofia Boutella nos andrajos de quinta Múmia da sétima arte), mas esquece-se antes mesmo dos créditos finais rolarem. É o segundo filme de Alex Kurtzman (People Like Us, 2012)

The Mummy 2017 

Rupture, de Steven Shainberg

Steven Shainberg já não realizava um filme há dez anos (Fur: Um Retrato Imaginário de Diane Arbus, 2006) e o seu nome continuará a ser recordado apenas por outro com dezoito (A Secretária, 2002). Escrito pelo argumentista de Hard Candy (2005) e Devil (2010), dois filmes apenas com narrativa suficiente para uma curta-metragem, Rupture conta a história de uma mulher raptada e torturada por indivíduos que monitorizam o seu estado e murmuram frases enigmáticas, antes dela se evadir às escondidas e percorrer todo o edifício onde está cativa através das condutas de ar condicionado, sem que ninguém dê conta; mais do que isso, aparece sempre onde é conveniente para ouvir partes de conversas que ajudam a perceber o enredo. O resto é-lhe explicado depois de ser novamente capturada.

Com Noomi Rapace no principal papel, a trama parece, inicialmente, mais uma variação a testes Mk-Ultra, depois supõe-se que possa ter desenvolvido uma ponta solta da segunda metade de Martyrs (2008) e finalmente revela-se um inócuo (e anedótico) exercício em mutação genética, num ambiente médico tão pouco estirilizado que recorda Jacob's Ladder (1990). Michael Chicklis, Kerry Bishé e Peter Stormare fazem de conta que sabem o que fazem. O Ari Millen é mais conhecido pela sua participação na série Orphan Black, onde se lida com genética e vários clones da protagonista e Noomi Rapace (protagonista de Rupture) faz o papel de sete irmãs no filme Sete Irmãs (alternativamente titulado What Happened to Monday, 2017).

Rupture 2016

Sinister 2, de Ciarán Foy

Barrete enfiado até ao pescoço, a sequela de Sinister recicla os eventos do primeiro filme com uma nova família e alguma inspiração de Children of the Corn, de Stephen King. À falta de Ethan Hawke e do realizador Scott Derrickson, a sequela faz subir a leading man James Ransone, um secundário do filme original que agora tenta apanhar uma assombração mas, no seu único momento de afirmação, apanha é uma surra. Ciarán Foy é um realizador incapaz de articular o menor suspense ou terror, pelo que se assiste a esta construção mal urdida como uma paródia inepta ao género e em total descrédito se questionam todas as acções dos maus sem que seja possível concentrar-se no que quer que seja.

Como é que as crianças aparecem nos filmes que rodam? Como é que uma criança franzina é capaz de montar três cruzes enormes, levá-las para o campo, transportar os pais para lá, enterrar a base das cruzes no solo e erguer os pais para crucificá-los? Quando é que teve tempo para isso? Porque é que Bughuul, o papão, nunca intervém, ficando apenas nas trevas a olhar? O líder das crianças mortas é tagarela, mas não contribui com uma linha para o esclarecimento de nenhum ponto chave da mitologia que continua por delinear. Há uma figura maligna que nunca faz maldades e que tem crianças a seu cargo, que no primeiro filme não falam mas agora não fazem outra coisa. Gravaram filmes snuff que mostram com orgulho, foi o seu pagamento para entrarem para aquela família medonha, mas não agem, apenas instigam os vivos à acção. Um miúdo a quem é retirada a máquina de filmar durante um crime deixa de querer matar os pais, desconcentrado. Se a regra, clara no primeiro filme, era assustar os moradores até estes abandonarem a casa e só então matá-los, de que interessa ter uma dona da casa que não sabe da existência dos maus e os filhos, em vez de se assustarem, querem fazer parte do grupo?

Sinister 2 2015 

The Nightbreed: Director's Cut, de Clive Barker


Há filmes que não melhoram com a idade e textos que começam assim nunca acabam bem. Infelizmente, tal como Tobe Hooper só teve fôlego para uma obra-prima (Texas Chainsaw Massacre, 1974), Clive Barker esgotou o seu talento de cineasta com Hellraiser (1987). Hellraiser II (1988) teve luz verde ainda o original estava em pós-produção e Barker, escritor publicado e realizador de Hellraiser (baseado no seu livro A Hellbound Heart) traçou-lhe as directrizes, mas ao leme ia outro realizador e rapidamente outro argumentista, pois a visão de Barker escolhia Julia (a personagem feminina que, corrompida pelo desejo, atraía vítimas para que o seu amante ressuscitasse, a ressuscitar ela própria em Hellraiser II) como mascote da franchise e, desde a estreia de Hellraiser, Pinhead provou ser mais popular.

Por essa ocasião, já Clive Barker publicara Cabal: The Nightbreed (1988) e adaptara o texto ao grande ecrã. Era a história de um choque entre duas culturas antagónicas dentro do género de terror: o slasher, que na década de setenta e oitenta tinha esfaqueado o seu caminho rumo ao pódio dos anti-heróis (com os porta-estandarte Michael, Jason e Freddy) e o clássico monstro mitológico, entretanto relegado para segundo plano. Mas, de boas intenções está o Inferno cheio e o antecipado Nightbreed (1990) defraudou até as expectativas mais reservadas, desiludindo todos quantos tiveram olhos para distinguir realidade de esperança: o filme não era uma transposição fiel do livro, do guião inicial nem da banda desenhada publicada para alimentar uma procura que nunca chegou. Era uma coisa diferente, grotesca, mal urdida e encaixada à pressa, uma modesta encenação paroquial que trocou o Conto da Natividade pelo de Cabal, incapaz de interpretar as palavras ou entender as motivações, caricaturas sem coração por baixo as próteses e da maquilhagem, cenários medíocres e pinturas matte que não criam a ilusão, facas feitas de plástico, criações em vergonhoso stopmotion e outras marionetas desmotivantes. 

Clive Barker convidara Bob Keen para trazer as criaturas à vida, Ralph McQuarrie para pintar o que não podia ser recriado e Danny Elfman para compor o que só podia ser ouvido. Com um contrato para três filmes, sonhava com uma trilogia e o orçamento de onze milhões de dólares serviu para ocupar três armazéns da Pinewood Studios. A rodagem terminou no segundo trimestre de 1989 e a estreia estava agendada para o verão desse ano, mas a história de amor entre uma mulher e o seu namorado morto e os monstros que viviam por baixo do cemitério serem mais humanos do que os seus congéneres à superfície não correspondeu à expectativa do estúdio.

A antipatia aumentou face à confusão das audiências de teste e o alarme soou. A narrativa distanciou-se dos protagonistas e centrou-se num antagonista periférico mas próximo do slasher de pacote ambicionado para salvar o desastre, misturando os polícias da terrinha com uma multidão de linchadores anónimos que parecem surgir do nada com armamento topo de gama, que depois desbaratam ou não chegam a usar. Foram feitas novas filmagens e substituiu-se o editor de montagem por um que vinha de Terminator (1984), Rambo II (1985) e Comando (1986), pronto a truncar e apressar o que precisava de arejar como um vinho velho. Das iniciais duas horas e meia, a fita passou a bater nos 102 minutos.

Face ao fracasso financeiro e crítico que se seguiu à estreia, o promissor Barker perdeu a compostura e acusou as orientações do estúdio na montagem e na promoção, que lhe deturparam o conceito, a mensagem e o objectivo. Saíram bandas desenhadas e jogos para computador antes do título ser enterrado como um projecto ambicioso que não cumpriu as expectativas e foi preciso chegar a 2012 para que a curiosidade voltasse. Em 2009, tinham sido encontradas versões em VHS de 145 e 159 minutos de duração e um novo trabalho de restauro e montagem permitiu expor em festivais e convenções a visão mais fiel aos desejos do autor, que se intitulou The Cabal Cut. Em 2014, a Shout Factory reeditou o que ficou conhecido como The Nightbreed Director's Cut, ao qual foram retirados 20 minutos da edição comercial e introduzidos 40 minutos novos. Aparentemente, o resto da Cabal Cut não estava em condições de ser aceitavelmente restaurado.

O veredicto? Os actores continuam estáticos, os cenários constrangedores, os efeitos especiais modestos e o que não deixou de ser um brilhante livro de fantasia sombria permanece um filme a evitar. O que pretendia ser uma crítica ao género slasher acaba por manter duas cenas de Decker a matar que não acrescentam nada à narrativa e acabam por revelar-se ilógicas, porque o serial killer de carne e osso parece esfumar-se no ar para aparecer atrás das vítimas, impossível ter passado por elas sem se teleportar. Boone, o herói, continua a comer restos e Lori, a namorada dele, a não saber para que lado voltar-se. Fica agora claro quem são os heróis e quem os vilões e David Cronenberg, que não fazia mais do que cameos nos seus próprios filmes, parece o único actor profissional do elenco. 

No carnaval das almas, os habitantes de Midian vivem em comunidade por baixo do cemitério e a apenas meia dezena deles tem direito a falar, os outros limitam-se a viver sem privacidade em cavernas sem portas ou cortinas, mais parece um expositor num museu de cera. É um épico com qualidade Troma, onde até os duplos parecem ter medo de magoar-se, e uma banda sonora desajustada, daquele tempo em que Danny Elfman fazia tudo soar a variações de Batman(1989), como é o caso da sua outra partitura do ano, Darkman (1990), e de Army of Darkness (1992).

The Nightbreed Director's Cut 1990 (2014)

Dark House, de Victor Salva

Realizador controverso pela condenação de abuso de menor com o protagonista do seu primeiro filme (Clownhouse, 1989), Victor Salva foi, ainda assim, discípulo de Francis Ford Coppolla, que via nele potencial e lhe conseguiu trabalho com Powder (1995), mas o passado do realizador incendiou um boicote que não agradou à Disney e Salva adoptou uma política de baixo orçamento que deu frutos em 2001, quando Jeepers Creepers abriu as asas. Agora que as filmagens do terceiro Jeepers estão finalmente na lata, cabe dizer que o segundo já não registou no sismograma e Rosewood Lane (2011) e Dark House (2014) não passam de nódoas.

Dark House começa com um título desmotivante e desce a partir daí. Com guião de Salva, o filme conta a história de uma casa que foi levada por uma enxurrada para lá da nossa realidade, é encontrada pelo herói e amigos, que a procuravam sem sucesso desde que este descobriu que a casa que desenha desde miúdo foi por si habitada quando lhe aprendeu os traços e entretanto se esqueceu dela. Uma vez lá, descobre a morada habitada por um estranho indivíduo e guardada por um grupo de imitadores do Undertaker da WWE, que se locomovem de lado e com as mãos a tocarem no chão, como gorilas a imitarem caranguejos, e arrastam machados como jogadores de hockey. Para além da casa assombrada no bosque e dos maníacos com machados, a narrativa inclui originalidades como fugir em linha recta para andar aos círculos; homem e mulher que se conheceram horas antes decidirem ter sexo pouco sanitário, sem receio de serem retalhados por assassinos que já os tentaram matar antes, naquele sítio; e uma realidade paralela, onde as pessoas normais não os vêem nem eles a elas, apesar de estarem no mesmo sítio. Banda sonora de Bennett Salvay, o compositor dos filmes de Salva desde Jeepers Creepers; curiosamente, têm apelidos quase iguais. Leslie Anne Down e Tobin Bell (saga Saw) são os nomes mais sonantes do elenco. O filme é de fugir.
Dark House 2014