Thursday, February 14, 2019

The Bad Batch, de Ana Lily Amirpour

Mad Max ao ralenti, sem combustível e com um grão na asa, num romance contemplativo com o deserto e cujos convidados mais exóticos são grávidas e canibais. The Bad Batch é daquelas obras que não se explicam, limitam-se a queimar lentamente ao sol até a película encaracolar e escurecer, não há nada para ver, continuem a andar.

Filmado na Califórnia mas passado no Texas, o filme é protagonizado por Suki Waterhouse, amputada através de efeitos visuais tradicionais, que dá longas caminhadas pela areia sem encontrar respostas ou saber as perguntas, mas pronta a sobreviver sem um braço e uma perna, que metade é melhor do que nada. Com tudo no sítio menos o sotaque latino, Jason Momoa cruza-se com ela e ameaça-a de morte, está plantada a semente do amor, que uma coisa destas não se diz se não houver interesse. À falta de livros, o alfabetismo corrige-se com tatuagens e a vida na localidade chamada Conforto tem as molas à vista.

Uma Rapariga Regressa de Noite Sozinha a Casa (2014) foi a primeira longa-metragem de Ana Lily Amirpour, baseada na sua curta homónima anterior, mas desta vez a realizadora decidiu esticar logo a corda. Keanu Reeves tem três cenas, Diego Luna duas, mas Giovanni Ribisi fala mais do que o segundo e ninguém identifica o terceiro, que Ribisi não conta: Jim Carrey, tão irreconhecível que quase dá vontade de rever o filme só para admirar a sua invisibilidade, não vale a pena, é o eremita, pois, e a outra tem os membros todos, mas também não parece. O filme custou seis milhões e recuperou noventa mil.

The Bad Batch 2017 

Split, de M. Night Shyamalan

Depois de anos a tropeçar na anedota em que se tornou, M. Night Shyamalan volta finalmente a equilibrar-se. Se A Visita (2015) mostrava que sabia reembrulhar presentes (o guião era tudo menos original), Split dá-nos um twist final que obriga a reanalisar toda a película. E essa era, para quem ainda se lembra, a imagem de marca do realizador que nos fez ver dead people (O Sexto Sentido, 1999).

É que (SPOILER), por causa do epílogo, em vez de um thriller sobre um homem com múltipla personalidade que sequestra três adolescentes numa cave com o intuito de oferecê-las à nova personalidade, que nomearam de A Fera, trata-se da origin story de um vilão para o inquebrável Bruce Willis poder dizer Esta é uma missão para o Super-homem. Neste sentido, trata-se também de uma sequela de Unbreakable (2000) e não de uma simples sequela directa, mas uma espécie de 1.5, porque os filmes têm um herói em acção e este é sobre o oponente, antes do herói entrar em acção. Prepara o terreno, digamos assim, para um Unbreakable 2 (que até já foi anunciado por Shyamalan, a intitular Glass, com os principais protagonistas e antagonistas de Unbreakable e Split).

O que dizer de Split sem o epílogo? É um thriller com o poder de cativar a atenção pela sua intensidade narrativa e ponderação cinematográfica, oferece uma grande interpretação de James McAvoy (facilitada pelo facto de, das vinte e quatro personalidades do seu personagem, só ter tido de desenvolver nove) e conta com três adolescentes baixinhas e roliças, o que é contra-tipo neste género de produções, mas não demasiado – afinal, não são gordas nem feias (é o terceiro thriller de Anya-Taylor Joy em dois anos, depois de The Witch e Morgan). Mas a mais-valia é mesmo o epílogo, porque a resolução do conflito central é insatisfatória, com a personalidade da Fera a desistir da sua última vítima por esta ter cicatrizes de auto-mutilação e vê-la, nesse sentido, como imperfeita (ou igual a ele, dependendo da argumentação).

Aqui, não deixa de ser importante ter consciência de que a sobrevivente é uma vítima silenciosa de abuso desde tenra idade, revelada pela comunicação das analepses com o facto de ainda morar com o tio abusivo. As suas reacções perante o sequestrador, que inicialmente pensamos vir dos ensinamentos do pai durante as expedições de caça, são afinal um espelho das suas vivências com o tio substituto parental. 

Seja como for, cabe referir que o protagonista (ou antagonista, se a vítima que escapa lhe roubar o título) se baseia no real Billy Mulligan, homem com 24 personalidades e que, acusado de três violações, foi absolvido por não poder ser responsabilizado pelo crime praticado por 1/24 dele.

Split 2016

Rings, de F. Javier Gutiérrez

Antes de ser adaptado para o universo americano (2002), o livro de Kôji Suzuki já tinha sido adaptado pelos japoneses Hideo Nakata (Ringu, 1998) e Jôji Iida (Rasen, 1998) – ambos estreados na mesma data – e pelo sul-coreano Dong-bin Kim (Ring Virus, 1999), tinha tido uma sequela (Ringu 2, 1999) e uma prequela (Ringu 0, 2000). Nakata realizou a sequela japonesa e a americana (Ring 2, 2005) e Dark Water (2002), outra história de fantasmas do mesmo escritor, também com remake americano (Dark Water, 2005). Entretanto, o fenómeno de popularidade decresceu, apesar das tentativas de revitalização em forma de curta metragem (Ring Whispers, 2015) e pelo recurso aos novos meios digitais, nomeadamente a exibição em 3D e a comunicação do fantasma transitar do telefone para a internet (Sadako 3D, 2012, sequela de Rasen e não de Ringu).

O terror de qualquer cabeleireira está de volta e tem o mesmo título (Rings) de uma curta-metragem que foi incluída nos blu-rays de Ring e Ring 2, mas uma história diferente. Pouco promissor desde o início, coloca Samara, a rapariga-fantasma, num avião que se despenha de seguida; não se percebe se toda a gente a viu, se ela atacou indiscriminadamente ou apenas o passageiro em contagem decrescente, nem se houve falha técnica. Uma vez no chão, o enredo não melhora.

Um professor universitário teve acesso à cassete fatal e iniciou um estudo secreto que ocupa um andar da universidade com acesso condicionado. Não se sabe como é que sobreviveu à maldição ou conseguiu financiamento e autorização para o estudo, nem sequer se lhe entende a metodologia, já que utiliza alunos voluntários como cobaias, mas parece querer protegê-los, perpetuando o ciclo de transmissão. Pode mesmo perguntar-se em que assenta o dito estudo, pois salvar os voluntários previne que Samara se materialize e priva-o do seu objecto. Para além das implicações morais, há que referir a responsabilidade penal do professor e do estabelecimento de ensino, se os colegas começarem a morrer e os sobreviventes denunciarem a actividade extra-curricular.

Três argumentistas e foi isto que se conseguiu. Rings abandona toda a premissa do estudo universitário assim que a namorada de um voluntário passa a vítima, vendo a fita e sendo conduzida pelas pistas (o conteúdo é diferente das gravações anteriores, para gaudio do professor) à localidade onde Samara foi enterrada. Como o filme entra na dimensão do tédio, dá tempo para a audiência se questionar sobre Samara ter voz de criança, mas corpo de adulta; o que faz ela durante o sete dias entre o telefonema e a visita televisiva; se duas cópias do filme forem vistas simultaneamente por duas pessoas diferentes, em dois cantos opostos do mundo, divide-se Samara em duas para matar? E se a futura vítima não tiver telefone quando vê o filme ou televisão quando passa o prazo? Qual é a utilidade das imagens do vídeo, se não servem para alterar o destino de quem o viu? O estudo do professor podia ter explicado tudo isto, mas não.

O realizador F. Javier Gutiérrez tem apenas um filme no currículo (3 Dias, de 2008) e dois são mais do que suficientes para o seu talento. Por fim, e já que se questionou a ausência de um emissor de audiovisual aquando no fim do prazo (sete dias, ao minuto), como é que o cego sabia que a falta de visão iria protegê-lo?

Rings 2017 

12 Feet Deep, de Matt Eskandari

Duas irmãs fechadas numa piscina municipal, durante a noite, por baixo da capa protectora que as impede de sair da água. Sabes que vai ser uma desilusão, mas insistes. Uma é diabética e pode entrar em choque hipoglicémico a qualquer instante e a outra sofre de depressão clínica, mas a esperança é a última a morrer. Claro que há um trauma subjacente que as duas vão ter de resolver enquanto dão aos pés. E ao fim de meia hora aparece alguém.

12 Feet Deep mete demasiada água para cumprir o seu objectivo. Passa-se muito pouco para ser um thriller, o terror foi secar-se, torture porn só se largar cloro numa piscina enorme for perigo imediato e também não é um jogo de gato e rato porque o rato não sai do sítio.

A raiar uns míseros 80 minutos, o guião é tão parco de ideias que, ao final de uma hora, ainda tenta o artifício trôpego de (SPOILER!) dar as duas por salvas para, de seguida mostrar que se tratou de uma alucinação da diabética, algo que ainda se torna mais óbvio, para a inépcia de Matt Eskandari (argumentista e realizador), se tivermos em conta que uma das protagonistas é Nora-Jane Noone, que há mais de dez anos participou em A Descida (2005), um filme de verdadeiro terror de Neil Marshall, onde esse twist foi utilizado como verdadeira mais-valia.

Não menosprezando a dedicação das actrizes Alexandra Park, Nora-Jane Noone e Diane Farr, cabe salientar que Tobin Bell, o omnipresente marionetista da saga Saw, não tem mais do que cinco minutos de tempo de antena no início da película e nenhuma relevância para o desfecho, mas não deixa de ser uma boa jogada da direcção de elenco. Agora, as pontas soltas: as capas de protecção de piscina costumam ser de lona ou poliester com PVC, mas esta é estranhamente de placas de fibra de vidro aparafusadas a uma estrutura sólida, o que é pouco credível, porque a sua recolha exigiria muito espaço de armazenamento e uma força bruta (neste caso mecânica, portanto com custos de electricidade e manutenção) para movimentar (nem encontrei na internet referência a capas de fibra de vidro para piscinas – o que há, sim, são piscinas feitas de fibra de vidro). Quanto ao anel de noivado, ainda supus que serviria para cortar a placa de protecção, aquela ideia de que o diamante é capaz de cortar tudo; claro que seria uma falácia, porque a cola que segura o diamante ao anel partir-se-ia facilmente, mas o filme não é poupado em incongruências. Outra é que a diabética se queixa de glucose baixa e, por isso, diz, precisa de uma injecção de insulina, quando o oposto é verdadeiro: quando a glucose está alta, usa-se insulina, quando está baixa, açúcar. Não só a insulina agravaria o seu estado, como o glucómetro, horas antes, mostrava índices normais de glucose. Por fim, o pânico com a libertação de cloro na água; dadas as dimensões da piscina, seriam precisas muitas horas de contínua adição de cloro para este ser realmente prejudicial e as duas prisioneiras nem sequer tentam afastar-se dos bicos de emissão de cloro, nomeadamente irem para o lado oposto do tanque, antes filmando-se a cena como se estivessem presas num jacuzzi.

Por fim, mencionar que há algo em 12 Feet Deep que recorda Gerald's Game, o livro de Stephen King sobre uma mulher algemada a uma cama e que é visitada por uma figura humanóide. Em ambos casos, há mulheres que têm de libertar-se de uma prisão para fugir à morte, achando-se sozinhas durante parte do tempo. A adaptação de Gerald's Game chega ainda este ano (2017), pelas mãos de Mike Flanagan.

12 Feet Deep 2016

The Belko Experiment, de Greg McLean

Battle Royale (2000) é um filme japonês baseado num livro de 1999, sobre uma turma do nono ano de escolaridade escolhida pelo governo para os alunos se matarem uns aos outros até sobrar apenas um. Foi um sucesso de bilheteira no Japão e da crítica pelo mundo fora, teve direito a uma sequela e as cópias não tardaram. Tanto o livro de Suzanne Collins (2008) como o filme em que se baseou, Jogos de Fome (2012), foram criticados pelas semelhanças, que a autora repudiou, argumentando que nunca ouvira falar em Battle Royale. Mas talvez fosse fã de wrestling, nomeadamente de Stone Cold Steve Austin, que já tinha estrelado uma versão de Battle Royale em 2007, intitulada Os Condenados. E Os Condenados tinha o evento a ser divulgado em tempo real pela internet, assim como The Running Man, em 1987, já envolvera Arnold Schwarzenegger a ser obrigado a competir num labirinto de gladiadores rodado para a televisão, filme baseado num conto que Stephen King publicou sob o pseudónimo Richard Bachman em 1982. E convém não esquecer uma obscura fita de Albert Pyun (o realizador de Cyborg, com Van Damme) intitulada Mean Guns(1997), com Christopher Lambert e Ice-T, mas onde Michael Halsey roubava todas as cenas; aí, um kingpin enchia uma prisão vazia com os cem criminosos que o tinham traído e obrigava-os a matarem-se uns aos outros, havendo um prémio para o que sobrasse de pé.

Tudo isto nos conduz a The Belko Experiment (2016), variação do tema escrito por James Gunn, que declinou realizar por estar a passar por um divórcio e não querer dirigir cenas de violência durante meses. Assim, a missão passou para Greg McLean e as culpas foram repartidas. Que culpas? A de dar mais um derivado dos filmes mencionados e não conseguir destacar-se. Oitenta trabalhadores de uma empresa são trancados dentro do edifício e confrontados com a directiva de se matarem uns aos outros até o sol raiar. E eles lá andam como baratas tontas, a decidirem como proceder a bem ou a mal, mas sem actos de bravura ou estratégia para além da banalidade presumível. No final (spoilers), há ainda tempo para plagiar O Cubo (1997) e The Killing Room (2009). O vencedor do teste pode sair para o exterior do edifício (O Cubo) e conhecer os responsáveis (O Cubo 2), que dão algumas respostas vagas e que não adiantam nada (são testes conduzidos pelo Governo norte-americano por cientistas, compilando dados sem saber para que conclusão). O filme acaba com o anúncio do teste seguinte, ficando a saber-se que as provas vão continuar (The Killing Room).

James Gunn tem sido muito elogiado pela escrita e realização de Guardiões da Galáxia (2014) e respectiva sequela (2017), sem falar num sofrível Slither (2006) sobre uma praga de lesmas que transforma os habitantes de uma aldeia em zombies. Greg McLean tem-se dedicado ao prolongamento do sucesso do seu pequeno horror porn australiano Wolf Creek (2005), Wolf Creek 2 (2013), Wolf Creek: Minissérie (2016) e Wolf Creek 3 (anunciado). Fora disso, realizou uma medíocre fita sobre um crocodilo assassino (Rogue 2007) e outra sobre uma entidade sobrenatural má (2016). Esperava-se mais de Gunn e nada de McLean.

O elenco tem Tony Goldwyn, que começou a carreira a ser morto por Jason Voorhees (Jason Lives: Friday the 13th VI, 1986), mas ainda hoje é reconhecido por ter traído o melhor amigo em Ghost (1990); e John Gallagher Jr, o simpático hóspede de 10 Cloverfield Lane (2016), em campos opostos, mas também John C. McGinley, Michael Rooker e Gregg Henry em pequenos papeis. 

The Belko Experiment 2016 

Vida Inteligente, de Daniel Espinosa

Agora que Ridley Scott voltou a escrever Alien no título dos seus filmes, Life apressa-se para a linha de chegada como o mais recente ripoff da premissa, a reavivar os jogos de sobrevivência e estratégia entre humanos e ameaças biológicas extraterrestres em espaços claustrofóbicos, apostadas em eliminar, um a um, todos os bípedes ao seu alcance e, porque não, os sete biliões que que habitam o planeta Terra, se a nave inclinar nessa direcção.

Life é um thriller competente, que sabe gerir o suspense e utilizar os cenários, mas nunca soa suficientemente original. Escrito e produzido por Rhett Reese e Paul Wernick, dupla que também partilhou as folhas de Word e Xcell em Zombieland (2009), G.I. Joe: Retaliation (2013) e Deadpool (2016). A realização está a cargo de Daniel Espinosa, o sueco que desiludiu com Safe House (2012) e Child 44 (2015), o primeiro dos quais com Ryan Reynolds, presente em Life ao lado de Jake Gyllenhall e Rebecca Ferguson, aqui numa missão verdadeiramente impossível.

A criatura do espaço (Marte) é um molusco, o que faz dela um curioso cruzamento entre o Alien (1979) e The Thing(1982), por um lado, e Leviathan (1989), Deep Star Six (1989) e Deep Rising (1998), filmes onde a ameaça vinha da profundidade dos oceanos.

Life 2017 

Ouija A Origem do Mal, de Mike Flanagan

Filme realizado por Jeckill e Hyde, começa como um drama sóbrio e discreto (com um óbvio elemento sobrenatural), para mais tarde subverter o esquema e atirar o barro todo à parede, com as personagens agarradas; uma delas até fica colada à parede como o Homem-Aranha ou ao tecto como um vampiro. Há também um padre racional, o que é uma novidade bem vinda, ter conhecido o E.T. em criança e um casamento antes do hábito foram, naturalmente, boas influências (refiro-me, claro, ao actor Henry Thomas). De resto, temos a eterna casa assombrada, com uma das almas penadas a aproveitar a aquisição de um tabuleiro de Ouija (jogo da Hasbro através do qual, supostamente, pode falar-se com os mortos) como portal para o seu regresso ao mundo dos vivos. 

O problema desta prequela de Ouija – O Jogo dos Espíritos (2014) é que não mete medo, eventualmente porque 40 minutos de fita (digital, com feitos para imitar celulóide filmado em 1971) ficaram no chão da sala de montagem, com personagens eliminadas e cenas truncadas. O que sobra é mais do mesmo. Depois do ímpeto obtido por Oculus (2013), em que desenvolveu a sua curta homónima, Mike Flanagan (realizador, argumentista e editor) arregaçou as mangas e em 2016 estreou três filmes: Hush, Before You Wake e Ouija. Lulu Wilson é o melhor de Ouija. A menina sabe abrir a boca. 

Ouija The Origin of Evil 2016

Alien Covenant, de Ridley Scott

É uma verdade tão inatacável para Terminator como para Alien, a veneração terminou no segundo. Ridley Scott, sem um blockbuster desde Gladiador (2000), voltou à franchise para despoletar e desenvolver uma série de prequelas, que o que anda para a frente, mais cedo ou mais tarde, anda para trás. E esta é uma saga que já não sabe para que lado vai.

Se o projecto reatado com Prometeus pretendia incidir na origem do space jockey de Alien (1979), a parca adesão ao filme conduziu à eliminação sumária da avançada raça dos engenheiros e Covenant volta à mitologia do modernoPrometeus de Mary Shelley, com David a fazer de Frankenstein, tanto o cientista como o monstro (um fenómeno presente em quase toda a ficção científica, conhecido como tecnofobia, segundo o qual os humanos desconfiam da autonomia das máquinas).

Da mesma maneira que Hugh Jackman se apoderou dos X-Men, Michael Fassbender tornou-se uma presença tão desproporcional em Alien que ter tido a cabeça arrancada em Prometeus se resolve com cuspo e fita-cola, desconsiderando que a única sobrevivente humana era uma arqueóloga sem conhecimentos de robótica (numa curta metragem concebida como tie in, o assunto é resolvido em segundos, com Shaw a reparar David e a pôr a nave dos engenheiros a funcionar por magia, quem carrega nos botões todos há-de eventualmente acertar no correcto). A forma como foram exterminados os engenheiros é igualmente simplista, bastou imitar os duches nazis, nem perdeu tempo a apresentar-se.

A pergunta que se impõe, claro, é geopolítica: uma raça tão avançada ocupa apenas uma cidade dentro de um único planeta? Deve ser a mesma estratégia de contenção do universo Super-herói: Batman fica em Gotham, Superman em Metrópolis, Arrow em Sterling City; a Marvel tem artistas ainda mais limitados: Demolidor em Hell's Kitchen e Luke Cage em Harlem, meros bairros dentro da cidade de Nova Iorque. É verdadeiramente estranho que, num período de dez anos, não tenham aparecido mais engenheiros, nomeadamente familiares de visita ou trabalhadores interplanetários em serviço ou reabastecimento. E, tendo em conta todos os mecanismos de segurança existentes nos aeroportos do planeta Terra do século XXI, admira que um povo tão avançado tenha descurado esse pormenor. Enfim, é bem feito, que mais se pode dizer.

O início poderia ser o setup para uma aventura do Predador. Em vez deste atacar na selva terrestre, eram os humanos a invadir o seu planeta e cair na boca do lobo. Mas este não é esse filme, ainda que pareça tão exploitation como se fosse. Basicamente, Covenant mistura a premissa de Passageiros (2016) – também ocorre durante uma interrupção na criostase de uma viagem interplanetária de colonização – com a de Alien (1979) e junta-lhe personagens que, não alertados para todas as condutas que não devem ser tomadas num filme de terror, cometem os pecados todos. É caso para dizer: ainda bem que não será Ridley Scott a realizar a sequela de Blade Runner (2017).

O enredo funciona à custa de coincidências, sem nunca se preocupar com contingências. Os tripulantes da Covenant são acordados do seu hipersono para repararem a nave, danificada por uma imprevisível explosão electromagnética, e escutam uma transmissão que só chega ao capacete de um dos astronautas que se encontram no exterior, mas não aos instrumentos da nave, que deveriam ser mais sensíveis e precisos. Esse sinal condu-los a um planeta que a aeronáutica terrestre não detectou, apesar de estar a enviar a missão para um planeta sinalizado a sete anos de distância (ou seja, num território que deveria estar mapeado). A equipa decide investigar o planeta com fardamenta comprada na Decathlon, em vez de protectores trajes da NASA, assim permeáveis a factores respiratórios hostis. Em vez de aterrarem na cidadela dos engenheiros, de onde é emitido o sinal que os orientou, fazem-no a quilómetros de distância, sem terem sequer sobrevoado o objectivo. Quando dois tripulantes manifestam mau estar, dá-se o pânico; quando se enviam 2000 colonos para o espaço, a tripulação não inclui um serviço de escolta, profissionais de combate, ninguém que não quebre sob pressão ou ataque? Aparentemente, não. David, sozinho no planeta, recebe os sobreviventes numa espécie de caverna sem condições, porque os engenheiros eram avançados, mas não eram arquitectos. Como não há tempo a perder, David mostra a Walter (o sintético que vinha a bordo da Covenant e é a cara chapada de David, cujo nome completo, para quem já não se recorde, era David 8 em Prometeus, prova de que não é um ser único, já havia 7 antes dele) as carcaças das suas experiências com o mutagénio alien. Tendo provocado o genocídio dos engenheiros à chegada ao planeta, desconhece-se em quem terá ele, para além da arqueóloga, experimentado. O piloto da Covenant, tendo recebido uma mensagem de socorro da esposa em terra, decide ir buscá-la na nave-mãe, porque aparentemente só há um shuttle e já foi usado pelos outros. É uma missão de colonização de um planeta novo, a anos-luz de distância, mas não têm mais do que um shuttle. Até o Titanic tinha vinte barcos salva-vidas. Enfim, contra todos os protocolos e regras de segurança, a nave parte para o planeta, apenas soltando uma embarcação mais pequena já na atmosfera. Graças a um facehugger de boas noites, há um novo alien à solta na Covenant, como em 1978 havia um na Nostromo e é preciso expulsá-lo por um exaustor; só falta o gato. Há dois ciborgues com a mesma cara, um é bom e o outro é mau, os dois lutam e só um sobrevive. Se for o mau a fazer-se passar pelo bom, teve de, em tempo recorde, derrotá-lo, reparar o modulador de voz que ficou danificado durante a luta, despir-se, despi-lo, vestir a roupa dele, cortar e tingir o cabelo e ainda derreter uma mão com ácido. E, não se sabe como, obter de Walter os seus códigos pessoais de acesso ao comutador-mãe da Covenant. É o mau, claro, que nas horas vagas é o Flash. E tem 2000 colonos em hibernação com quem brincar ao Dr. Moreau até ao próximo filme.

Em referência aos colonos, porque são também os tripulantes da Covenant casais? Para terem filhos, naturalmente, mas as relações não são necessariamente para a vida inteira, as pessoas desentendem-se, nem todas as relações dão frutos. Mais eficaz seria, como em Passageiros (2016), que o mérito e a competência determinassem a selecção dos profissionais e as pessoas, uma vez no colonato, encarregar-se-iam da sua vida social, sentimental e sexual, como acontece na Terra. O pré-requisito conjugal parece inapto, como se comprova. Ninguém age racionalmente quando os seus entes queridos estão em perigo.

De entre todas as desilusões a nível narrativo, David afirma a perfeição das suas criações. Mas, para um ser que valoriza a arte, qual o atributo das suas máquinas de matar, quadrúpedes sem capacidade comunicativa nem aparente inteligência, num planeta irradicado de ameaças? Nesse mesmo prisma, o que terá motivado a contratação do highprofile James Franco num cameo de segundos, ou as de Danny McBride e de Jussie Smollett como pilotos da Covenant, o primeiro esgotado como malcontente de comédias brejeiras de Seth Roger & James Franco e o segundo abertamente gay na soap opera Empire e no filme The Skinny (2012), o primeiro sem qualidades para integrar um filme desta envergadura, o segundo sem papel para mostrar quaisquer qualidades, mas com uma cena de duche entus(i)asmado com a companheira de viagem. Dos restantes, o veterano Billy Crudup aparece despido de autoridade e Katherine Waterston de carisma. Se o seu personagem de mulher que ascende à posição de oficial superior no decorrer do filme e expulsa da nave o alien de serviço no clímax pretendia ser uma homenagem à Ripley de Sigourney Weaver, revelou-se apenas mais uma nódoa numa toalha bem gasta.

Enfim, lamenta-se a tolerância dos fãs para comerem tudo o que se lhes coloca à frente, desde que embrulhado com um nome familiar. Alien Covenant é um digno sucessor de Prometeus, no sentido em que nenhum faz jus ao hype. Covenant não é inteligente, interessante nem emocionante. Não há suspense, não há horror, não há efeitos especiais memoráveis. É mais do mesmo, sendo isso muito pouco. Do outro lado de espectro, o guitarrista australiano de blues Jed Kurzel compõe pela quarta vez consecutiva para um filme com Michael Fassbender (depois de Slow West, MacBeth e Assassin's Creed). Apesar de se apoiar bastante na partitura de Jerry Goldsmith para o Alien original, não desmerece.
Alien: Covenant 2017

Foge, de Jordan Peele

Assim como o reboot de Ghostbusters (2016) não tem a ver com feminismo por trocar o sexo aos protagonistas, também Get Out (2017) não versa sobre racismo apenas por ter um namorado negro apresentado aos pais abastados de uma branca sulista. Esse filme chamou-se Adivinhe Quem Vem Para Jantar (1967).

Aparentemente, a Academia embaraçou-se tanto com a acusação de branqueamento da cerimónia dos Oscares de 2016 que a peneira passou a reter muito mais do que antes. Não só nomeou três filmes com protagonistas negros para distribuir prémios (Moonlight, Vedações e Elementos Secretos), como Hollywood decidiu louvar o filme de estreia de Jordan Peele, actor e cantor satírico para a MadTv. O título, Get Out, serve de aviso à navegação, só vê o resto quem quer. Mas não há óleo que estrele este ovo podre.

Get Out é um objecto híbrido, que se pretende sátira de terror, misturando Adivinhe Quem Vem Para Jantar comStepford Wives (1975 e 2004), Invasion of the Body Snatchers (1956, 1978 e 1993) e uma pitada de Body Double(1987). A questão do racismo escreve-se, em grande medida, sozinha, pois a realidade norte-americana encarrega-se de preencher as omissões, e é aqui que se entra no campo da incoerência. Ao cabo de uma hora, já há pistas suficientes para que o resto se torne tedioso e previsível, mas a falta de explicação para que os hospedeiros sejam, invariavelmente, negros é gelo demasiado fino para que não abra rachas na pintura: mesmo argumentando que os convidados do fim de semana, ansiosos por licitarem no prolongamento da própria vida através da aquisição de um jovem hospedeiro, não são racistas, dificilmente haveria muitos pretendentes à mudança de cor. Um dos comentários que se ouvem é, mesmo, aburdo: o preto está na moda.

Como sátira, falta graça a Get Out. Assim como lhe falta originalidade e a crítica social verifica-se circunstancial, interpretável e vaga. No clímax, quando o herói escapa das grilhetas (tecnicamente, correias) «apanhando algodão» (forma como tem sido explicada a sua protecção contra o hipnotismo), sorri-se à sua inventividade, apenas para, quando a surpresa se esbate, vir ao de cima a suspeita e o descrédito: conseguiria ele, imobilizado pelos pulsos e tornozelos, introduzir o algodão nos ouvidos? A menos que fosse contorcionista nas horas vagas, é muito duvidoso.

Inexplicavelmente, o filme teve imediata adesão e as suas receitas mundiais aproximam-se dos 200 milhões, o que, para um orçamento de apenas, 4,5 milhões, são excelentes notícias. Contudo, o comentário social mal amassado, a desmotivante previsibilidade, a ausência de justificação para a cor dos hospedeiros [se tem a ver com a polícia investigar menos o desaparecimento de negros do que de brancos, a teoria foi desmistificada há muito por Hard Target(1993)] e o transplante não fazer sentido científico nem para um leigo (se o cérebro do hospedeiro é substituído pelo do transplantado, como é que o hospedeiro mantém uma réstia de consciência? Se ambos cérebros coabitam o mesmo crânio, há espaço realmente para dois cérebros num único crânio?), todos estes factores desiludem. Salva-se, talvez, o desfecho não ser óbvio, ao contrário do primeiro guião, que ia por uma mais realista culpabilização do protagonista pelas mortes a que a sua fuga obrigou, em legitima defesa (e é por se ter pensado imediatamente que ele ia ser condenado por toda a matança que não funciona a racionalização de tantos brancos não se importarem em ser negros, o que é uma incoerência recorrente do filme). Já agora, porque é que havia uma caixa cheia de polaroids incriminadoras por trás de uma porta do quarto de dormir que insistia em se abrir sozinha? Ah, pois é, o enredo está cheio de facilitismos.

Get Out 2017

Resident Evil: Capítulo Final, de Paul W. S. Anderson

O plano original era filmar simultaneamente Resident Evil: Retaliação (2012) e Capítulo Final (2017), mas o financiamento retraiu-se com o risco acrescido e Milla Jovovich optou por dar à luz no interregno, o que atrasou as filmagens do sexto filme. Ever Anderson, a filha mais velha dela e de Paul W. S. Anderson (realizador e estrela), nascida em 2007, estreia-se neste filme como Alice em criança e Rainha Vermelha (o avatar gráfico do sistema de segurança da Corporação Chapéu de Chuva).

O responsável por esta aparentemente rentável saga regressa para terminá-la de forma simples, sóbria e austera, empurrando o guião para a linha de chegada com uma montagem rápida e eficiente. É uma espécie de back to basics, depois dos orgasmos de pirotecnia das entregas anteriores, fazendo tábua rasa de muitos personagens e reinventando eficazmente o passado e o presente da trama, que futuro não tem por ser o último. Eventualmente, prevê-se uma continuação televisiva.

É pena que haja erros de continuidade como um tanque ser regado de gasolina, explodir pelo interior mas não queimar nenhum dos ocupantes; ou que Alice corra no meio de milhares de zombies até a corrida ser interrompida por um adversário com quem tem um combate corpo-a-corpo, mas os zombies desapareçam misteriosamente para não os interromperem (OK, aparece um, mas e os outros milhares?); ou que seja utilizada uma turbina para retalhar cinco rebeldes ao sugá-los para as hélices, mas a turbina seja desligada assim que o primeiro é despedaçado (teoricamente, mais uns minutos e eliminava-os todos).

Capítulo Final troca a câmara lenta pela edição célere e os cenários urbanos artificiais pela decadência pós apocalíptica, numa mistura de Cyborg (1989) e Walking Dead (2010), alguns monstros e veículos agressivos. Ruby Rose fica na retina, a preparar-se para voos mais altos com Vin Diesel (xXx: O Regresso de Xander Cage, 2017) e Keanu Reeves (John Wick 2, 2017) e Milla Jovovich continua a bater em quem lhe aparece pela frente, desta vez ao lado de Ali Larter, que esteve ausente do filme anterior. Todas se vestem como mulheres normais, o que também é um grande progresso. Capítulo Final vai dividir opiniões por afastar alguns dos estereótipos dos filmes anteriores e é possivelmente o segundo melhor Resident Evil (Apocalypse leva a medalha), mas, convenhamos, continua a ser lixo derivativo. Comparando com Underworld: Guerras de Sangue (2017), a outra saga com uma heroína feroz e fã de indumentárias de vinil justo, contudo, está muito à frente.

Resident Evil: The Final Chapter 2016

Resident Evil: Retaliação, de Paul W. S. Anderson

Resident Evil: Retribution sobe de nível, mesmo que não suba o nível. Mais um jogo de consola com monstros aleatórios e caras conhecidas, armas artilhadas e dedo no gatilho, há que sobreviver até aos créditos finais. Tarefa árdua, especialmente tendo em conta que, neste filme, até a câmara lenta é em câmara lenta. Para quem esperava uma continuação da narrativa do filme anterior, assiste-se a novo reboot do programa Alice, descartando-se o que ficou para trás, com o navio Arcadia [o suposto paraíso na Terra de Resident Evil: Afterlife (2010)], destruído em segundos, durante o genérico, em rewind por razões estéticas.

Milla Jovovich continua a vestir spandex negro com muitos fechos, molas e fivelas, mas não importa que armas tenha nas mãos, é impossível não ficar hipnotizado pelas suas entradas capilares, ou seja, em vez de ter a linha de cabelo a recuar inteira, horizontalmente, o recesso é apenas dos lados, como nos homens. Sem esse problema mas a parecer cansada e magra, Sienna Guillory surge no mesmo body de lycra e push up bra que em Afterlife, mas com leggingslilases em vez de pretas. Fica melhor, mas o seu visual em Resident Evil: Apocalypse (2004), reminiscente de Lara Croft, continua a ser o mais interessante. Michelle Rodriguez trouxe a roupa de casa.

Paul W. S. Anderson escreveu todos os capítulos da saga Resident Evil, que promete fechar no sexto e próximo filme (2017), tendo realizado o primeiro e voltado a espreitar por trás da objectiva em Afterlife (Apocalypse e Extinctiontiveram Alexander e Russell Mulchay ao leme, respectivamente). Curiosamente, o seu regresso como realizador deu-se depois de ter casado com a protagonista, Milla Jovovich, em 2009. É a segunda vez que a actriz casa com um realizador depois deste a ter dirigido (o primeiro foi Luc Besson, depois de O Quinto Elemento, 1997).
Resident Evil: Retribution 2012

Operação Avalanche, de Matt Johnson

Pseudomentário sobre uma das mais comuns teorias de conspiração (a de que astronautas americanos nunca pisaram a lua em 1969, tendo Stanley Kubrik filmado uma fraudulenta viagem da Apollo 11 num estúdio pago pelo erário público norte-americano), que circulam desde que Peter Hyams realizou o popular thriller Capricorn One (1977), onde o mesmo estratagema era eleito para uma uma missão espacial a Marte em risco de fiasco. Filme-tese de Matt Johnson, Operação Avalanche arrancou algum momentum quando, exibido no Festival de Sundance, conseguiu que alguns media confundissem o guião com a rodagem e passassem a noção errada de que o filme tinha sido parcialmente filmado a NASA. Tal é claramente falso a quem assistir ao texto improvisado e à esperança de que os filtros sépia, granulado e de riscos verticais, a par de roupa, cortes de cabelo e viaturas da época passem por verdadeiros. 

De resto, há uma aborrecida falta de empenho por parte do realizador e protagonista, em constante exaltação com cada pequeno apontamento, nitidamente a dar pulinhos de contente com a sua originalidade, ao estabelecer a premissa do filme logo aos primeiros minutos. Uma completa perda de tempo e um merecido chumbo no curso de cinema. Já agora, o esquema é parente do anterior filme de Johnson, igualmente interpretado pelo próprio e pelo colega Josh Boles, sobre um documentário de dois alvos de bullying que querem vingar-se dos seus agressores ao estilo Columbine (The Dirties, 2013).

Operation Avalanche 2016

Monday, November 5, 2018

Midnight Special, de Jeff Nichols

Jeff Nichols, depois de três filmes com os pés assentes na terra e um barco em cima de uma árvore após um furacão, decidiu fazer a sua versão de ET: O Extreterrestre (1982), que misturou com Starman (1984), ambos a quererem regressar a casa, exactamente como o protagonista de Midnight Special (2016), com aspecto de criança mas óculos de mergulho em seco para confundir. Michael Shannon e Joel Edgerton protagonizam com intensidade, Kirsten Dunst continua sólida. No mesmo ano, e com mais sentimento, Nichols escreveu e realizou também Loving (2016), com Edgerton e Ruth Negga.

Concluído num orçamento de 18 milhões de dólares da Warner Bros e com direito sobre a montagem final, Jeff Nichols arrancou uma criança especial às mãos de uma seita religiosa e com ela rumou ao ponto onde as coordenadas retiradas aos seus sermões indiciavam algo importante. Não se pode dizer que o resultado corresponde às expectativas, mas o certo é que a viagem é estranha e curiosa.

Midnight Special 2016

Into The Forest, de Patricia Rozema

Drama pós apocalíptico no cimo de uma montanha, sendo que o armagedão se cinge à súbita ausência de electricidade e petróleo, dois bens essenciais sem os quais a vida, tal como a conhecemos, chegou ao fim. Uma família de três e, entretanto, de dois tenta sobreviver cercada de verde, porque a natureza é menos selvagem do que a urbe e a paisagem é mais bonita. Fica o alerta de que a polícia e o exército não funcionam sem energia e quem reconhecer o actor Michael Eklund (The Divide, 2011) sabe que vai voltar com intuitos impróprios, ou não sofresse ele do mesmo typecasting que Sean Bridgers (The Woman, 2011). Adaptado do livro de Jean Hegland pela realizadora Patricia Rozema e com Ellen Page e Evan Rachel Wood nos principais papeis. Há nudez por parte de ambas, porque quando tudo o resto falha, há que apelar ao mais básico, mas nem assim se recomenda. Uma ideia interessante, mas muito mal concebida.

Into The Forest 2015

O Primeiro Encontro, de Denis Villeneuve

Próximo do slogan “ir para fora cá dentro”, os encontros imediatos de grau não violento têm, usualmente, a finalidade de permitir, através da óptica extraterrestre, um ilusório “olhar de fora para dentro”. O visitante mais inexpressivo até à data chegou em 2001 (1968) e, desta vez, arredondou os contornos e traz polvos dentro. São quase duas horas a assistir ao processo de aprendizagem de uma nova escrita e o primeiro contacto extingue-se na concretização da máxima de que o pensamento humano está limitado às suas próprias barreiras linguísticas, algo que pode ser ultrapassado caso adopte uma nova, neste caso de caligrafia circular, abrindo-se a percepção sensorial à não linearidade do tempo e, consequentemente, à consciência do futuro com a mesma exactidão que o passado. A implicação é a de que, de algum modo, isto irá potenciar igualmente a unidade, a compreensão e a paz entre as diversas culturas. E sem banda sonora de John Williams.
Na senda de filmes como Encontros Imediatos de Terceiro Grau (1977) e Contacto (1997) – se tivesse aguardado menos de dois meses, os três filmes teriam estreado com 20 anos de diferença entre si – o alcance filosófico é o de que a harmonia pode substituir a desconfiança entre fronteiras desde que a partilha seja honesta e total. E, porque Insterstellar (2014) foi buscar buracos negros para mascarar o paradoxo da predestinação inspirado por Terminator(1984), Arrival (2016) tenta desencantar uma fonte paralela à da econometria aplicada tendencial, dispensando o tempo histórico linear e as linhas cíclicas, apostando num novo entendimento que tem tanto de falacioso que de tendencioso: é a linguagem que limita a cognição, acreditar dissipa os limites ao conhecimento como um percurso, a Terra não é redonda, mas plana, e num dia de céu azul vemos toda a extensão da nossa existência, do nascimento à morte, o melhor é não irmos ver aquele filme ao cinema porque já o vimos em streamming, daqui a três meses, e não vai melhorar.
Depois de uma enérgica ode à testosterona (Sicario, 2015), uma contemplativa melodia de progesterona. A comunicação com extraterrestres ficou por conta de Amy Adams e Jeremy Renner acompanhou-a para cumprir a quota do homem branco, que já havia um negro e um judeu no posto avançado. Denis Villeneuve trouxe-os para a sala de aula e até se perceber que a protagonista tinha visões do futuro graças ao léxico alienígena, o mistério alimenta a curiosidade, mas o surrealismo final é uma afronta à inteligência e à gnose matemática. Baseado no livro de Ted Chiang Esta É A Tua Vida, onde a oferta extraterrestre não era a revelação de uma língua unificadora, mas a distribuição por diferentes nações de equipamentos técnicos concretos que facilitariam a sobrevivência humana desde que os seus líderes aprendessem a partilhar os conhecimentos.
Arrival 2016