Thursday, September 18, 2014

The Imposter, de Bart Layton

Se há caso a que se adequa o epíteto de que a realidade é mais estranha do que a ficção é o de um argelino de sotaque francês que, com 23 anos, em Espanha, se fez passar por um americano oito anos mais novo, desaparecido quatro anos antes, e foi acolhido pela família que interrompeu o luto, durante um período de cinco meses, antes de um detective particular descobrir, pela análise das respectivas orelhas, tratar-se de um impostor. O caso atinge proporções tão bizarras que o documentário soa a embuste e o facto de ser rodado, em grande parte, com recurso a reconstituições, ainda o torna mais confuso.
Conhecido pela Interpol (e, depois deste episódio, pelo FBI) como O Camaleão, Fréderic Bourdan narra a sua versão dos acontecimentos, no monólogo que vai conformando os eventos, ora com o seu rosto voltado para a câmara, ora através de voice over, interrompendo-se apenas para que outros intervenientes tenham a palavra, nomeadamente os membros da família de Nicholas Barclay (desaparecido de sua casa no Texas em 1994, quando tinha 13 anos), a agente do FBI que tratou da transferência, o embaixador americano em Madrid e o inconformado detective que, até hoje, procura o corpo do petiz.
A história de O Impostor é inacreditável, não só porque envolveu um adulto confundido com uma criança, mas porque a mãe e os irmãos de um menino loiro, de olhos azuis e sotaque texano acolheram um moreno de olhos castanhos, sotaque francês e aspecto mais velho, apenas porque este se identificou como tal às autoridades espanholas e justificou as mudanças visuais e de comportamento com quatro anos de cativeiro numa rede de tráfico sexual.
Mas o filme não esgota aqui o seu mistério, quando, na recta final, já a burla descoberta, lança cobro de nova suspeita, desta vez sobre a participação da família acolhedora no desaparecimento do filho, o que é igualmente plausível, porque, como dizia Sherlock Holmes, quando se elimina o impossível, o que resta, por mais improvável, é a verdade. Afinal, se não tivessem culpa no cartório, como poderiam aceitar duas pessoas tão diferentes como sendo a mesma?
O documentário de Bart Layton é eficiente na criação do ambiente de estranheza e a direcção de fotografia sabe produzir ficção, com as reconstituições a demonstrarem um cuidado com o enquadramento para a manutenção da dúvida. Nesse jogo de esconde e descobre, a certeza não se obtém no final, obrigando o cinéfilo a conduzir a sua própria investigação, incrédulo de que aquilo a que assistiu fossem, efectivamente, factos.
The Imposter 2012

John Morre No Fim, de Don Coscarelli

Aventura sobrenatural sem pés nem cabeça, John Morre No Fim é um divertido regresso de Don Coscarelli, o mítico criador da quadrologia Phantasm, dez anos depois do seu último filme (Bubba Ho-Tep, 2002). O realizador confessou que o livro lhe foi proposto automaticamente pela Amazon, quando classificou um livro de zombies que tinha acabado de ler, e simpatizou com a sinopse e o título. O filme é descontraído, brincalhão e tem efeitos especiais de qualidade muito discutível, mas há ali amor à camisola e, por vezes, é quanto basta.
Juntamente com Coscarelli, Angus Scrimm (76 anos) regressa para um cameo, ele que desde 1979 é conhecido como o Homem Alto da saga Phantasm. Entre os fenómenos mais originais, encontra-se um bigode voador e um comprimido com asas de mosca chamado molho de soja (soy sauce, no original, tem mais musicalidade).
John Dies At the End 2013

Carrie, de Kimberly Peirce

Consta que, se não fosse a esposa ir buscar o manuscrito ao lixo e enviá-lo a uma editora, o livro que lançou a carreira de Stephen King nunca teria conhecido Guttenberg. Mesmo sem reverenciar a exageradamente camp adaptação de Brian DePalma (1976), a versão de Kimberly Peirce, pese embora ter sido a realizadora do premiado Os Rapazes Não choram (1999), para além de dispensável, tem todos os traços da escola Twilight, tão ausente de sentimento ou entrega como o Psico (1998) de Gus Van Sant.
Sem o menor empenho, Kimberly Peirce, apenas com dois filmes em 14 anos (Stop-Loss, 2008), aborda Carrie como uma não apreciadora do género de terror que tem de pôr comida na mesa. A atmosfera está toda errada e a culpa começa no elenco. Carrie é uma adolescente tímida e introvertida, subjugada em casa por uma mãe religiosa e na escola pelas colegas maliciosas. É só pensar na constituição frágil de Sissi Spacek (1976) e de Angela Bettis (TV, 2002) para entender o erro de escolher a duas vezes Hit Girl (Kick Ass I e II): não só a magreza cadavérica assusta mais do que ombros largos e cintura cheia, como Chloë Grace Moretz não gosta ou não sabe mostrar-se indefesa ou intimidada. Para jovens retraídos que adquirem gradativa confiança em si próprios através do controlo dos seus poderes telequinésicos, porta-se muito melhor Dane DeHaan em Chronicle (2012), num papel plagiado à própria Carrie. Quanto à mãe, Julianne Moore esforça-se visivelmente, mas falta-lhe perfil (ao contrário de Jodie Foster, a quem o papel foi oferecido primeiro ou, por exemplo, Mia Farrow, que é assim na vida real).
O filme abre com uma mulher que sabe a relação entre sexo e concepção, mas em pleno parto acha que as dores devem ser de um possível cancro (não diagnosticado), porque, aparentemente, ao longo dos meses precedentes não teve enjoos matinais nem desejos glutões, a barriga não dilatou e o cérebro esteve em pousio. A seguir, uma rapariga ensaboa-se com prazer no duche do balneário da escola e o corpo reage com o primeiro período menstrual, algo que ela desconhecia existir, porque não tem televisão, telemóvel, Internet nem amigos e a mãe é maluca; o seu histerismo é recebido com uma chuva de tampões (o estojo de primeiros socorros parece estar cheio deles, eventualmente mais absorvente do que pensos rápidos vulgares), e com o decorrer das cenas subsequentes percebe-se estar perante um nítido one trick poney, conduzindo a história com uma pressa despudorada, como se esta não passasse de lastro para chegar ao clímax, que o tempo tornou clássico, e onde os efeitos especiais deveriam brilhar.
Como vingança por ter sido proibida de ir ao baile, a bully mor do liceu decide verter um balde de sangue de porco sobre a cabeça de Carrie, durante a coroação do rei e da rainha, de esquema montado para que esta esteja no palco. O sangue acerta no alvo, o balde acerta no par, Carrie zanga-se e os seus poderes mentais entram em ebulição, levando tudo e todos pela frente, incluindo o casal anti-suíno. O que podia correr mal, corre, incluindo um banho de sangue em CGI e um nada natural derrame sobre Carrie que no seu rosto lembra, inadvertidamente ou por inspiração súbita da maquilhadora, algo próximo do Alex da Laranja Mecânica (1971), com exagerados cílios pintados num só olho.
Ao contrário de Sissi Spacek que, no filme original, sabia que poderes psíquicos provêm da mente e, portanto, permanecia estática e concentrada enquanto os danos iam reflectindo os seus desejos, Chloë Grace Moretz confunde-se e imita o Magneto dos X Men, gesticulando grotescamente para que os objectos mudem de lugar, esquecendo-se de estar a imitar Magneto quando junta caretas orgásticas à mímica. O resultado é tão medonho que deveria ter exigido refilmagens.
Do mau, há mais. Ao contrário do livro, onde Carrie matava a mãe interrompendo-lhe o batimento cardíaco durante tempo suficiente para que os órgãos falhassem, Brian DePalma apaixonara-se pela então avantgarde barra de íman na parede a servir de faqueiro, e Spacek, a despontar a piscadela de olho a Magneto que Moretz iria desbaratar, espetava-a com tudo a que tinha direito. No caso actual, a mãe é modista, pelo que acaba espetada por um enxame de tesouras… só que as tesouras que ficam suspensas no ar, um segundo antes de crucificarem a vítima, são muitas mais do que as que chegam ao destino. Desconcertante, esta súbita falta de adereços. E o que dizer de Carrie ter, por telequinese, destruído o ginásio, atirado gente à distância e parado um carro em pleno ar mas, depois de um banho relaxante, nem sequer ser capaz de arrancar uma faca das mãos da mãe…
Em suma, Carrie (2013) é um desperdício de remake. A realizadora não é capaz de transmitir o ambiente de medo vivido em casa e de vergonha na escola, indispensáveis à compreensão da personagem de Carrie e dos acontecimentos supervenientes, Chloë Grace Moretz não tem inocência nem fragilidade (e, em transe pós-porco, move-se como uma ridícula boneca desengonçada, cabeça inclinada para o lado e tudo, qual torcicolo), Julianne Moore tem a demência, mas não a maldade, Gabrielle Wilde e Portia Doubleday têm o sex appeal, mas os seus actos têm a consistência de papel higiénico absorvente, e Ansel Elgort acaba por fazer muito com o seu papel idiota de namorado de uma que aceita ir ao baile com outra. Stephen King, no livro, tinha um trunfo que as versões de cinema desperdiçaram: através dos pensamentos dos personagens, transformava-os em pessoas.  
Carrie 2013 

Djupid, de Baltasar Kormákur

Barco de pescadores naufraga subitamente, todos à água, um chega a terra. Drama sobre uma desgraça que pode ocorrer em qualquer zona costeira do mundo, desta feita com as câmaras a sobrevoarem uma aldeia piscatória islandesa. Infelizmente, é um filme sonâmbulo, que acompanha os eventos sem lhes juntar nada, nem sequer sentimento. É tão de cartilha que até o sobrevivente, entre braçadas geladas, perde tempo numa conversa de circunstância com uma gaivota, já que não havia bolas de basket por perto.
Baseado em factos reais, o milagre do pescador ter aguentado seis horas num oceano a 2ºC (e nadado para a margem durante esse período, sem ser incapacitado pela hipotermia que vitimou os colegas) foi analisado laboratorialmente, com ele a sujeitar-se a testes médicos para determinação das causas físicas da sua sobrevivência, pela repetição do trauma num tanque. Concluiu-se possuir um equilíbrio térmico surpreendente, capaz de aguentar temperaturas muito inferiores ao comum dos mortais. Salteadas ao longo da película, dispõem-se recordações amarelecidas da sua infância, aquando da erupção do vulcão da ilha, eventualmente a mostrar que esta gente vive entre a água e o fogo.
Ólafur Darri Ólafsson, que pode ser visto como uma imitação de Bud Spencer em A Vida Secreta de Walter Mitty (2013) e no quinto episódio da série True Detective, arrasta-se como um simples gordo grandalhão sem a menor capacidade de comunicar, através de expressões faciais, para além do básico desamparo. Tão desmotivado se mostra o realizador, o que espanta ainda mais que este tenha sido o candidato apresentado pela Islândia ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013. Entretanto, Baltasar Kormákur aterrou em Hollywood, com Contrabando (2012) e 2 Guns (2013).
Djupid – The Deep 2012

Cropsey, de Joshua Zeman e Barbara Brancaccio

Documentário pleno de amadorismo, estruturado em cima do joelho e filmado sem dedicação ao detalhe ou ao enquadramento, que mistura a lenda urbana Cropsey com o caso real de um assassino em série de Staten Island, o distrito de Nova Iorque encarado durante décadas como aterro municipal, não só de lixo como de vítimas da Máfia.
Nesta ilha, que nem sequer foi servida de uma ponte durante a maior parte do século XX, situava-se uma instituição para tuberculosos e doentes mentais sem condições, encerrada após o escândalo que pôs a nu as deficiências das instalações e o horror ao nível dos cuidados humanos. Muitos dos funcionários do manicómio continuaram a morar no perímetro de Willowbrook e a polícia reconduziu quatro dos trinta desaparecimentos de crianças a um ex-contínuo. Sem corpos e através de provas circunstanciais e testemunhos duvidosos, André Rand foi condenado a 25 anos por um dos crimes e 17 anos mais tarde, quando estava prestes a ter liberdade condicional, foi condenado a prisão perpétua por outro dos alegados desaparecimentos, com provas ainda mais débeis. A intenção era que o indivíduo nunca regressasse às ruas.
O casal de documentaristas cresceu em Staten Island e lembra-se de brincar nos edifícios abandonados e decrépitos de Willowbrook, onde se dizia habitar o sequestrador de crianças Cropsey, versão nova iorquina do Papão. Facto ou folclore é a base da investigação, que aprofunda o caso de André Rand até 2008, ano da sentença pelo segundo rapto. Ele tinha sido contínuo do manicómio, a sua mãe fora internada anos antes numa instituição cuja planta arquitectónica era muito semelhante à de Willowbrook e havia rumores da existência de um labirinto de corredores subterrâneos habitados por sem-abrigo e onde se desenvolviam rituais satânicos, com eventuais sacrifícios humanos. Todas as vítimas tinham atraso mental. Rand nunca assumiu a culpa nem falou com jornalistas. 
Cropsey 2009

Black Rock, de Katie Aselton

Fruto da moda crowdfunding, Black Rock é a prova de que o financiamento cego pode não andar de mãos dadas com a criatividade. Katie Aselton (The Freebie, 2010) e o marido Mark Duplass (Safety Not Guaranteed, 2012) colheram os fundos e distribuíram-nos entre si. Ela realizou e protagonizou, ele escreveu e o irmão dele produziu. Kate Bosworth e Lake Bell devem ter participado por amizade. 
Assim que as duas mulheres atraentes que abrem o filme (Kate e Lake) dialogam sobre a paradisíaca ilha deserta onde vão acampar durante uns dias, a originalidade é instantaneamente lançada pela janela e o resto é um sofrível revisitar dos clichés mais básicos e sofríveis do género rape & revenge, que desde os anos 1970 grassa o celulóide mais económico. Tão económico que se fica por uns míseros 80 minutos (créditos incluídos), tempo insuficiente para desfazer a meada, pelo que o novelo é atirado em bruto ao público.
Eventualmente conscientes da qualidade anódina do resultado, a realizadora decide despir-se e a Lake Bell para uma cena de apanha-paus nocturna, mas nem a surpresa para a libido compensa a esterilidade do projecto. Ainda que não se conteste o direito a dizer não de uma mulher durante qualquer fase do avanço sexual, é indesmentível que a conduta da personagem provocatória é inconsistente ou repreensível, seduzindo um pouco interessado ex-militar de forma óbvia, grosseira e continuada, apenas para negar-se quando ele finalmente decide cooperar. A relevância deste ponto é consequentemente ignorada, quando teria sido um bom ponto de partida para, pelo menos, uma novidade: questionar até que ponto é plausível provocar um animal adormecido e rejeitar as consequências. O pouco suspense a que se assiste termina em frustração, a escassa nudez por entre os arbustos e sombras é tão gratuita como num sexploitation e a tentativa de violação em si é rápida, discreta e, se o filme fosse mudo, invisível. Kate Bosworth, aqui poupada ao frio, foi violada no remake de Straw Dogs de 2011.
Black Rock 2012

The Bleeding House, de Philip Gelatt

The Bleeding House acompanha a chegada de um homem vestido de branco e muitas cornucópias vocais a uma remota vivenda, pedindo guarida por uma noite, e o destino da acossada família que, para mal dos seus pecados, o acolhe. Apesar de engenhoso no seu minimalismo, o cartaz acaba por resumir tudo o que se segue, descarnando o enredo à sua previsibilidade, os diálogos à vulgaridade e o que faltar ao marasmo. Escrito e realizado por Philip Gelatt, The Bleeding House é daqueles filmes que partem de uma ideia e não conseguem descolar dela. O estilo fatalista não engrena com o suspense e, quando as pontas começam finalmente a desatar, não sabe o que fazer com elas. Não se destacando pelo elenco nem pela direcção de fotografia, acaba por encontrar na banda sonora atmosférica da violoncelista islandesa Hildur Guðnadóttir o elemento mais inspirado, com solos de harpa, cordas, piano e oboé.


The Bleeding House 2011

Silent House, de Chris Kentis e Laura Lau

Em 2010, o uruguaio Gustavo Hernández decidiu experimentar fazer uma longa-metragem com a opção de filmagem contínua de uma máquina fotográfica digital (a Canon EOS 5D Mark II). Num só take, seguiu uma jovem amedrontada durante 74 minutos, pelo interior de uma casa de campo, durante a noite, enquanto esta ia se arrepiando com ruídos, sombras e a presença de um intruso. Silent House (2011) é o seu remake norte-americano, dirigido de forma a imitar o processo do original, mas efectivamente constituído pela montagem de pedaços de dez minutos cada.
 
O casal de realizadores Chris Kentis e Laura Lau conseguiu alguma notoriedade com Open Water (Em Águas Profundas, 2003), um docudrama muito amador sobre um casal que terá permanecido 24 horas num oceano infestado de tubarões, quando o barco turístico que os conduziu lá partiu sem eles. Silent House teve um planeamento muito mais profissional, com o director de fotografia e operador de câmara Igor Martinovic a saber utilizar uma grua e a passar a mesma câmara para o ombro quando foi preciso filmar interiores, deslizar por entre os actores sem atrapalhá-los e manter um foco de luz a incidir sobre a cara de Elizabeth Olsen (Martha Marcy May Marlene, 2011) sem encandeá-la.
Apesar de calcorrear os cantos de uma casa diferente, a narrativa é praticamente igual, sem que a fugaz presença de uma personagem suplente altere o desenvolvimento, apenas americanizando o final e tornando óbvias algumas pistas que, no original, não eram mais do que insinuadas. A introdução de elementos surreais (uma menina de tutu em cima da mesa de bilhar, a ser fotografada por uma polaróide; a ser arrastada de debaixo de uma cama e a aparecer uma mancha de sangue no colchão vazio) era dispensável, ganhando La Casa Muda com o realismo que tornava as sombras mais enigmáticas. No fundo, trata-se apenas de uma casa com más memórias. Inegável a favor do remake é a intensidade da actriz (que não parece tanto estar a admirar a decoração da casa como no original) e a fartura no preenchimento do seu decote, defeito se considerarmos que pode distrair do essencial.
Silent House 2011

Europa Report, de Sebastián Cordero

Em 1969, o Homem chegou à Lua. Depois, ficou-se por cá. Do desejo e da imaginação de ir mais longe, tem-se encarregado o cinema. Alguns dizem que o próprio passo que foi pequeno para o homem e grande para a Humanidade foi uma farsa, filmada em estúdio para aquecer os corações norte-americanos, constipados com a Guerra Fria, ou não tivessem o mentiroso Richard Nixon na presidência.
 
Europa Report decide ir até onde nenhum homem foi e coloca quatro homens e duas mulheres num módulo rumo a uma das luas de Saturno. E diz que as imagens exibidas são uma montagem das filmagens reais, feitas pela equipa de astronautas. Que é uma montagem, não há dúvida, mas escusava de ser tão manhosa. O artifício da found footage já esgotou a novidade e Sebastián Cordero, realizador equadoriano com quatro filmes no currículo, não inova. Câmaras fixas nas paredes e nos capacetes, sujeitas a abanadelas e correcções de cor, distorções digitais e simples jogos de luz. O realismo não é auxiliado pelas caras dos actores, reconhecíveis um a um por trabalhos anteriores, nem pela extrema previsibilidade do guião básico de Philip Gelatt. Como simulação de uma viagem espacial, perde para Apollo 18 (2011), onde outro latino (o espanhol Gonzalo Lopez-Gallego) fez um convincente trabalho de época em moldes semelhantes. Depois de Battlestar Galactica e de Caprica, Bear McCready, compositor em ascensão entre a televisão e o cinema, continua a controlar o som do cosmos.
 
Europa Report 2013

Raptadas, de Denis Villeneuve

No Dia de acção de Graças, duas famílias dividem um peru e perdem as filhas mais novas. O rapto é imediatamente investigado e um suspeito sai em liberdade. Um dos pais desconfia. Nada será como dantes. Duas horas e meia de coração na boca, a assistir ao desespero dos progenitores e ao progresso tenso da investigação, em redor de um drama que bate cada vez mais próximo da nossa própria porta. Com invulgar intensidade, tenacidade e coragem, o canadiano Denis Villeneuve (Incendies, 2010) conduz a audiência às escuras com um completo controlo da narrativa, dos actores e dos sentimentos dos personagens, através da desorientação, da dor e de atitudes irracionais, saltando por cima da desistência de uns e partilhando da obsessão dos outros.
Emocionante do primeiro enquadramento dos faróis traseiros de uma caravana com o pneu traseiro em mau estado até ao não figurado apito final, Raptadas revela-se um tour de force, uma força viva que devora a expectativa do público, na sua fúria de sentir e na lentidão com que reconforta. Não toma atalhos, não se conforma com a urgência de saber e sacrifica o público com a incerteza até este implorar, não se aguentando mais na cadeira. É um filme sobre tortura e que tortura. Mas não podia ser mais gratificante.
Sendo um filme que aborda o sofrimento, a inocência perdida e o tratamento de prisioneiros em situações extremas, todos os actores estão de parabéns pelo empenho, pelo esforço de reagirem ao indesejado pânico de perderem um ente querido para alguém vicioso, desde a agressividade de Hugh Jackman à inércia de Terrence Howard, passando pelo entorpecimento de Maria Bello e pela meticulosidade de Jake Gyllenhall, pelas mulheres fortes que, cada uma à sua maneira, Viola Davis e Melissa Leo voltam a representar. E, evidentemente, cumpre perguntar: quem é que, num dado momento da sua vida, não quis chegar a roupa ao pelo de Paul Dano?
Em relação à caracterização, fica por explicar a relevância das tatuagens do detective da polícia, uma cruz cirílica na mão e uma rosa-dos-ventos no pescoço, e o facto de piscar constantemente os olhos. Sendo que o símbolo mais visível costuma representar a ideia de recomeço, as pistas para o caso concreto terão, eventualmente, ficado no chão da sala de montagem, e muito se agradeceria ao guionista Aaron Guzikowski se trouxesse a lume um esclarecimento. Também poderá questionar-se a relevância de o pai que recorre à tortura ser caçador, ligando o facto à política de restrição do direito de posse de armas actualmente em debate. E, já que falamos em tortura, quem consegue indicar um teatro de guerra, envolvendo os EUA, onde estes não tenham recorrido à brutalidade metódica nos seus interrogatórios, ou à suspensão dos mais básicos direitos humanos dos seus prisioneiros? Fará assim tanta diferença a acção passar-se entre civis? Quantos espectadores não abandonarão o cinema concordando com esta forma de obter informações não fornecidas voluntariamente?
 
Por fim, o factor religioso, que paira no ar mas nunca é equacionado directamente: o anel de mação livre do detective, o pai carpinteiro (a profissão de Cristo) ter o auto-rádio sintonizado numa estação evangélica, a justificação para os raptos ser uma guerra contra Deus, transformando penitentes em demónios. Eventualmente forçado ao exagero no campo visual, mas raramente implicado nos diálogos, fica a dualidade do bem e do mal, do correcto e do errado. A moralidade dispensa a religião e é por isso que a temáticas e o seu simbolismo funcionam igualmente para o público beato e laico. Não esquecer, também, o título, subjacente ao qual está a ideia de que ninguém é livre, somos todos prisioneiros das nossas mentes e daquilo que as habita, condicionados pelo que acreditamos ou por situações a que fomos sujeitados. Como as vítimas de sequestro, cuja recuperação é, possivelmente, um trabalho sem fim. 
 
Prisoners 2013

Tuesday, November 12, 2013

No One Lives, de Ryûhei Kitamura

Esta produção WWE/Pathé tem uma única finalidade e cumpre-a: capitalizar no carisma de Luke Evans; e, sim, percebe-se perfeitamente porque é que os produtores de Furious 6 (2013) acharam que ele era um adversário à altura da dupla Diesel & Rock, mesmo sem a imponência física dos citados. De resto, temos o argumento de Breakdown (1997) com um twist (e se a vítima indefesa for um psicopata cheio de recursos), America Olivo a tomar duche de bóias, Lee Tergesen no papel errado e Adelaide Clemens de saída para Silent Hill (Revelação, 2012). A história podia ter dado para muito mais, mas ficamo-nos pelo mero serial killer mata em série; pelo menos, não é aborrecido. Ryûhei Kitamura, realizador de Versus (2000), Azumi (2003) e Midnight Meat Train (2008), não faz mais do que a sua obrigação.


No One Lives 2012

Guerra Mundial Z, de Marc Forster

Se George Romero popularizou o fenómeno dos Mortos Vivos como comentário social, a actualização destes seres esqueléticos que aumentam de número exponencialmente só poderá representar as hostes de desempregados que os patrões, geneticamente avessos à solidariedade, gostariam de eliminar sumariamente, depois de explorados até ao tutano. Aparentemente, o filme baseia-se no título de um romance apocalíptico de Max Brooks, publicado em 2006, que este fizera seguir ao satírico Guia de Sobrevivência Anti-zombi, de 2003. Enquanto que o livro documenta, através de relatos, a experiência de dez anos de combate à pandemia Zombie, o filme prefere ser uma espécie de Contágio (2011), com um investigador das Nações Unidas a tentar determinar a origem e a cura para o primeiro surto.
Depois de fazer um James Bond com história a mais e acção a menos (Quantum of Solace, 2008), aquilo que Marc Forster aprendeu foi a eliminar a história. O muito elogiado guião de J. Michael Straczynski (Babylon 5 e Rising Stars) foi eliminado e rescrito por Matthew Michael Carnahan (The Kingdom, 2007, Lions For Lambs, 2007 e State of Play, 2009), transformando a narrativa num policial com ataques avulsos de zombies anárquicos. Foi a empresa de Brad Pitt a adquirir os direitos de adaptação, pelo que é o seu personagem que vai seguindo as migalhas e enfrentando o que, no livro, eram lentos desmiolados sem capacidade de organização e, no filme, correm tanto como os de 28 Dias Depois (2002), tão rápidos que até lhe roubam o hino composto por John Murphy (a banda sonora de World War Z é de Marco Beltrami). Contudo, em vez de aterrorizarem como no filme de Danny Boyle, estes malucos fazem lembrar a imprudência da equipa de Jackass, a saltarem para o abismo por não medirem consequências.
Brad Pitt passa o tempo a correr e a afastar dos olhos um penteado que não o favorece, o papel de Matthew Fox foi transformado num cameo sem falas (o seu papel incluía seduzir a mulher do protagonista, mas acabou a seduzir o chão da sala de montagem), David Morse arranca os dentes sem anestesia e James Badge Dale andava esquecido desde a terceira temporada de 24 e, subitamente, também entra em Homem de Ferro 3 e O Mascarilha (2013). Entre as ilações que o protagonista parece tirar da cartola e o facto das desgraças só acontecerem quando está por perto, o filme não serve entretenimento nem inteligência, arrastando-se na medida inversa à velocidade dos zombies.
World War Z 2013