Monday, September 5, 2016

Curve, de Iain Softley

   
Depois de danças (Burlesque, Footloose, Rock of Ages e Grease Live) e romances (Safe Haven), chega a vez de Julianne Hough cair vítima do sádico à boleia, na mais estafada recriação possível. Assim que o loiro, largo e bem sonante passageiro passa do charme à vulgaridade, ela faz o imponderável e o filme o imperdoável. Ela guina o jipe por uma ribanceira abaixo, ele é cuspido pela janela da frente mas levanta-se sem um arranhão, ela fica com a perna presa na chapa. A partir daqui, impossibilitado o jogo de gato-e-rato por razões óbvias, a vítima é deixada à mercê dos elementos, com o psicopata a efectuar apenas visitas ocasionais.
Iain Softley, realizador serviçal (Hackers, K-Pax e Skeleton Key), filma o nada em redobrado desespero e graças a Deus pela banda sonora de Edward Shearmur. Na recta final, uma noite de temporal empurra a viatura para o rio, soltando a perna da heroína no processo, a tempo de esta poder arrastar-se pela mata nocturna durante sabe-se lá quantos quilómetros, de perna partida apoiada a um ramo tosco, e chegar a uma primeira residência, precisamente aquela onde o sádico de serviço se sacia, naquele instante, com novas presas de ocasião. A aprender a lição de Leonardo DiCaprio em The Revenant (2015), a bengala é dispensada e a perna, em vez de ter piorar, melhora. O vilão é dominado em minutos (tempo ainda para uns segundos de torture porn), para que a duração fique abaixo dos 90 minutos. Teddy Sears, mais conhecido pelos papeis betinhos nas séries Raising The Bar e Masters of Sex, tem aqui oportunidade de entreter-se com algo mais acintoso. Actualmente (2015-2016), pode ser visto como supervilão Zoom na série Flash, mas convém recordar que as filmagens de Curve decorreram no Outono de 2013. 
Curve 2015

O Que Fez O Richard, de Leonard Abrahamson

   
O título cria expectativas mesmo antes do filme começar, mas O Que Fez O Richard é apenas um leve e agridoce drama juvenil com uma morte mais ou menos acidental pelo meio. Acidental, porque não intencional, apesar de ter havido mão – neste caso, pé – humano na contenda. É tão nítida a diferença entre O Que Fez O Richard (2012) e O Quarto (2015) que convém retroceder três anos e apreciar aquele que foi o maior sucesso comercial irlandês de 2012. rapaz estabelecidamente porreiro é provocado por ciúmes e álcool a uma altercação com resultado infeliz e há que enfrentar as consequências, as quais podem ser, afinal, nulas. Pelo meio, Leonard Abrahamson realizou ainda a comédia Frank (2014).
What Richard Did 2012

Stonehearst Asylum, de Brad Anderson

   
O paradoxo da loucura é o louco achar-se são, disse Edgar Alan Poe, no curto conto do qual se baseia este caso, passado num manicómio gerido pelos pacientes. Precisava o filme de outro realizador e teria a mínima hipótese de surpreender, mas Brad Anderson, que não é estranho ao género (O Maquinista, Transiberiano, Sessão 9 e A Chamada), estava demasiado distraído. De resto, ficamos com algo que não chega a ser romance, terror ou suspense, mas uma tosca amálgama destes. Michael Caine e Ben Kingsley seriam antagonistas com o peso certo, mas o filme não lhes dá o confronto suficiente. Jim Sturgess e Kate Beckinsale tomam o centro. David Thewlis, Brendan Gleeson e Jason Flemyng cumprimentam o público.
Eliza Graves 2014

Holocausto Canibal, de Ruggero Deodato

   
Obsceno, maldito e perturbador são alguns dos adjectivos de que Holocausto Canibal foi alvo praticamente desde a estreia. A sua descrição de actos violentos foi considerada tão realista que Sergio Leone preveniu o realizador Ruggero Deodato de possíveis repercussões legais, o que viria efectivamente a ocorrer, com um processo judicial por filmar o homicídio dos actores que o obrigou a trazê-los ao tribunal para provar que estavam vivos (contratualmente, eles tinham de desaparecer por um ano, para aumentar a credibilidade do snuff). Controverso e polémico, sem dúvida, este é um filme que revolucionou a técnica da found footage e da shaky camera (apesar da steadycam – câmara-colete com contrapeso, para manter a imagem estável – existir desde 1975). É o segundo filme da trilogia canibal de Deodato (o primeiro é Ultimo Mondo Cannibale, de 1977), mas o subgénero foi iniciado por Umberto Lenzi em 1972, com Il Paese del Sesso Selvaggio).
Deodato diz que se inspirou nos vídeos de execuções das Brigadas Vermelhas e no sensacionalismo vs integridade jornalística, mas como se chega desse ponto de partida a a este ponto de chegada estica um pouco a corda. Apesar dos documentários sobre atrocidades estarem em voga com exposés do género Mundo Cão (1962), que receberam a alcunha shockumentaries (criticados, por exemplo, por Pauline Kael, que lhes acusou a apatia de não conjugarem a causa e o efeito, isto é, de se limitarem a mostrar, sem contexto histórico, imagens horríveis), é duvidoso que uma equipa de filmagens exibisse o comportamento exposto no filme dentro do filme de Holocausto Canibal, porque, ao criarem e participarem em vez de assistirem, não só estão a cometer crimes, como se colocam numa posição em que atraem a hostilidade do espectador: uma coisa é assistir a crimes anónimos e outra muito diferente quando estes são perpetrados pela própria equipa, os heróis tornam-se vilões. Mas, convém explicar.
Basicamente, a história de Holocausto Canibal centra-se na recuperação e exibição das bobinas cruas de uma expedição que desapareceu na selva amazónica e sabemos ter sido morta por uma tribo canibal. A primeira metade do filme dedica-se ao resgate, por um professor de antropologia e dois guias, na selva; a segunda, ao regresso a Nova Iorque e à descoberta do conteúdo das filmagens. E é aqui que a porca torce o rabo: o grupo eviscera uma tartaruga aquática gigante; aterroriza uma tribo de pigmeus, pontapeando e matando a tiro um leitão, queimando-lhes as casas de colmo e, de seguida, o realizador e a assistente têm sexo à vista de todos os aldeões, não se importando de serem filmados pelo colega; violam índias em gangbang e matam índios indiscriminadamente e sem provocação. Mesmo que tivessem sobrevivdo e regressado à civilização, a crueldade e sadismo demonstrados em câmara tornariam todo o projecto inviável, porque a resposta de qualquer distribuidor de cinema, canal televisivo ou da opinião pública seria, no mínimo, a indignação. Uma coisa é observar a barbárie de povos primitivos, outra é provocá-la e instrumentalizá-la. Eventualmente, Deodato aposta no exagero para fazer passar a sua mensagem, mas não é credível que uma equipa de filmagens fizesse o que esta fez, e esse absurdo contrasta com a ideia de cinema verité que pretende veicular. Se provocassem duas tribos para que se atacassem uma à outra, ainda vá; ou agissem sob o efeito de drogas ...
Quanto à opinião de que o filme é um comentário social à dicotomia entre civilização e primitivismo, cai por terra face à óbvia constatação de que não há senão hipocrisia nesta tentativa de moralismo, visto que o guião nada fornece sobre ambos. Holocausto Canibal reduz os americanos a brutos sádicos e excitados e os nativos da Colômbia a pigmeus aos saltos e a grunhirem. Concluir simplesmente que somos todos selvagens é uma justificação rasteira. A brutalidade, o racismo e o nível de crueldade ao matar, para as câmaras, seis animais (o objectivo seria preparar a mente do espectador para acreditar que o que mais tarde aconteceria entre humanos era igualmente real) demonstra quão repugnante é o projecto e o seu realizador, cujo filme anterior (filmado antes, mas estreado depois de Holocausto Canibal) é um thriller sádico pornográfico: House On The Edge of The Park (1980). Deodato é um realizador de exploitation reles e, para além da censurado, o filme foi banido em diversos países.
Independentemente da geral fraca qualidade concreta, há que reconhecer, porém, que foi percursor de um género de que o século XXI parece relutante em engavetar: o found footage. Daniel Myrick e Eduardo Sánchez passaram por grandes génios da abordagem clandestina, mas O Projecto Blair Witch (1999) não inovou nada. Não só o filme The Last Broadcast (1998) se lhe antecipou um ano, como manter os actores na ignorância sobre o guião, mandá-los esconderem-se durante um ano e apresentar a footage como verdadeira foram técnicas implementadas por Ruggero Deodato duas décadas antes da vulgarização das mesmas.
Riz Ortolani compôs uma banda sonora demasiado leve, que se evapora até nas cenas mais violentas, acompanhando violações e massacres com flores e borboletas. Não ignorando os méritos do compositor, não funciona. O título provisório foi Green Inferno, que Eli Roth aproveitou para o seu decepcionante remake/ homage (2013). As violações são tão mal simuladas que, entre nativos, os arremessos de um figurante tomam tanto lanço que tornam óbvio o fingimento. Apesar disso, a actriz Francesca Ciardi sugeriu a Carl Gabriel Yorke que tivessem sexo na mata para se desinibirem para a cena em câmara e, ao ser negada, já nem queria despir-se na cena propriamente dita (acedeu, depois de ameaçada pelo realizador em italiano). Lucia Constantini, assistente de produção, despiu-se para uma cena de ritual de infidelidade, quando não foi possível contratar uma prostituta local para o efeito (é óbvio tratar-se de uma ocidental, mesmo coberta de lama para disfarçar), uma cena de banho no rio contou com todo um bordel. Robert Kerman era um actor pornográfico (o clássico Debby Does Dallas encontrava-se no seu repertório) a tentar a sorte noutro género, mas regressou ao porno depois deste interregno frustrado. Há nus frontais masculinos e femininos. Os documentaristas são capazes de observar nativos sem serem detectados, apesar de mal escondidos; quando é preciso disparar, é cada tiro, cada índio (devem ser texanos). Foi abortada uma cena com piranhas. NSFW: uma tartaruga gigante decapitada e a casca aberta para mostrar as suas entranhas. Decapitações humanas. Apedrejamento de uma grávida e enterro do feto abortado. Várias violações, um empalamento e um desmembramento genital masculino.
Cannibal Holocaust 1980

Quarto, de Lenny Abrahamson

Para Jack, de cinco anos, o quarto onde habita com a mãe é tudo o que conhece do mundo. Por uma claraboia, vê o céu, o resto chega-lhe exclusivamente através da TV, é fantasia, não existe. Dividido em três partes, quarto-fuga-mundo, o filme capitaliza no desconhecimento do espectador face ao que o rodeia, apresentando os dias que se seguem ao quinto aniversário do protagonista conforme estes se desenrolam. Após algumas pistas soltas, a surpresa é inevitável, mas esgota-se nisso mesmo. A atitude do realizador Lenny Abrahamson é demasiado murcha face a um drama que deveria ter sido intenso, mas acaba diluído na incapacidade de exteriorizá-lo.
Ao atribuir o protagonismo ao filho, Lenny Abrahamson passa para segundo plano todo o inimaginável trauma físico e psicológico sofrido pela mãe, violada diariamente em troca da sobrevivência, que conseguiu manter-se lúcida durante sete anos de cativeiro e criar um filho inteligente e sensível em condições inumanas. Da relação de isolamento para a liberdade do espaço exterior, o filme desfoca e abandona os personagens à sua sina. O filho parece nunca ter percebido o pesadelo e a coragem da mãe e o público com ele, a ver de fora o que nunca chegou a experimentar por dentro, a receber factos sem os sentir. É por isso que a tentativa de suicídio soa a cobardia em vez do passo óbvio de alguém que se aguentou durante anos pelas unhas para não cair no abismo e é confrontada com uma realidade pouco acolhedora, onde os pais se separaram, nenhuma amiga vem visitá-la e os media esgaravatam o seu sofrimento em busca do ângulo mais sensacionalista.
Brie Larson e Jacob Tremblay, à frente do elenco, estão críveis, mas olvidáveis, Joan Allen e William H. Macy o mesmo e Sean Bridgers, que abraça o papel imoral do captor, não faz mais do que recuperar, em tom sóbrio, o que já fizera no mais graficamente agressivo The Woman (2011). A autora do argumento é Emma Donoghue, autora do livro em que a fita se baseia.
Room 2015

A Visita, de M. Night Shyamalan

O recurso ao vídeo amador é daqueles artifícios que já fazem revirar os olhos do cinéfilo à mera menção, mas M. Night Shyamalan, apesar de caído em desgraça e a rasteirar-se a cada novo projecto, sabia que a sua ideia era simplória e não tinha dinheiro para mais, pelo que dispensou o compositor James Newton Howard, utilizou actores desconhecidos e, sem alma que o diabo queira comprar, aderiu ao POV.
A historieta é daquelas que fazem bocejar à volta da fogueira, copiada de mil e uma variações desde os originais episódios de Contos do Imprevisto e de Hitchcock Apresenta, hoje só surpreendendo quem for demasiado novo ou tiver sempre chamado a uma caverna nas montanhas de lar. Um par de irmãos vai visitar os avós que nunca viu e as peculiaridades dos anciãos vão-se tornando cada vez mais inquietantes; na véspera do regresso, o manto de aparente normalidade rompe-se de vez e os petizes correm risco de vida. O resultado não augura nada de bom para o realizador/ argumentista.
The Visit 2015

Bone Tomahawk, de S. Craig Zahler

S. Craig Zahler é um escritor com gosto pela fotografia e a sorte de ter Kurt Russell entre os seus fieis. Bone Tomahawk, primeiro filme do romancista, é um equívoco, vendido sob a chancela de horror western. Começa inspirado em Rio Bravo (1959), mas engana-se no caminho e vai parar a Wrong Turn (2003).
Quando a pena e a câmara estão nas mãos do mesmo profissional, estreante ou não, há inconsistências que são imperdoáveis e esse é o caso em Bone Tomahawk. Eventualmente inseguro na sua capacidade de aglutinação, Zahler permite-se um considerável preciosismo em estabelecer a premissa e o ambiente adequado aos eventos, para então atrapalhar-se e apressar demasiado o desfecho. Admite-se a pressão de um baixo orçamento, mas não que o guião não tenha deflectido os problemas. A direcção de fotografia e o humor ingénuo de um dos coadjuvantes não são suficientes quando tudo o resto falha.
Agora, tudo o que há de errado. Dois marginais pisam solo índio, um é morto imediatamente por uma flecha, o outro é perseguido durante mais de 24 horas até ser preso numa pequena localidade, por um xerife zeloso, cujo ajudante viu enterrar bens numa cova. Porque é que os índios não mataram logo os dois, antes deixando um deles evadir-se durante tão longa distância e espaço de tempo? Na manhã seguinte, a aldeia acorda para a realidade de que a cadeia foi assaltada e três pessoas (o preso, um ajudante do xerife e a enfermeira) desapareceram sem deixar rasto. Apesar dessa parte do ataque ter sido cirúrgica, os índios deixaram para trás o cadáver de um empregado de estábulo e uma flecha suficientemente distinta para poder determinar-lhe a proveniência: uma tribo má como as cobras, as quais têm má fama por uma razão que transcende o filme. Decide-se então o resgate dos três raptados, por um grupo de … quatro pessoas. O xerife e o ajudante (dois velhos), o marido da enfermeira (apesar de ter a perna partida) e outro indivíduo que, aparentemente, gosta de matar índios. Quatro homens a cavalo, para enfrentarem uma tribo inteira? não era possível juntar os habitantes, chamar voluntários, oferecer uma recompensa? Não. Sem plano definido, os quatro põem-se a caminho, cruzam-se com dois mexicanos, os cavalos são roubados nessa noite porque ninguém ficou de vigia, continuam a pé porque são desorganizados, mas determinados. Como é que sabem que estão a ir na direcção certa? Alguém deve ter uma bússula (bem guardada, mas deve) ou excelentes qualidades de batedor. O perneta segue com atraso (vão a pé), mas acaba por revelar-se um Rambo contra índios atléticos e (pasme-se) canibais, que até cortam um homem em dois como na cena inicial de uma das sequelas de Wrong Turn. Toda a cena na gruta dos índios canibais é filmada de modo amador, os índios comportam-se como animais imbecis e cobrem-se de farinha, porque os actores deviam ser brancos a fazer de peles vermelhas, que índios a sério recusavam-se a papeis destes. Note-se que estes são os mesmos índios que conduziram um raid silencioso à aldeia dos heróis, capazes de capturar pessoas como um relâmpago, sem lhes darem oportunidade de defesa ou gritar, e agora caem como tordos.
Bone Tomahawk só pode ser visto sem cérebro. Dessa forma, é um western incomum e curioso, com um grupo de heróis dispostos a salvar uma donzela das mãos de temíveis índios, custe o que custar e sem pensar nas consequências. Caso contrário, não faz sentido nenhum. Porque haveriam os índios de tecer tão demorada perseguição ao marginal, apenas para trazê-lo de volta e comê-lo? Porque é que não o capturaram logo? Que significado tinha ele para eles, para se afastarem tanto de casa? Como explicar o comportamento do marginal, que se dirigiu ao saloon para tomar uma bebida, como se desconhecesse ser perseguido? Etc. Entretanto, fica a informação de que o filme é estrelado por Kurt Russell, Matthew Fox, Patrick Wilson e Richard Jenkins. Oportunidade perdida para todos eles e para o público, que devia ter sido melhor tratado, especialmente na recta final onde canibalismo se torna sinónimo de aborrecimento.
Bone Tomahawk 2015

O Mistério da Passagem da Morte, de Renny Harlin


Os maiores sucessos da carreira de Renny Harlin passaram-se na neve, mas The Dyatlov Pass Incident nada tem a ver com Die Hard II (1990) nem Cliffhanger (1993), tratando-se, antes, de uma espécie de Blair Witch Project (1999) na neve. Em 1959, um grupo de nove alpinistas russos morreu na neve e onze cadáveres foram encontrados pela equipa de socorro. Um grupo de estudantes de cinema norte-americano decide que o seu projecto de fim de curso será documentar o antigo mistério e lá vão eles.
Filmado no entediante e completamente passé estilo found footage, a trama é genérica, pouco cativante e desprovida de sustos. Uma viagem de estudantes anónimos ao Norte da Rússia termina com a última meia hora passada dentro de um bunker que descobriram por acaso e reencontram facilmente no dia seguinte, mesmo depois da avalanche nocturna que os limitou em número e lhes soterrou os pertences e pontos de referência. Aliens ou Yeti, Philadelphia Experiment, testes de teleporte e viagens no tempo, tudo isto é referenciado nos minutos finais, cujas explicações entram em conflito com as pegadas bípedes encontradas na neve e deixadas por criaturas quadrúpedes. A imaginação não é muita, mas pelo menos fecha o círculo, ainda que na forma de um triângulo de penrose.
Devil’s Pass / The Dyatlov Pass Incident 2013 

Friday, November 6, 2015

Contos de Halloween, organizado por Axelle Carolyn

Contos de Halloween é um produto derivado de colheita sazonal que, com mais ou menos variação, chafurda na mesma água estagnada do orçamento proporcional à ausência de ideias originais. Na urgência de contar uma história inteira em 10 minutos ou menos, os participantes metem os pés pelas mãos e, sem parecerem entender de terror nem de comédia (até aqueles que já deram provas de melhor), obrigam o espectador a uma inclemente pasmaceira criativa, plágios e homenagens de arrepiar pela falta de imaginação. No final, torna-se confuso distinguir os episódios (são dez histórias separadas, ainda que duas ou três partilhem figurantes) e que tantos tenham feito tão pouco (depois de ver o filme, é impossível adivinhar que episódio corresponde a que realizador). 
O tema musical de abertura é da autoria de Lalo Schifrin (Missão Impossível), mas ninguém diria, de tão genérico (o seu filho Ryan dirige um dos segmentos, pelo que a explicação pode estar aí). Os fãs do género contam com algumas caras conhecidas para apontar orgulhosamente e quem não for pode desistir. Os realizadores de serviço têm Neil Marshall, Lucky McKee e Darren Lynn Bousman como os mais sonantes. Mais vale optar pelo mediano Trick r'Treat (2007), onde Michael Dougherty faz malabarismo com apenas quatro narrativas sucessivas. 
Tales Of Halloween (2015) 

Inferno Canibal, de Eli Roth

Inspirado no Holocausto Canibal (1980) de Roggero Deodato, Eli Roth voltou a dedicar-se às carnes vermelhas, colocando a sua namorada peruana (a entretanto esposa Lorenza Izzo) no epicentro da selva natal, mas o inferno verde que filmou em 2013 só conseguiu distribuição em 2015, eventualmente para acompanhar a onda de Knock Knock (2015), que o realizador fez com a mesma equipa técnica, todos enturmados desde Aftershock (2012).
Um grupo de ingénuos activistas ruma ao Peru para se acorrentarem ao bulldozer de uma construtora que, aparentemente, se prepara para dizimar uma aldeia que nunca conheceu a civilização e acaba a servir de refeição à tribo que foi ajudar. Mesmo reconhecendo-se a ironia anti-ecológica e um ou outro momento mais inspirado, Eli Roth continua a ser um nome a evitar pela sua incapacidade em criar as emoções básicas de um filme de terror. Sim, há um homem desmembrado perante os nossos olhos (com algum jogo de câmara) mas, da mesma forma que os figurantes nativos acharam estar a representar uma comédia, também o cinéfilo civilizado não negará a frustração perante o resultado final. Pôr gente a gritar não chega.
The Green Inferno 2013 (2015)

Downloading Nancy, de Johan Renck

Nancy não está bem. Não é feliz. Precisa de laminar o próprio corpo para deixar a angústia sair, precisa de ser possuída com violência para que o sexo lhe dê prazer, tem necessidade de alguém que a compreenda e o marido de 15 anos ignora as suas premências e rejeita os seus avanços. A psicóloga limita-se aos lugares comuns de falta de «auto-estima» e de «sentido de si». Conhece um homem através da internet que a excita e a faz sentir-se desejada, ele é cruel e bruto como ela gosta e o que ela quer é morrer. Acordam no preço e ela compra um bilhete só de ida. Começa o filme.
Downloading Nancy tem um título curioso, a par de Decoding Annie Parker (2013), mas enganador (em Portugal, adoptou-se o adequado A Libertação de Nancy). É certo que o par sadomasoquista se conheceu através da internet, mas podia ser através de classificados do jornal e cartas de um lado para o outro, porque o que realmente interessa passa-se apenas no mundo real. Nancy desistiu de viver e aguarda o golpe de misericórdia, numa espécie de pedido de eutanásia (suicídio assistido) previsto na lei norte-americana como homicídio consentido. O guião baseia-se no caso real de Sharon Lopatka (1996), torturada e asfixiada em consequência de fantasias partilhadas online e concretizadas fatalmente.
Neste registo, trata-se de uma história perturbadora e sensível, responsabilidade que Maria Bello carrega com realismo, cruzando martírio e esperança, algo que as analepses ajudam a enfatizar. Jason Patric, como o seu carrasco, mantém a máscara de normalidade o quanto pode, o que é compreensível, pois a situação também é estranha para ele. Rufus Sewell, o marido apanhado numa casa vazia, é aquele que tem menos com o que trabalhar, limitando-se a mastigar algumas colheradas de incredulidade. Michael Nyqvist, o sueco que protagonizou a trilogia Millenium em 2009, já falava inglês em 2008. É a primeira longa-metragem de Johan Renck, sueco saído do mundo dos videoclips.
Downloading Nancy 2008

Knock Knock: Tentações Perigosas, de Eli Roth

Sedução, sadismo e dominação, atmosfera e tensão também não. O novo filme de Eli Roth é o remake de Death Game, um trash movie de 1977 sobre duas jovens psicopatas que seduzem um pai de família numa noite de chuva e o torturam no dia seguinte, com propósitos indefinidos para o público, mas eventualmente explícitos para as próprias, apesar do absurdo anticlímax com que o realizador/ argumentista confusamente se desembaraça dos metros de fita que não quis deitar para o lixo. 
Knock Knock é um entediante exercício de soft torture porn (típico de Eli Roth: Hostel 1 e 2, de 2005 e 2007), que não assusta, enoja ou entretém. Uma autêntica pastilha sem sabor, com personagens irritantes e situações trôpegas, mal exploradas e que culminam num desfecho imprevisto, mas cobarde. Para Keanu Reeves, o filme é a oportunidade de interpretar um papel nos antípodas de John Wick (2014), o mesmo acontecendo com a esposa de Roth, a chilena Lorenza Izzo, depois do que passou em The Green Inferno (2013), filmado na sua terra natal e de Ignacia Allamand (faz de esposa de Keanu), Guillermo Amoedo e Nicolás López (argumentistas e produtores), toda uma latina família feliz com diversos projectos prévios em comum.
Ao contrário de Spring Breakers (2012), onde a esposa do realizador Harmony Korine (Rachel Korine) é a única que se despe (as mais conhecidas Vanessa Hudgens, Selena Gomez e Ashley Benson ficam-se pelo biquini), aqui ambas psicopatas (Izzo e Ana de Armas, co-psicopata) têm esse assaz breve privilégio (Eli Roth casou com a menos atraente). É um trio Odemira de más representações, com um Keanu Reeves, amordaçado e aos gritos, a permitir verificar como a sua dentição inferior é desconcertantemente torta, e o resto do tempo lembra, com a ajuda de uma ineficiente cinematografia, o seu trajecto pelos desenhos animados de Richard Linklater. De resto, Knock Knock é um rol de oportunidades perdidas, de entre as quais fica por explicar porque é que ele não é uma vítima casual, já que, aparentemente, e ignorando-se a duração, era espiado pela dupla.
Knock Knock 2015

The Gallows, de Travis Cluff e Chris Lofing

Corria o ano de 1983 quando uma peça de teatro estudantil que envolvia um enforcamento foi interrompida a meio de cena pelo acidental esticanço de pernil do actor que tinha o laço ao pescoço. Este ano, na véspera da repetição da malfadada peça, três estudantes entram no liceu para escavacarem o cenário e impedirem a sua realização. Não estão sozinhos e a noite vai acabar mal. The Gallows é totalmente filmado em POV, mas o tempo da found footage passou e a câmara oscilante e a iluminação inspirada no movimento Dogma 95 já induzem ao bocejo. Ainda assim, e mesmo não justificando o visionamento, o filme lá consegue um ou outro susto melhor encenado. No todo, contudo, é mais um ninho de gritos histéricos e imagem sacudida, a impressionar apenas os mais impressionáveis.
Segundo filme que a dupla Travis Cluff e Chris Lofing escreveu e realizou, com o primeiro a fazer de operador de câmara interactivo, vulgo actor (é o nono papel da sua carreira, curtas-metragens homónimas incluídas). A lenda de Charlie Grimile é ficcional, assim como a peça de teatro de 1983 em que o aluno teria acabado enforcado, apesar da produção ter tentado baralhar os cinéfilos com alguma areia para os olhos em blogs obscuros desenvolvidos para o efeito, onde alicerçaram a base histórica e juntaram o enforcamento de três adolescentes no auditório do mesmo liceu em 2008, supostamente aqueles a braços com o fantasma. Já se fala em sequela e, algo precocemente, em adicioná-lo à galeria de monstros como Michael Myers, Jason Voorhees e Freddy Krueger. Os personagens têm os mesmos nomes próprios que os actores que os representam, eventualmente uma piscadela de olho a Blair Witch Project (1999), globalmente entendido como o precursor do subgénero. 
The Gallows 2015 

Wednesday, October 14, 2015

Cold In July, de Jim Mickle

Tão invulgar como um dia frio em Julho, Cold In July revela-se um extraordinário exercício de suspense, apanhando desprevenida a audiência e puxando-a, com inesperada brusquidão, para uma espiral de círculos infernais cada vez mais intensos, como se abocanhada por um tubarão que a submergisse e o sangue, na antecipação do pior, se lhe gelasse de terror.
Com nítidas influências de John Carpenter e de Sam Peckimpah, Jim Mickle transporta-nos pelo degradante, visceral e grotesco pesadelo suburbano, que desmonta a partir de um evento realista, acompanhando as consequências de uma anónima invasão domiciliária que termina no homicídio do assaltante e onde o lesado desconfia da identificação da vítima mortal pela polícia. Estremunhado mas cada vez mais apreensivo, reage contratando um detective mas, em vez de paz de espírito, a sua intervenção vai descobrir uma realidade paralela que exigirá de todos os envolvidos sangue frio e determinação numa solução que se pretende drástica e, acima de tudo, definitiva. Certa gente não merece viver.
Cold In July precede e bem pode ter inspirado a aclamada primeira temporada de True Detective, com o qual tem pontos tangenciais bastante concretos e facilmente identificáveis. Baseado num romance de Joe R. Lansdale, cujo talento se estende pelo conto, comics (Batman e Jona Hex), graphic novels e animação televisiva. Adaptados ao cinema, tem já Bubba-Ho Tep (2002) e Christmas With The Dead (2011), além de integrar antologias directas para vídeo. Transpôr as páginas do livro obrigou o realizador e o co-argumentista Nick Damici a sete anos de constante contorno de dificuldades narrativas e financeiras e mereceu mesmo o contributo de Sam Shepard, autor de Crónicas Americanas e actor no filme, que simplificou uma cena que esteve quase a ser eliminada pela sua complexidade técnica.
As filmagens tiveram início uma semana após desfecho da série Dexter e Michael C. Hall encabeça o elenco, de onde constam também Don Johnson e Vinessa Shaw. A banda sonora, a cargo de Jeff Grace (Meek’s Cutoff, The House of the Devil, The Innkeepers), recorda The Thing (1982) e Drive (2013), mas tem alma própria.
Tenso e violento, Cold In July revela-se uma surpresa constante, com o seu estilo retro, subversivo e, por todas as razões invocáveis, excepcional. Assim como Julho é, por natureza, um mês quente e a descida de temperatura, não só se estranha, como exige mais peças de roupa, este filme começa ameno, mas vai arrefecendo e enegrecendo a cada camada.
Cold In July 2014